Alberto Gonçalves

Língua estufada

O AO permitiu que o idioma que já se praticava maravilhosa mas obscuramente nos romances, na academia, no jornalismo, na retórica política, nos programas televisivos e nas “redes sociais” indígenas alcançasse projecção, desculpem, projeção internacional

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Quase nem valeria a pena lembrar o que aconteceu à língua inglesa. Durante séculos, foi falada e escrita de maneiras diferentes na Inglaterra e na Irlanda, na América e na Austrália, na Libéria e no Gana. Não era uma simples questão de cor local, mas uma tragédia que levava um sujeito de Norwich, em Norfolk, a rabiscar ‘colour’ e um sujeito de Norwich, Connecticut, a preferir ‘color’. E nunca os governos dos referidos países, inspirados por académicos e cidadãos responsáveis, impuseram um padrão comum, que unisse a grafia de Monróvia, Uganda, à de Monrovia, Califórnia. Se houve gente sensata a propor a união, ninguém a ouviu. O resultado é o que se sabe: o inglês definhou e hoje apenas subsiste, para consolo de nostálgicos e excêntricos, no cinema, na televisão, na música popular, na Internet, nos jogos de vídeo, na diplomacia, em muita literatura contemporânea, em boa parte dos ensaios científicos e no jargão das ruas do Ocidente. O desleixo paga-se caro.

Felizmente que em Portugal não se brinca com coisas solenes. Por cá, a prevenção manda e mandou consagrar aquilo que, na alma navegante de cada lusófono, constituía uma necessidade gritante: um acordo ortográfico (AO) para o português. A ideia, inicialmente mastigada por duas dúzias de génios nos seus imensos tempos livres, tornou-se oficiosa em 1991, mereceu a aprovação do prof. Cavaco em 2008, subiu a regra nos documentos do Estado em 2012 e fez-se obrigatória há dias.

Não imagino que sanções se aplicarão aos prevaricadores daqui em diante (sugiro açoites na praça ou a digestão dos discursos da dra. Edite Estrela). Sei que o AO se mostrou fundamental na afirmação do português no mundo. À semelhança de um grupo coral de afónicos, uma língua repleta de “cês” mudos, por exemplo, não convenceria ninguém. Falo (e escrevo) por experiência própria: sempre que narrava um “facto” trivial a um estrangeiro, o fulano olhava-me com desprezo ou troça. Desde que passei a contar-lhe “fatos” é vê-lo encolher-se perante a pujança da expressão. E quem respeitava os acentos agudos nas paroxítonas? Sem acentos, o português -língua fica igual ao português -povo da gesta marítima: heróico, perdão, heroico.

Por enquanto, o AO permitiu que o idioma que já se praticava maravilhosa mas obscuramente nos romances, na academia, no jornalismo, na retórica política, nos programas televisivos e nas “redes sociais” indígenas alcançasse projecção, desculpem, projeção internacional. Em breve, graças às desenfreadas exportações livreiras (crescimento de cerca de 0% em seis anos, segundo a Porto Editora) e ao contágio do tipo ébola, a projecção, chiça, projeção vai transformar-se em domínio: os anglófonos, francófonos e etc. irão abdicar dos seus dialectos, mau Maria, dialetos e, enfim, ceder ao verbo de Natália Correia e Marco António Costa.

Não tarda, a Terra toda escreverá e falará como nós. Excepto, agora a sério, alguns países lusófonos que ignoram o AO, para irritação dos que, na língua, se afligem mais com a forma do que com o conteúdo. São os mesmos que, em matéria de livros, gostam de os cheirar, tocar e dormir com eles – e depois não lêem, irra, leem nada que preste. É tara de semi -analfabetos, raios me partam, semianalfabetos.

(…) logotiposabado

[Transcrição parcial de artigo, da autoria de Alberto Gonçalves, publicado pela revista “Sábado” em 26.05.15. “Links” e destaques nossos. Imagens da revista.]