ILC contra o Acordo Ortográfico

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Na (longa) entrevista que seguidamente se transcreve, o linguista Marcos Bagno “bota a boca no trombone”, como dizem os brasileiros na sua cirúrgica expressão idiomática.

Desta vez discorre Bagno, pormenorizadamente, sobre a forma como foi (mal) parido o “acordo ortográfico” de 1990 e coloca a questão no plano político, já que de facto não existe outro, propondo a “adoção” definitiva da “língua brasileira” no Brasil.

Mesmo contendo alguns erros factuais, algumas imprecisões históricas, algumas invenções avulsas, merece realmente uma leitura atenta, este depoimento, esta grande sova no discurso oficial, este extraordinário arraial de pancadaria  na conversa fiada do costume.

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jornalopcao_BR_capa2084Entrevista | Marcos Bagno

“O português brasileiro precisa ser reconhecido como uma nova língua. E isso é uma decisão política”

Um dos mais importantes linguistas do País, professor da UnB diz que na academia se faz política o tempo todo e se assume militante da causa do idioma nacional

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Marcos Nunes Carreiro e Elder Dias

Na quarta-feira, dia 10 de junho, se comemorou o Dia da Língua Portuguesa. A data marca a morte de Luiz de Camões, em 1580, considerado o maior escritor da história de Portugal. A depender do professor Marcos Bagno, talvez essa data pudesse mudar para o dia 29 de setembro — a data da morte de Machado de Assis, em 1908. O autor de “Preconceito linguístico: o que é, como se faz” é também um assumido acadêmico militante. E com causa definida: luta para a oficialização de uma nova língua, o português brasileiro. “É preciso dizer, com todas as palavras, em alto e bom som: o português brasileiro é uma língua e o português europeu é outra. Muito aparentadas, muito familiares, mas diferentes”, resume.

Para ele, já existe outro sistema linguístico totalmente diferente do português lusitano no português falado hoje no Brasil. E Bagno, nas palestras que faz em congressos e seminários por todo o Brasil, leva, em slides e apontamentos, as evidências científicas do que afirma. Mas não é na ciência que baseia o sucesso da empreitada: “O cientista tem de assumir uma postura política e ideológica. Tem de declarar suas explicitamente crenças e seus valores. Não existe ciência neutra. Não existe nada que se faça em sociedade que não seja de forma política”, declara.

Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), Marcos Bagno é professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB). Em 2012, seu romance “As Memórias de Eugênia”, ganhou o Prêmio Jabuti, considerado o maior da literatura brasileira. Ele também escreve uma coluna sobre língua portuguesa na revista “Caros Amigos”.

Por que o sr. defende uma gramática brasileira?
Pela necessidade que vimos detectando, há muito tempo, de que tenhamos no Brasil instrumentos descritivos, e até mesmo normativos, que apresentem, da maneira mais honesta e real possível, a nossa língua: o português brasileiro. Mesmo as variedades urbanas de prestígio são muito diferentes da norma padrão veiculada pela tradição gramatical da língua. Faço a citação de um linguista português, o professor Ivo Castro [da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com doutorado em Linguística Portugue­sa]. Ele diz o seguinte (lendo): “Minha opinião de que a separação estrutural entre a língua de Portugal e a do Brasil é um fenômeno lento e de águas profundas, que é fácil e, a muitos, desejável não observar, assenta-se no convencimento de que a fratura do sistema linguístico existe, mas não é aparente a todos os observadores nem é agradável a todos os saudosistas.

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Bagno0413«…o Acordo é importante para afirmar o óbvio: os destinos da língua portuguesa, daqui para a frente, serão ditados pelo Brasil, como potência econômica emergente e como ator destacado na geopolítica mundial.»

Entrevista exclusiva com o linguista MARCOS BAGNO concedida a Ricardo Paes via email

Marcos Bagno é professor do Departamento de Línguas Estran­geiras e Tradução da Universidade de Brasília, doutor em filologia e língua portuguesa pela Universidade de São Paulo, tradutor, escritor com diversos prêmios e mais de 30 títulos publicados, entre literatura e obras técnico-didáticas. Atua mais especi­ficamente na área de sociolingüística e literatura infanto-juvenil, bem como questões pedagógicas sobre o ensino de português no Brasil.

ÊXITO NA EDUCAÇÃO: Marcos, sei que já esclareceu em outras entrevistas a sua posi­ção em re­la­ção ao Acordo Orto­gráfico que passa a vigorar ofi­cial­mente este ano, mas Portugal ainda resiste e até a ABL expressou o desejo de aperfeiçoá-lo. Você já rea­firmou que trata-se de um Acordo e não de uma Reforma, que seria decerto algo mais profundo. Você poderia explicar a diferença e a abrangência política deste Acor­do (ou Desacordo) Ortográfico?

Marcos Bagno – Pessoalmente, seria preferível que as duas orto­grafias oficiais, a portuguesa e a brasileira, tivessem sido reconhe­cidas como igualmente válidas para qualquer usuário, nativo ou estrangeiro, da língua. Que cada pessoa escrevesse como bem lhe parecesse, respeitan­do as opções já tradicionais em to­dos os países. Mas, uma vez decidi­da a adoção de uma ortografia unificada, aparando as diferenças entre as duas e man­tendo uma ampla possibilidade de variantes, teria sido mais racio­nal que todos os países implemen­tassem a nova ortografia ao mesmo tempo. No entanto, por chauvinismo de setores culturais portugueses, a im­plan­tação do Acordo em Por­tugal tem sofrido constantes adia­men­tos. A razão é muito simples: para nós, brasilei­ros, o Acordo afeta­rá ape­nas 0,5% do voca­bu­lário, enquan­to para os portu­gueses será 1%. Isso, para eles, signi­fica um “abrasilei­ra­mento” da língua. Grande boba­gem.

Do ponto de vista de políticas lin­guís­ticas, o Acordo é importante para afirmar o óbvio: os destinos da língua portu­gue­sa, daqui para a frente, serão ditados pelo Brasil, como potên­cia eco­nô­mica emer­gen­te e como ator destacado na geopolí­tica mun­dial. Ao mesmo tem­po, infelizmente, Por­tu­gal se acha no fun­do do poço, tragado pela desumana crise que assola a Europa. continue a ler…

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PORTUGUÊS OU BRASILEIRO? NÃO EIS A QUESTÃO
Por MARCOS – 10/06/2013 às 09:42

O ato social, cultural e político de nomear uma língua é um processo muito mais complexo e conflituoso do que a maioria das pessoas imagina. Antes de tudo, justamente por ser um ato político, ele escapa alegremente do domínio restrito dos especialistas em linguística e exige uma abordagem sócio-histórica bem embasada. E quando aplicamos essa abordagem às diferentes situações sociolinguísticas do mundo, encontramos, no mínimo, duas tipologias bem distintas: (1) línguas iguais com nomes diferentes e (2) línguas diferentes com nomes iguais.

Para ilustrar o tipo (1), vamos examinar o caso do híndi e do urdu. O urdu é a língua oficial do Paquistão. Como língua falada, o urdu é praticamente indistinguível do híndi, língua oficial mais importante da Índia. A diferença entre as duas línguas está no fato de que o urdu é utilizado como língua escrita por falantes muçulmanos e se escreve numa forma ligeiramente adaptada do alfabeto persa que, por sua vez, é uma variante do alfabeto árabe. O híndi, por sua vez, se escreve no alfabeto devanágari, originalmente empregado para o sânscrito, e é utilizado pelos falantes de religião hindu. A rivalidade histórica entre Paquistão e Índia, que gerou guerras sanguinárias entre os dois países, junto com a divisão religiosa, é o que explica a atribuição de nomes diferentes a um único sistema linguístico.

A situação das línguas da Índia e do Paquistão se reproduz em certa medida na antiga Iugoslávia. Depois da sangrenta divisão da antiga confederação socialista em diferentes pequenos Estados independentes, a língua que sempre se chamou servo-croata recebeu três nomes distintos: sérvio, croata e bósnio. As diferenças entre o sérvio e o croata sempre se restingiram à escrita: os croatas, católicos romanos, empregam o alfabeto latino; os sérvios, católicos ortodoxos, empregam o alfabeto cirílico; os bósnios, muçulmanos, empregam tanto o alfabeto latino quanto o cirílico. Com a criação dos Estados independentes da Croácia e da Bósnia, a língua, que para os linguistas é um sistema único com variedades locais que não impedem a intercompreensão dos falantes, passou a ser designada com nomes distintos, nomes de países, de nações.

A situação se inverte no tipo (2) e fica clara quando analisamos o caso da chamada “língua árabe”. Por razões de natureza religiosa, o que os falantes de “árabe” chamam de “árabe” é a língua na forma como ela se encontrava quando o profeta Maomé redigiu o livro sagrado do Islã, o Corão, no século VII. Essa língua, também chamada de “árabe clássico”, é uma língua morta, não é falada por ninguém como idioma materno, está restrita à literatura religiosa. Nos diferentes países chamados “árabes”, existem formas de falar tão diferentes entre si quanto, por exemplo, o português e o italiano, sem possibilidades de intercompreensão entre seus falantes, e não poderia ser de outra maneira. É uma ilusão ideológica achar que num território imenso, que vai do extremo ocidental da África até a fronteira do Iraque com o Irã, passando por todo o Oriente Médio, se fala uma só e única “língua árabe”.

No entanto, essa ilusão ideológica é sustentada pela própria cultura “árabe” tradicional, já que na maioria dos 22 países “árabes” o sistema educacional se dedica exclusivamente ao ensino do “árabe clássico” e de sua forma mais modernizada, o “árabe-padrão”, enquanto que os chamados “dialetos” particulares falados nos diferentes países não recebem apoio institucional nem são valorizados, embora sejam as verdadeiras línguas maternas nacionais. É inconcebível que 300 milhões de pessoas, distribuídas por um território tão dilatado, falem uma mesma e única língua “árabe”.

O caso do português também entra nessa segunda situação, ou seja, línguas diferentes do ponto de vista estrutural e dos usos (fonológico, morfossintático, semântico, pragmático etc.), mas que recebem o mesmo nome. Já sabemos que o nome das línguas não depende das opiniões dos especialistas. No caso do Brasil, ocorreu, na década de 1930, uma tentativa de designar a nossa língua majoritária como “brasileiro”, mas o projeto de lei que previa essa designação se afogou no meio do turbilhão político que acabou por instituir o Estado Novo e a ditadura de Getúlio Vargas.

Uma análise racional pode partir da seguinte pergunta: por que, 500 anos depois do desmoronamento do Império Romano, a bibliografia especializada já reconhece a existência de “línguas” como o francês, o castelhano e o português, mas não reconhece, 500 anos depois da expansão marítima portuguesa, a existência de diversas “línguas” derivadas do português quinhentista? Por que a mesma porção de tempo vale para uma classificação (línguas românicas: francês, espanhol, português etc.) mas não vale para outra (“variedades” do português)?

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DE NOVO, O MERCADO DAS LÍNGUAS

Já escrevi por aqui que o Brasil, como Estado, não investe na propagação do português brasileiro no mundo. Estive há pouco tempo na Colômbia e pude ver concretamente essa falta de política linguística que, é claro, constitui uma politica linguística. O Ibraco (Instituto Cultural Brasil-Colômbia) tem nada menos do que 5.000 estudantes, na grande maioria universitários desejosos de prosseguir uma carreira acadêmica nas nossas instituições de ensino superior. Diante desses números, qualquer governo inteligente trataria de patrocinar a formação de tantos futuros profissionais. Esse patrocínio teria de se traduzir na dotação de verbas importantes para os muitos centros de ensino do português brasileiro no exterior, sobretudo na América Latina: construção de prédios próprios, formação continuada das professoras e dos professores, bolsas de estudo para os melhores estudantes, envio de docentes brasileiros bem formados para os centros culturais no exterior, incentivo a eventos culturais (exposições de artes, concertos musicais, mostra de cinema etc.). Quanto disso tem sido feito pelo governo brasileiro? Praticamente nada.

Uma das principais críticas que se tem feito ao governo de Dilma Rousseff em comparação ao de Lula é o fechamento do Brasil para o resto do mundo. Lula, como importante personagem da política mundial, fez o Brasil se abrir, expandiu a rede das relações internacionais do país, fez o mundo falar da gente. No governo Dilma, essa rede foi recolhida, o Brasil tem se fechado sobre si mesmo, como se a relação com o mundo não tivesse a importância que tem. E as questões de política linguística vão a reboque desse isolamento.

A França tem um Ministério da Francofonia, cujo “braço armado” é a Aliança Francesa. A Grã-Bretanha tem o British Council, com filiais em todo o mundo. A Espanha aciona seu Instituto Cervantes, e até mesmo Portugal, longe de ser um país rico, principalmente nos dias que correm, tem seu Instituto Camões. Houve uma tentativa de se criar o Instituto Machado de Assis, mas disputas incompreensíveis entre o Ministério da Educação e o Itamaraty (como se não fossem ambos organismos de um mesmo governo) frustraram o projeto.

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Museu da Língua PortuguesaDe passagem por São Paulo, não podíamos deixar de passar pelo famoso Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz. É realmente um passeio que vale a pena, quer pelas exposições temporárias, quer pelo espectáculo multimédia e pelo cronograma que nos mostra a viagem da Língua.

No campo do multimédia destacamos o écran com 106 metros de comprimento, um autêntico fresco da sociedade e da cultura brasileira que nos leva em passeio pela gastronomia, pela natureza, pelas praias, pelo futebol, pelo carnaval… e nos mostra de que forma essas áreas influenciam a Língua.IMG_3931 Também vale a pena ver um filme sobre a Língua num auditório vocacionado para esse fim. No final do filme o écran levanta-se e dá acesso a uma nova sala onde somos cercados por palavras que voam pelas quatro paredes, evocando as frases mais marcantes da literatura em Português, tal como foram escritas por Fernando Pessoa, Camões, Herberto Helder, Machado de Assis, e muitos outros autores dos vários países de expressão oficial portuguesa.

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bresilienV«Então é preciso refletir se o “purismo sintático e lexical embute discriminação” ou se perpetua subserviência. Lê-se a propósito em um post intitulado “Liberdade para a língua brasileira”, de “outros lusófonos”: “Defendemos a ideia que no Brasil já se fala outra língua [acrescentaria: e já se escreve outra língua também].

Defendemos que seja preciso dar aos brasileiros a liberdade de falarem na sua própria língua: o brasileiro [e de escreverem na língua brasileira]. A editora francesa Assimil, que vende cursos para aprender línguas estrangeiras, vende um curso com livro e 4 CDs para aprender a falar Português, e outro curso, sempre com livro mais 4 CDs, diferente para aprender a falar brasileiro.

E essa editora tem razão, pois já são duas línguas diferentes. É altura de aceitarmos isso, como já aceitamos que na África do Sul se fala Afrikaans, que já não é holandês, e em Barcelona se fala catalão, que não é castelhano. É altura de deixarmos aos brasileiros a liberdade e o orgulho de terem a sua própria língua. Chega de acordos! O casamento acabou, é altura de divorciarmos e muito boa sorte para todos.”»

Excerto de Por uma língua brasileira: acordo ortográfico pode abolir ‘Ç’, ‘CH’, ‘H’ e ‘SS’ | São Paulo Review.

Por uma língua brasileira: acordo ortográfico pode abolir ‘Ç’, ‘CH’, ‘H’ e ‘SS’

| São Paulo Review

A obrigatoriedade da nova ortografia, que resulta do acordo entre os países de Língua Portuguesa, mas vigorando em caráter facultativo desde 2009, foi adiada até 31 de janeiro de 2015. Isso porque, agora, senadores como Cyro Miranda (PSDB,GO), Cristovam Buarque (PDT,DF), Ana Amélia Lemos (PP,RS) e Lídice da Mata (PSB,BA), entre outros, entendem a necessidade de extinguir do vocabulário linguístico as letras “ç”, “ch”, “h” e construções com dois “s”, com o objetivo de substituir a “memorização, vulgarmente conhecida como decoreba, pelo raciocínio e entendimento”, a “eliminação de contradições e duplas grafias e a redução máxima do uso de hífen ou também a sua eliminação.”

Segundo o professor Ernani Pimentel, da equipe de debate do projeto “Simplificando o Português”, “quase ninguém sabe a ortografia em nosso País e encontrar alguém que saiba usar hífen, j, g, x, ch, s, z é algo raro. Até professores precisam recorrer a dicionários para confirmar como se escreve uma palavra, de tão complexo que é o nosso sistema.”

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Assim como o Português saiu do Latim, pela corrupção popular desta língua, o Brasileiro esta saindo do Português. O processo formador é o mesmo: corrupção da língua mãe.”
Monteiro Lobato

 

 

 

O QUE NÃO SABEMOS DA NOSSA LÍNGUA?

Publicado em fevereiro 26, 2014 por Editor
Marcos Bagno

Dia desses, uma das minhas assinantes no Facebook me perguntou o que nós, brasileiros em geral, não sabemos sobre a nossa língua. Respondi, brevemente, mas acho que valeria a pena discorrer um pouco mais a respeito do tema. É que, de fato, a ignorância geral quando o assunto é língua deixa qualquer especialista na área de cabelo em pé. Já avançamos tanto em outros campos da vida social, política, cultural. Já abandonamos tantos mitos e superstições que prejudicavam o bom convívio em sociedade, mas quando se trata das línguas em geral e da nossa em particular ainda vivemos em plena Idade Média.

Treze anos atrás, publiquei um livrinho chamado Preconceito linguístico: o que é, como se faz, que hoje está em sua 53a edição. Ele se tornou uma espécie de “leitura obrigatória” nos cursos de Letras, Pedagogia e mesmo em Jornalismo. Ali eu descrevo o que chamo de “mitologia do preconceito linguístico”. Depois de todos esses anos, se tivesse de escrever o livro de novo, teria de fazer exatamente como fiz em 1999. Talvez acrescentasse agora essa ideia do que não sabemos da nossa língua.

Não sabemos, por exemplo, que o português brasileiro é uma língua plena, em todos os sentidos da palavra, diferente do português europeu. Diferente. Nem melhor nem pior, porque não existe hierarquia entre as línguas. Todas se equivalem, todas são perfeitas para a manutenção da coesão social dos povos que as falam. Depois de meio milênio de implantação do português quinhentista em terras brasileiras, é claro que a língua passou por mudanças inevitáveis e adquiriu caráter próprio. Temos uma gramática só nossa. Uma gramática que, aliás, surpreende os estudiosos do mundo todo por causa das característica únicas que o português brasileiro apresenta no conjunto das línguas românicas, isto é, das línguas derivadas do latim.

Um exemplo simples: o português brasileiro é a única língua da família que eliminou completamente (na fala) os pronomes oblíquos “o”, “a”, “os”, “as”.Quando alguém nos pergunta: “Você comprou o livro que indiquei?”, nós respondemos, simplesmente: “Comprei”. Em qualquer outra língua da família (italiano, francês, espanhol, galego, sardo, catalão etc.), se a pessoa vai responder usando o verbo, usará obrigatoriamente o oblíquo, respondendo algo como: “Sim, eu o comprei”. Nós, porém, dispensamos o pronome. A única língua que fazia isso era… o latim! Em latim não existiam pronomes de 3a pessoa, nem retos nem oblíquos. Os falantes do latim “clássico” respondiam somente com o verbo. Como e por que demos essa volta completa e fechamos o ciclo das mudanças retornando precisamente a um uso da língua-mãe? Esse é o tipo de curiosidade que deveríamos ter sobre nossa língua, em vez de ficar perdendo tempo com asneiras como se é certo ou errado dizer “presidenta”. Isso é o que a escola deveria ensinar, e não perder tempo com coisas que não existem, como a suposta diferença entre “adjunto adnominal” e “complemento nominal”, que eu mesmo até hoje não entendi (talvez porque não exista).

Outra coisa fundamental seria divulgar e ensinar que o português brasileiro é a 3a língua mais falada no Ocidente (atenção: no Ocidente, não no mundo), depois do espanhol e do inglês. E com a projeção internacional do Brasil hoje no cenário mundial, é uma língua que atrai cada vez mais atenção e interesse. Só a nossa “grande” mídia escrota continua a achar que brasileiro fala tudo errado e que só em Portugal se fala certo. Idade Média total!

Reprodução integral do texto de Marcos Bagno.
Fonte: http://marcosbagno.org/2013/08/13/o-que-nao-sabemos-da-nossa-lingua/

[Reprodução integral de “post” do “blog” Brasiliano, publicação de 26.02.14, citação de texto de Marcos Bagno. A citação de topo foi copiada e “colada” do mesmo “blog”. A imagem é do “Museu da Língua Portuguesa” de S. Paulo, Brasil.]

Nota de ILC AO
Confrontar este texto com, por exemplo, o teor da carta de Mário Vilalva, Embaixador do Brasil em Portugal, enviada à Assembleia da República portuguesa em 20 de Fevereiro de 2014: «Embaixador reitera posição do Brasil de cumprimento do acordo ortográfico».

MarcosBagnobrasileiro
«E me deixem ser brasileiro, por favor! Quem quiser continuar acreditando em mesóclise, passiva sintética e outras superstições que se mude para Portugal!»
Marcos Bagno

Imagem publicada no Facebook no dia 31.03.13 por Marcos Bagno.

Marcos Bagno
É professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília, doutor em filologia e língua portuguesa pela Universidade de São Paulo, tradutor, escritor com diversos prêmios e mais de 30 títulos publicados,[1] entre literatura e obras técnico-didáticas.

Atua mais especificamente na área de sociolinguística e literatura infanto-juvenil, bem como questões pedagógicas sobre o ensino de português no Brasil.

[Cópia de entrada sobre Marcos Bagno na Wikipedia brasileira.]