Os vendedores do “bom português” devem andar felicíssimos. O lote de livros, livrinhos e livrecos editados para que nada nos falte em matéria de aplicação e conhecimento da aberração a que se convencionou chamar acordo ortográfico não pára de aumentar. Vou escrever de novo, cumprindo o acordo: “Não para de aumentar.” Vai dar ao mesmo, não vai? Pois é o que asseguram os defensores do “bom português”, muitos dos quais (senão mesmo a maioria) chumbariam em qualquer exame primário do português corrente. O que interessa, para eles, é que a coisa se cumpra, a pretexto de salvar o acordo. O que nem é difícil. Basta a qualquer analfabeto instalar no computador um conversor como o Lince para, com um simples toque de tecla, escrever “acordês” e ficar contentíssimo.Ou reescrever. O recém-lançado livro póstumo de José Saramago, Claraboia, já teve direito a reescrita. A começar pelo título, que perdeu o acento agudo – clarabóia, jóia, bóia ou jibóia passam, com o acordo, a “claraboia”, “joia”, “boia” ou “jiboia”. Isto até que alguém comece a perguntar se a “boia” é a fêmea do boi… Escrevem-se sem acento, mas o acento lê-se na mesma. Essa é, aliás, uma das muitas maravilhas do acordo. Se a palavra perde o acento, os novos dicionários (consulte-se o mais recente Houaiss, em dois gordos volumes já sob a designação de “Atual”) reservam um parêntese para explicar que aquele “o” vale “ó”. Ou seja: o que a própria palavra indicava sem dúvidas agora vai exigir um professor aplicado ou um dicionário à mão. Excelente negócio.Mas voltemos a Saramago. O livro foi acabado de escrever a 5 de Janeiro de 1953 e só agora se edita devido a peripécias já explicadas e que, neste caso, não são relevantes. Relevante, mesmo, é uma pequena frase escrita na página 6: “A presente edição reproduz fielmente o original.” Fielmente? Que noção de fidelidade é esta? Como se pode reproduzir “fielmente” um texto onde, na página 224, se lê: “tudo isto e mais a recetividade, o aguçamento da perceção”; ou “o pai aparecia-lhe com outro aspeto”; e na página 229: “Quis poupar o filho àquele espetáculo degradante”; e na página 394: “(…) que a atividade não leve a cometer vilanias”; ou “ativo sim, mas lúcido”. Há dezenas e dezenas de exemplos de idêntico calibre. Ora como podia Saramago, em 1953, ter escrito tal coisa, se o inefável acordo só surgiu nos anos 90? Como é possível assassinar “fielmente” uma escrita sem que ninguém reaja ou, pelo menos, exija que seja retirada do livro a mentira óbvia (ou será “óvia”?) resumida na tal frase da página 6? Pena que não se tenham cumprido todos os revolucionários desígnios iniciais dos senhores do acordo, pois então veríamos na página 394, com a abolição draconiana dos acentos, a frase “talvez fôssemos a tempo” transformada em “talvez fossemos a tempo”. O que transformava os protagonistas em alegres toupeiras.É nisto que dá o “bom português” que por aí se vende em saldo nas feiras da degradada língua. Será que, em futura reedição, um título de Saramago como Objecto Quase passará a Objeto Quase? Nessa altura, estaremos mesmo num caminho abjecto. Com “c” ou sem ele.

Nuno Pacheco, Jornalista

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco, publicado no jornal Público de 24.10.11. Link não disponível.]