ILC contra o Acordo Ortográfico

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Penso que o cerne da questão será: futuro risonho para o português de Angola que é absolutamente avesso ao acordo linguístico, mas este é assunto para outro debate, ao lado de mais de uma dezena de outras línguas angolanas, faladas e ainda pouco escritas pelos povos de Angola.

Flag_of_Angola.svgFalar do futuro da língua portuguesa implica, antes de mais, falar do seu passado. Tal como só podemos discorrer acerca do futuro de alguém se tivermos em conta o seu passado e presente, a sua história, também para falarmos do futuro de uma língua, temos de considerar em primeiro lugar o seu passado e o seu presente.

Mas, antes disso, tenho de dizer que fiquei boquiaberto quando o Salas Neto me ligou a pedir um texto por ocasião dos 800 anos da língua portuguesa. Porquê boquiaberto? Porque não sabia de qualquer 27 de Junho como dia da língua portuguesa – sabia antes do 10 de Junho, que se confunde com o dia da nacionalidade portuguesa.

Porém, bem vistas as coisas, é salutar a separação entre o dia da nacionalidade e o dia da língua. Até porque há língua portuguesa fora da nacionalidade portuguesa – e, inclusivamente, a esmagadora maioria dos falantes de português tem nacionalidade diferente da portuguesa.

Apoio, portanto, a ideia do 27 de Junho ser o dia da língua portuguesa, tanto mais que se trata da data do primeiro documento escrito em língua portuguesa por um soberano – D. Afonso II, que a 27 de Junho de 1214 subscreveu o seu testamento, 76 anos antes de D. Dinis transformar o português em língua oficial na que viria a ser a pátria de Camões.

A dúvida é se devemos ou não celebrar a data em Angola. Eu penso que sim, porque a língua portuguesa transcende desde há muito as fronteiras de Portugal, sendo hoje (também) língua dos angolanos. Ao contrário do que muita gente pensa e até afirma, a língua portuguesa é de Angola, da mesma forma como o é de Moçambique, de São Tomé e Príncipe, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau ou do Brasil. Da mesma forma como há um português do Brasil (com sotaque próprio e outras nuances), também há um português de Angola.

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Flag_of_Mozambique.svgUma língua nasce de processos diversos, simples e/ou complexos, resultando no veículo de comunicação – e de afirmação, em muitos casos – para estados e povos.

Nessa toada, o latim, que de Lácio se espalhou pela Europa ao ritmo das conquistas do Império Romano, deu origem (e continuidade) a processos que resultaram, mais ou menos à medida do declínio daquele, no surgimento de cerca de dez línguas, entre elas o Português que hoje é também o nosso veículo oficial de comunicação. Também nosso porque para além dos portugueses o idioma passou a pertencer igualmente a nós e aos angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, são-tomenses e timorenses.

O Português nasceu naquele século, mais precisamente a 27 de Junho de 1214 – fez há cerca de um mês precisamente 800 anos –, apenas do ponto de vista formal, já que antes disso já era falado, obviamente pelos portugueses e, não menos óbvio, em Portugal. Nessa data, o rei de Portugal D. Afonso II registou o seu testamento, sendo recordado por ser o mais antigo documento oficial redigido neste idioma.

A história da afirmação do Português é epopeica, cantada por Portugal ao longo dos séculos em que os desígnios da dominação eram o vento-querido. Actualmente, é a sétima língua mais falada dentre as 6000 usadas no mundo. Aquilatou-se ao ultrapassar territórios poder ser adoptada como língua de comunicação em eventos internacionais, ao mesmo tempo que irrompeu para territórios que lhe são “estranhos”. A anglófona e multi-bantu na África do Sul, por exemplo, alberga no continente africano a terceira maior comunidade falante de Português, depois de Moçambique e Angola.

Na nossa contemporaneidade olhamos para a língua Portuguesa como uma herança, como a ponte que nos aproxima de nós mesmos e dos outros, os outros que, como nós, por ela estão unidos. O Português aproxima os moçambicanos de si mesmo porque, desde que conquistámos a independência, em 1975, a nação que se quis una adoptou-o como uma espécie de carris por que se pode percorrer cada pedaço do nosso Moçambique.

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Como vê o futuro da língua portuguesa hoje falada por 244 milhões de pessoas?

No dia 27 de Junho comemorou-se os 800 anos da língua portuguesa. 27 de Junho de 1214 é simbolicamente considerado dia do nascimento da língua portuguesa por ser o dia do documento mais antigo que se conhece escrito em português. Relativamente a efeméride o “Nô Pintcha” auscultou as opiniões de alguns cidadãos nacionais:

Odete Semedo – Escritora
Acho que, a situação, o lugar e as expectativas criadas a volta duma língua têm sempre a ver com a política linguística do país. Ora bem, temos a língua portuguesa como a língua oficial e materna para um vasto número de guineenses, pelo que não deixa de ser um idioma que utilizamos na comunicação com o mundo.

Portanto, a nossa política linguística deve ser mais clara, sobre que engajamento o Ministério da Educação, enquanto sector da cultura, prioriza para com a língua portuguesa, embora, o que os responsáveis da área têm vindo a fazer em prol do desenvolvimento da referida língua, não nos ajuda, no sentido de termos, por exemplo, um professor com um bom domínio do português falado e escrito.

Neste sentido vejo o futuro da língua portuguesa como algo dependente da política linguística que a Guiné-Bissau irá assumir nos próximos tempos.

Para mim, dia 27 de Junho é uma data significativa, cuja comemoração devia contar com o apoio do Ministério da Educação e Cultura. Pois, é a nossa língua oficial e valeria a pena, os guineenses assumirem-na devido a posição destacada que ela ocupada a nível mundial.

A título de exemplo, o português é a terceira língua europeia, a quarta mundial mais falada e a sexta mais utilizada em negócios. Aliás, quero com isso mostrar a necessidade do engajamento das autoridades guineenses na melhoria da política linguística, uma vez que, o idioma de Camões deixou de ser de Portugal, mas sim, dos países que o adoptaram livremente como língua de trabalho.

Silvino Braba – Filólogo
Quanto a mim, durante os 800 anos, o português conseguiu unir vários povos e civilizações, pelo que hoje em dia esta língua faz parte das mais faladas a nível mundial, nomeadamente depois do Inglês, Francês, Espanhol.

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Afligem-me o descuido e o descaso, a incompetência e a rigidez, embrutecidos todos estes males por um Acordo Ortográfico que descobriu o caminho mais rápido para o suicídio colectivo. Como se, de repente, milhões de falantes nos esquecêssemos de que as línguas são vivas e fá-las o povo que se comunica e jamais o decreto estéril do burocrata rodeado de poder.

Flag_of_Angola.svgUm pedaço de papel – Testamento de D. Afonso II, de 1214 -, sobrevivente audaz da acção de gerações de carcomas, veio mudar tudo. Tudo é uma maneira de dizer, na verdade, mas alguma coisa apenas. Trouxe mais uma data para comemorar, num mundo que passa bem com os seus crescentes marcos para lembrar imensas coisas, como se a Humanidade receasse os seus próprios apagões de memória.

Para se poder dizer que vem de longe a língua em que se escreveu os Lusíadas, a régia relíquia faz um jeito tremendo e aqui estamos, em diferentes pontos do planeta, a glorificar os oito séculos de um património que a expansão dos mares tornou vastamente comum.

Certeiros os que repescaram o pretexto para se exprimir ideias em torno da língua levada a bordo pelos marujos que circundaram o mundo, momento bom para, entre velas acesas e foguetes a ribombarem, gabar a solidez do português como riqueza dos homens. Nas cinco partidas – Europa, América, África, Ásia e mais além, na Oceânia – ouve-se a língua, tem-se comunicação, volta-se ao tal pedaço de papel com 800 longos anos. Brinda-se, numa celebração de rugas triunfantes, à incrível capacidade de desbravar caminhos e seguir em frente.

O que dizer num dia assim, de caminhos festivos? Quiçá fugir-lhe precisamente dessa obviedade, a fanfarra, o rufar dos tambores, a algazarra, para ficarmos com o lado mais rigoroso e contido da celebração. Sim, porque vale a pena meditar sobre o presente e o amanhã da língua que nos serve a comunicação, num tempo de desassossegos invulgares.

Caberá a cada qual exprimir-se com as dores que o atormentam, sempre de níveis variados por todas as razões, mas como angolano que se deita e se levanta com a ferramenta língua à ilharga, as preocupações e angústias são para dizer na curva pesada dos 800 anos.

Estareis felizes com os rumos da língua?, perguntariam, se possível, D. Afonso II, Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz ou Jorge Amado.

Dir-lhes-ei, como utilizador privilegiado da língua (privilegiado no sentido do uso frequente, nunca sob qualquer outro olhar), que adoraria estar por cá na curva dos próximos oito séculos para saber, até lá, o que terá sucedido à resistente língua.

Afligem-me o descuido e o descaso, a incompetência e a rigidez, embrutecidos todos estes males por um Acordo Ortográfico que descobriu o caminho mais rápido para o suicídio colectivo. Como se, de repente, milhões de falantes nos esquecêssemos de que as línguas são vivas e fá-las o povo que se comunica e jamais o decreto estéril do burocrata rodeado de poder.

O português, como toda e qualquer língua mergulhada no empenho da perpetuidade, tem de ser deixado aos seus forjadores (in)conscientes, às comunidades, cabendo aos cérebros da academia a vigilância que protege as reservas sem mutilar essências nem, muito menos, trucidar cada novo espigão. Estará moribunda a língua dos oito séculos no dia em que, de Dili a Maputo, Salvador a Luanda, Bissau a Lisboa, o ritmo, o sotaque, o vocabulário e a cadência procurarem o mesmo trilho!

Jornalista e escritor. Texto originalmente publicado no jornal Semanário Angolense (Angola) a 28 de Junho de 2014

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Luís Fernando, publicado no semanário "Angolense" (Angola) em 28.06.14. Reproduzido pelo jornal "Público" em 27.07.14, no âmbito da iniciativa «24 jornais escrevem sobre futuro do português» (ver "compilação" AQUI). Imagem (bandeira de Angola) de Wikipedia.]

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Seria rica essa convergência em Angola de um tal caudal linguístico. Para os linguistas, dicionaristas, seminaristas e académicos, importa a norma, a morfossintaxe, semântica, numa ordem ortodoxa. O vocabulário corrente entre estratos sociais de Angola, como o exemplo mostra, sobretudo nas camadas jovens urbanas, nasce de uma necessidade de sobrevivência diante da falta de escolas, em quantidade e qualidade, e pior, da falta de possibilidades de as frequentar, por carências económicas e financeiras. Nada tem a ver com o Acordo Ortográfico: um gigante de pés de barro.

Flag_of_Angola.svgNão se pode festejar o surgimento de uma nova língua em Angola. A língua portuguesa, de origem românica, é intrincada, ambígua, faustosa. Não se pode festejar a morte da língua portuguesa em Angola, uma vez que seria festejar a morte dos seus falantes: umbundus, bakongos, kimbundus, tchokwes, nganguelas e imbindas. Os que festejariam a morte da língua portuguesa em Angola nada teriam para nos oferecer, diante do seu mutambi.

Eu sou, na minha idade, um meio ancião. Nasci falante de uma língua bantu, numa comunidade bantu. Nasci num universo linguístico em que a língua portuguesa não aquecia nem arrefecia o ambiente social e económico. Muito menos o político.

Portanto, na minha idade, e isso independe da minha condição de escritor, carrego nos ombros uma vivência, com ciclos de vida que se foram fechando ao longo da caminhada. Outros se abriram. Da pequenina aldeia, à beira do Kuanza, à aldeia maior, Luanda, passei a figurar nas estatísticas globais. A juntar-se à língua materna, veio a língua portuguesa (portanto, não festejemos o seu mutambi). Na minha memoria, o meu universo é o mesmo, e não há nada em mim que estrebuche, por desejar pertencer à lusofonia, só porque sou falante da língua portuguesa. A língua portuguesa é mais uma entre as muitas que falamos em Angola. Com a particularidade de ter sido investida de personalidade unificadora da nação. Às línguas bantu, a Constituição atribui o estatuto de parceiros da língua portuguesa. É uma paridade fingida.

Sobretudo porque persiste entre nós um ambiente inibidor para circulação das línguas nacionais. Nos hospitais, nos tribunais, nas instituições governativas. Mas esta é a questão: se atribuímos uma paridade inquinada na pureza das intenções do legislador às línguas nacionais em relação a portuguesa, significa imediatamente uma coisa ou duas, no mínimo, uma ambiguidade. Mesmo nós, angolanos, já temos uma maneira, dolente, de falar português. Nessa maneira de falar, incorporamos no português elementos do nosso universo angolano. E há ruídos do português nas línguas nacionais.

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Angola como Nação que já temos à mão precisa de uma nova identidade, distinta daquela desenhada pela potência colonial. Tal passará também, a meu ver, pela tangibilidade da comunicação. A função primeira da língua é comunicar ou passar a mensagem. Durante largos anos, os portugueses incutiram aos angolanos a ideia de que as línguas bantu eram sinónimo de desprestígio social. A nossa identidade milenar, que não se perdeu ao longo dos 500 anos de presença europeia, irá refundar-se numa nova forma de articulação oral que passa para a escrita e daí para uma nova norma.

Flag_of_Angola.svgOs desvios à norma (uso popular ou vulgar da língua) coabitarão com o uso normativo, sem que para tal surja uma nova língua ou essa desarticulação pode levar a nova forma de comunicar (por oralidade e escrita)? Os excessivos desvios, os empréstimos/ importações de outras línguas africanas (angolanas) e o génio criador/inventivo de novos vocábulos (neologismos) levarão ao surgimento do «Angolês»? Poderá ou não surgir em Angola, dentro de séculos, uma língua distinta do Português Europeu e da miríade de idiomas expressos no universo angolano?

Partindo de estudos sincrónicos e diacrónicos (evolução histórica) das línguas, atentos às tendências, autores como Carlos Figueiredo, Francisco Edmundo, G. Bender, Amélia Mingas, entre outros, apontam os desvios visíveis na utilização da Língua Portuguesa em Angola como propiciadores do surgimento de uma «nova» língua a que designam por «Angolês», «Português Angolano», etc..

Atendendo que as línguas têm sempre diferentes níveis de utilização (vulgar/popular, padrão/ norma e erudito/científico), evolução, transformação e gestação de novas identidades linguísticas, urge tecer algumas considerações a propósito da Língua de Camões falada em Angola.

O idioma Português não é mais do que a evolução de um conjunto de idiomas ibéricos que parte dos Celta, do Latim, do Castelhano, etc., que, em contacto com realidades linguísticas (morfológicas e fonológicas) africanas, americanas e asiáticas, delas tomou empréstimos e ganhou amplitude. O caminho trilhado pelas línguas ibéricas, até se chegar aos idiomas actuais, será, com o tempo, replicado nos países em que o Português chegou por via da colonização/imposição. Essa tendência pode ser observada em Cabo Verde, onde, do Português e das Línguas africanas da África Ocidental levou ao surgimento do crioulo, que já é língua nacional daquele país, coabitando com o Português, língua oficial. Por mais que defendamos a pureza da língua de Camões, teremos de nos vergar, um dia, à evidência e reconhecer facto semelhante em Angola.

O surgimento do «Angolês», ou outra designação que lhe for atribuída, será apenas uma questão de tempo, de maior criatividade dos falantes, uniformidade semântica dos vocábulos em todo o território e criação de um instrumento morfológico e sintáctico distinto das línguas que lhe dão origem (Português Europeu e línguas bantu e não bantu do território angolano).

Há hoje um novo paradigma linguístico que emerge nos nossos bairros, nas nossas sanzalas, nas aldeias, nas falas do povo que sente «ser mais importante comunicar do que as críticas dos gramáticos». Há uma nova língua que se vai distanciando cada vez mais da norma, que se expande através da música e da literatura, uma língua que é falada e que facilita a comunicação, que já é lida e muito cantada.

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O Novo Acordo Ortográfico firmado entre os países de língua portuguesa é um tiro desse pensamento hegemónico português que saiu pela culatra. O Brasil roubou a cena com a maior parte das alterações a seu favor, incomodando assim profundamente a intelectualidade tuga. Os países africanos, em maior ou menor grau, resistem.

Flag_of_Angola.svgSe a Língua Portuguesa faz 800 anos, o que é que nós temos a ver com isso? Tudo. Sim, nós, os angolanos (e demais africanos falantes do português), temos tudo a ver com isso, mesmo que, ao contrário dos portugueses, não tivéssemos nenhum motivo para comemorar essa data (e não sei se temos e nem porquê teríamos que ter).

O certo é que, por mais que sejamos kimbundos, umbundos, kikongos, nganguelas, tchokwes,kwanhamas e outros bantus, toquemos batuques, cantemos massembas e dancemos tchiandas, enfim, apesar de quaisquer africanidades que possamos exibir, nós nao falamos apenas a Língua Portuguesa. Nós somos a Língua Portuguesa. Nós pensamos em Português.

Certamente, não será esse o juízo dos nossos cotas, já que eles estarão sempre agarrados à necessidade de conservação das nossas línguas nacionais (com muita razão). Também não é a ideia de muitos dos chamados intelectuais, para quem o Português é a língua materna. Para todos em geral, a Língua Portuguesa (a oficial) é estrangeira. Então, «sermos» a Língua Portuguesa ou «pensarmos» por meio dela, afigura-se como uma aberração.

Mas, no fundo, basta matutar. Depois de quase cinco dos oito séculos de existência dessa língua terem sido dedicados à colonização em África e ela ter sido um dos principais instrumentos de moldagem do homem colonizado, mormente com a rigorosidade do processo de assimilacionimo em que a cultura europeia nos foi dada a engolir, «naturalmente», o resultado não poderia ser diferente.

Isso, porém, sem deixar de ressaltar que essa preocupação com a língua nunca foi exactamente objecto de cuidados aquando da colonização. Afinal, os africanos iletrados eram considerados «fora» da história, só «entrando» nela através das formas de dominação, tendo a política de não-educação sido uma maneira de manter o estatuto de inferioridade do colonizado.

Assim, fomos feitos como uma espécie de RoboCop – a figura semi-homem e semi-máquina que o cineastra holandês Paul Verhoeven inventou num dos filmes de Hollywood. Cabeça e alguns membros humanos e o resto do corpo feito de um conjunto de metais automatizados. Um sujeito movido à memória electrónica, com lapsos de lembranças humanitárias.

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«Sobre o Acordo Ortográfico que para mim o debate tem sido no campo acessório. O principal nunca foi debatido. Portugal, talvez por falta de argumentos humanos e financeiros deixou-se levar, por uma iniciativa arrogante que compromete quase tudo. O Acordo Ortográfico, está provado, vai limitar ainda mais a expansão do português. É daí que defendo que, Portugal, enquanto dono da língua, responsável pelo património comum, não podia nunca ir atrás das aberrantes, controversas, desnecessárias e inexplicáveis iniciativas brasileiras de melhorar, senão piorar o português. O Acordo Ortográfico na minha opinião, para além de ser uma questão de pormenor muito insignificante, é um atentado contra a aprendizagem de todos.»

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Língua Portuguesa: um Património comum para evoluir ou para expandir?

Quando recebi o prestigiante convite do Jornal ‘Público’ para, em português emitir a minha modesta opinião sobre ‘Os 800 anos da língua portuguesa’, vieram-me a mente muitas coisas. Uma delas é que iria emitir a minha desactualizada e provavelmente desnecessária opinião sobre o património comum de Estados e bem de milhões de pessoas.

Mas a primeira coisa que me veio a mente e quase pulei da cadeira em que me encontrava sentado quando abri o convite, é que se tratava de uma indisperdiçável oportunidade de poder homenagear, Vasco Graça Moura, não por ser para mim, depois de Luís Camões, o maior e mais declarado lutador pela causa do português. Lutador por um património comum, que certos quiseram branquear (para ser mais suave), em nome da intelectualidade. Foi professor, foi jornalista, foi deputado em que o instrumento do trabalho em tudo foi o português que aprendeu como nativo português, mas a particularidade da homenagem está ligada a sua opinião e a sua posição contra ‘o Acordo Ortográfico’.

A tal decisão assumida pelos Estados membros da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) que até aqui, só contribuiu para desarrumar um português, que, comparando com as outras línguas parece o mais organizado de todos.

Graça Moura lutou na defesa do português puro. Vasco Graça Moura acha que o português antes do ‘Acordo Ortográfico’ estava melhor e também acho o mesmo. E logo dessa conclusão fiz uma analogia entre o que ele pensava sobre o Português e aquilo que Portugal tem feito para o português, como língua de milhões de humanos. A conclusão que cheguei é que, contrariamente a certas mentes e alguns estudiosos, Vasco Graça Moura queria a expansão em vez da evolução.

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«Ao quererem impor-nos um novo acordo ortográfico, quando milhões de nós ainda só estão à procura de uma forma de comunicação, porque ainda nem na língua materna sabemos escrever, o que se poderá pensar dos interesses que estão por detrás disso?

Que viva então a Língua Portuguesa como cada um a quer falar para nos entendermos, embora se possa e deva cultivar que ela se possa falar e escrever cada vez melhor todos os dias por cada vez mais cidadãos. Mas que deixe de ser apenas um exercício Norte-Sul.»

Flag_of_Mozambique.svgO “Canal de Moçambique” foi convidado pelo prestigiado jornal “Público”, da terra de Camões, a associar-se à celebração dos 800 anos da Língua Portuguesa e imediatamente aceitámos aderir.

Aceitámos porque somos uma publicação que sem esse instrumento de comunicação não existiria, e também porque somos de um país em que esta mesma Língua é constitucionalmente (Artigo 10) a Língua Oficial. E assim sendo, permite, sem se ferir a importância das línguas nacionais, que a diversidade étnico-linguística possa entrar num processo de osmose mais fluido e tendente a permitir-nos chegar a um patamar em que a Unidade Nacional deixe de ser um mero exercício de retórica, se bem que a Língua seja apenas um dos segmentos da construção desse objectivo.

“27 de Junho de 1214 é simbolicamente considerado o dia do nascimento da nossa língua por ser o dia do documento mais antigo que se conhece escrito em português. É o testamento do terceiro rei de Portugal, Dom Afonso II”, refere Bárbara Reis, directora do “Público”, no e-mail em que nos propôs que aderíssemos a este simpático projecto de celebração que abrange vários quadrantes deste nosso planeta cada vez mais global, em que também outras línguas, que nem Luís de Camões soube que existiam, participam na construção desta aldeia global para a qual também a Língua Portuguesa acabará por contribuir – nem que seja o nosso Português, o dos que quis a História que nos irmanássemos por via dela.

Não nos atrevemos a eleger o Português como “A Língua”. Somos todos, afinal – na nossa Redacção – apenas uns modestos cultores da Língua que nos permite comunicar. Para muitos de nós, neste pequeno grupo que tem a Língua Portuguesa como uma das suas principais ferramentas, esta nem é a primeira Língua, se bem que cada vez mais em Moçambique haja casais de raiz bantu cujos filhos já nem falam as línguas maternas dos seus progenitores e, por isso, nos pareça que nos encaminharemos rapidamente para que o Português seja cada vez mais uma língua materna do que uma Língua Oficial.

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125px-Flag_of_Sao_Tome_and_Principe.svgQuando D. Afonso II decidiu redigir o seu testamento em língua portuguesa, num acto propositado para marcar a diferença e realçar a independência do ainda jovem reino, não imaginou certamente o fenómeno viral que o seu acto comportaria e que oito séculos mais tarde Portugal já teria, por bem querer, abdicado da paternidade da sua própria língua. Esta impôs a diferença e cantou a independência, deixou de ser de uns e passou a ser de todos.

Certo que qualquer coisa que nasce tem berço, mas é certo também que a sua construção e propalação acabam por ficar perdidas em múltiplos berços e amas que a educam e a constroem. E também quando alguém cantou e espalhou por toda a parte e edificou a globalização de um património que hoje já não pertence ao seu berço.

Cerca de 800 anos depois do terceiro monarca luso ter rubricado o primeiro documento régio redigido em língua portuguesa, onde registava as suas últimas vontades num acto de afirmação da sua irreverência política e diferença identitária, ficava subliminarmente gravada uma das características democráticas da língua portuguesa que assenta no direito à múltipla diferença.

Ninguém pode decidir o que é ou de quem é esta língua que beneficia de tanta unanimidade, permanecendo tão heterogénea. Nenhuma língua foi criada por líderes ou déspotas da palavra, mas foi imposta por aqueles que a utilizam e aplicam. As diferenças entre esses «aqueles» legitimam as tonalidades, substantivos e adjectivos que a língua portuguesa foi adoptando. Assim, a língua portuguesa é hoje um mosaico fiel que respeita legitimamente os milhões de ditadores diários da palavra.

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