ILC contra o Acordo Ortográfico

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O A090 e a agricultura soviética

António Guerreiro
01/05/2015 – 01:49

 

Os fascismos — de maneira grandiosa ou numa frouxa escala — procederam a uma estetização da política. Numa célebre resposta a essa circunstância, Brecht e Benjamin lançaram, no Inverno de 1935/36, do exílio dinamarquês onde se tinham juntado por uns meses, uma palavra de ordem: à estetização da política é preciso responder com a politização da arte. O projecto de estetização da política que o nazismo realizou ecoa nesta célebre definição de Goebbels: “A política é a arte plástica do Estado”. Menos conhecida é a reivindicação, pelos estudantes do Partido Nazi, de uma “ciência politizada”. Ciência politizada ou, pelo menos, submetida a princípios ideológicos, foi também a ciência biológica e a agricultura de um outro regime totalitário, o soviético, quando Lissenko pôs de parte o saber adquirido da genética, considerada como burguesa, e submeteu a semente do trigo duro a tratamentos com vista a uma política agrícola rigorosamente planificada. O resultado foi ruinoso e as desventuras ideológicas da agricultura soviética tornaram-se uma anedota que os soviéticos ampliaram com humor negro. Nas democracias actuais, não são dadas sequer as condições de possibilidade para uma estetização da política (mesmo a “política cultural” tem de se afastar, em princípio, de uma política estatal do juízo estético e de uma cultura de tendência), e relativamente à ciência o que se espera das democracias é que elas mantenham a “neutralidade axiológica” de que falou Max Weber. Mas se já ninguém ousa clamar por uma ciência politizada, temos de observar que triunfou no nosso tempo uma política cientificizada. Não se trata apenas de a estatística se ter tornado o instrumento fundamental da racionalidade política, é mais do que isso: não há lei ou decisão governamental que não se baseie em estudos encomendados ou em investigações académicas feitas num âmbito científico autónomo. Veja-se, por exemplo, como a lei que permite o acesso condicionado a uma “lista de pedófilos” procurou a caução — ilegítima e abusiva, como já foi amplamente explicado — de um estudo sobre os níveis de reincidência. Todo o processo de engendramento e implantação do Acordo Ortográfico de 1990 só tem paralelo nas experiências agrícolas de Lissenko: a ortografia, como o trigo duro, tem de se vergar às miragens de uma ideologia (que tem nome de “lusofonia”, mas é muito mais do que ela) e conformar-se aos desígnios de políticos e cientistas pioneiros, ditos linguistas, mas que são na verdade agentes de uma ciência politizada. Juntos, gritaram em coro, antes de perderem o pio: “A ortografia é a arte plástica do Estado”. Quem lê jornais, escritos públicos e documentos oficiais percebe que está instalada a anomalia ortográfica (em meia hora de televisão, no dia 25 de Abril, li dois “fatos” em vez de “factos”) e que a aplicação do AO90 é tão desastrosa e tão contrária aos efeitos pretendidos (temos agora três normas ortográficas no “espaço lusófono”) como a agricultura de Lissenko. E é já tão paródica como ela. O que é irritante é que toda a verdade de facto exige peremptoriamente ser reconhecida e recusa a discussão. Por isso é que os políticos com responsabilidade nesta matéria e o respectivo braço armado científico (os cientistas pioneiros do laboratório linguístico de onde saiu o AO90) recusam sair a público e discutir os resultados da sua bela obra: mostram-se às vezes irritados com o ruído da paródia. Mas apostam no silêncio, à espera que das intervenções genéticas no trigo duro nasça, se não cevada e centeio, pelo menos erva para forragens.

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[Transcrição integral de artigo, da autoria de António Guerreiro, publicado na revista “Ípsilon” (suplemento do jornal “Público”) de 01.05.15. “Links” e destaques nossos.]

Nota: visto que a “Wikipedia lusófona” passou a ser brasileira, apenas utilizamos ligações a entradas da Wikipedia em Inglês.

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O Acordo Ortográfico e os seus trolhas

António Guerreiro

Há poucos dias, um dos auditórios da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa encheu-se de gente, ao ponto de muitos não terem conseguido entrar, para ouvir alguns convidados da universidade e exteriores a ela exporem os seus argumentos contra o Acordo Ortográfico. Porque é que uma questão aparentemente menor em relação aos problemas políticos e sociais consegue mobilizar tanta gente e provocar discursos inflamados? A resposta a esta questão tem múltiplas parcelas. Em primeiro lugar, as pessoas sentem como intolerável que o poder político se ocupe de questões que não lhe dizem respeito e que não podem ser submetidas ao arbítrio de quem detém o monopólio da violência legal. O Governo legisla hoje sobre a norma ortográfica como legisla sobre a nossa saúde, o nosso corpo e a nossa vida. É a isto que se chama biopolítica. Mas as razões de indignação surgem agravadas por um outro factor: o Governo arroga-se o direito não apenas de exercer essa violência legal, mas de o fazer em relação a uma matéria da qual manifestamente não percebe nada. À violência junta-se a ignorância. E, a somar à violência e à ignorância, há ainda uma razão estratégica absurda e anedótica: a de fazer da unificação ortográfica (que, afinal, é uma miragem e, por agora, já resultou num desacordo mais fundo do que aquele que tínhamos antes) um instrumento de conquista de poder e de influência da língua portuguesa no mundo. Por último, a coroar todas estas razões, há a desordem ortográfica a que afinal ficámos submetidos (e a quem pretende que está a aplicar o novo Acordo Ortográfico deve ser dito que aquilo que está a fazer é a inventá-lo à sua maneira para o tornar exequível). Mas a indignação de tanta gente contra o Acordo Ortográfico (na verdade, os seus públicos defensores passaram ao silêncio e já só se defendem a si próprios) e a reivindicação de uma espécie de objecção de consciência, por parte de muitos, para se subtraírem a ele, como se de uma guerra se tratasse, mostra bem que aquele argumento do aspecto meramente convencional da ortografia e da sua exterioridade em relação à língua está longe de dizer a verdade. Se assim fosse, as pessoas não reagiriam como quem as esfola e as espolia. Joga-se na ortografia algo muito mais profundo do que um sistema de regras gráficas convencionais. É certo que a linguística, por via de Saussure, está essencialmente voltada para a parole, a fala. Mas foi precisamente contra o primado da phonè que um filósofo como Derrida construiu a sua “gramatologia”. E de que modo é que a gramatologia aqui nos interessa? Interessa-nos para perceber que há uma arqui-escrita, como se fosse anterior à fala; e que é preciso instalar a escrita no coração da linguagem e não no exterior dela, como pretendem os construtores (autênticos patos-bravos) do Acordo Ortográfico e os seus seguidores. Esta ideia de uma arqui-escrita é bastante complicada, mas por agora poderíamos deduzir dela a seguinte conclusão: a partir do momento em que aprendemos a escrever e passamos a utilizar o código escrito, a palavra é para nós, mais do que uma fonação (isto é, uma imagem acústica), um traço gráfico. E esse traço deixa de ser meramente convencional, ganha uma dimensão “arqui-“, archè, isto é, situa-se numa dimensão originária. Só os engenheiros civis da língua e os trolhas ao seu serviço não percebem isto.

[Transcrição (e imagem) a partir de ficheiro PDF publicado por João Roque Dias na plataforma ISSUU. Texto da autoria de António Guerreiro publicado originalmente na revista “Ípsilon” (suplemento do jornal “Público“) de 29.03.13. “Links” inseridos por nós.]

selosCTTSobre o acordo ortográfico

Entranhou-se em nós este gosto mórbido de reverenciar a ignorância e assistir ao absurdo, amplamente apregoados por fervorosos militantes que defendem o indefensável e optam também por silenciar críticas, consideradas perigosas, porque capazes de despertar incautos ou resignados. Outros há que, usando um discurso oco e de características labirínticas, tendem a confundir os mais ingénuos e pouco habituados a reflectir. Passa-se isto não só no campo político, mas também cultural. O Acordo Ortográfico é um entre muitos exemplos. Vejamos apenas alguns aspectos:

1. Lendo os discursos do ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, e do presidente de Portugal, Cavaco Silva, proferidos no Rio de Janeiro, a 7 de Março de 2008, neles encontramos subjacente a ideia da «projecção internacional da língua portuguesa» na base do Acordo Ortográfico, fortemente justificado pelo número de falantes brasileiros, num colonialismo linguístico inaceitável para Portugal e para os países africanos de expressão portuguesa. Num faz-de-conta de cultura, refere-se o nome de Fernando Pessoa e a sua frase escrita por Bernardo Soares, «Minha pátria é a língua portuguesa», ignorando que a mesma, no contexto em que se integra, se associa a uma outra frase que defende vigorosamente a vertente etimológica da língua, posta tão em causa pelo referido AO – «Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha». Num outro passo do discurso, Lula da Silva retoma a literatura portuguesa e foca o conceito de «Quinto Império» de Vieira, de novo evidenciando desconhecer o seu significado, mas sentindo sem dúvida o agradável cheiro a poder que depois mascara com pozinhos de «solidariedade entre povos e de justiça universal».

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4.ª Feira, 20 Março, 18H00 | FCSH, Auditório 1, piso 1 | Av. Berna, 26-C

Forum
Pára ou Para

Onde pára e para onde vai a Língua Portuguesa?

(oradores)
Abel Barros Baptista | Ana Silva | António Guerreiro
Hermínia Castro | João Bosco Mota Amaral | Jorge Buescu
José Luís Porfírio | José Pedro Serra
Miguel Sousa Tavares | Nuno Pacheco | Pedro Afonso

(organização)
Ana Isabel Buescu (FCSH, UNL) | Maria Filomena Molder (FCSH, UNL) | Teresa Cadete (FL, UL)

No painel de oradores deste evento a ILC AO90 estará representada por Hermínia Castro.

Graça Maciel Costa criou no Facebook uma página sobre este evento.

[Cartaz recebido por email.]