ILC contra o Acordo Ortográfico

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Resultados da Pesquisa em Francisco José Viegas

logobadge1Nota prévia: a ILC pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico de 1990” não se revê em qualquer espécie de posição “revisionista” em relação ao AO90. O projecto de lei que pretendemos submeter a votação parlamentar não refere “revisão” alguma do texto daquele “acordo”, nem explícita nem implicitamente, mas apenas a revogação da RAR 35/2008, isto é, do instrumento que determinou a sua entrada em vigor a 1 de Janeiro de 2010.

«A entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 fica suspensa por prazo indeterminado, para que sejam elaborados estudos complementares que atestem a sua viabilidade económica, o seu impacto social e a sua adequação ao contexto histórico, nacional e patrimonial em que se insere.»


revistaLERA «verdadeira história» do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa começou quando entre nós? Alguns meses, talvez um ano, depois da publicação, em Diário da República, da resolução do Conselho de Ministros (RCM n.º 8/2011) que determinava a sua entrada em vigor a 1 de Janeiro de 2012. Nos 20 anos anteriores (desde 1990), houve períodos em que se discutiu  o Acordo Ortográfico com maior ou menor ferocidade, empenhamento,  entusiasmo, dramatismo, paixão, desinteresse ou ingenuidade — mas o assunto não faria as primeiras páginas dos nossos jornais, nem sequer os rodapés das televisões. Menciono os rodapés das televisões, e em especial da chamada «televisão pública», e sobretudo da assim designada «televisão pública com antena internacional» porque não há memória de tão profundo e desavergonhado ataque à nossa língua nos meios de comunicação como a ortografia, a sintaxe e o desleixo geral que esses rodapés transmitiam (na altura, nesta revista, por exemplo, propôs-se uma autoridade para vigiar esses erros). Aliás, nenhuma estação de televisão, pública ou privada (mas sobretudo tão inchada dos seus «pergaminhos públicos», que são periodicamente muito úteis), creio que em todo o mundo, foi tão orgulhosa dos seus erros ortográficos e da sua impunidade. Creio que continua a ser.

Durante esses 20 anos, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AOLP) foi negociado entre academias (ressalvando o facto de a portuguesa ser de uma irrelevância total), linguistas e políticos. Sabia-se que havia uma vasta «maioria moral» contra o AOLP, constituída por escritores, jornalistas, também linguistas e políticos, e unida por motivos diversos- desde a ideia de que a adopção do Acordo significaria uma cedência ao Brasil, até argumentos filológicos e políticos de peso. Mas o assunto não interessava à imprensa; e o que não interessa à imprensa — é preciso notar que há pessoas analfabetas que chegam frequentemente ao cargo de director de jornal– também não interessava ao País que, de repente, a partir de 2011, se viu confrontado com manuais escolares conformes ao AOLP, e com a proximidade da entrada em vigor do mesmo acordo em todos os documentos da Administração Pública.

E, como sempre acontece entre nós, passou-se da aceitação amorfa e bovina para a guerrilha e para a indignação total que deveriam ter ocorrido durante os 20 anos anteriores ou, pelo menos, na altura em que o Governo da época resolve escolher uma data (Janeiro de 2012) para que o AOLP entrasse em vigor.

Os factos são estes, a que poderíamos acrescentar que o AOLP está cheio de normas ridículas que deveriam ser corrigidas ou simplesmente rasuradas (e são coisas bastante simples, quer em matéria de acentuação, quer na queda de consoantes mudas), que o Estado português não deveria ter avançado sem garantir que Angola ou Moçambique tivessem assinado o acordo (como se verificou, tardiamente, na altura em que o Brasil decidiu adiar a data de entrada em vigor definitiva do AOLP) e que – mais importante ainda – o AOLP não deveria ter entrado em vigor sem que estivesse encerrado o Vocabulário Ortográfico Comum, meta que ainda não se vislumbra. Infelizmente, o Estado português não olhou a meios para poder declarar estar na linha da frente, até na questão da adopção de um acordo ortográfico. Não admira: é cada vez mais difícil encontrar, nessas esferas, alguém que escreva com sujeito, predicado, complemento directo e algum conhecimento do nosso dicionário culto.

O jornalista Pedro Correia traça, em Vogais e Consoantes politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico (edição Guerra & Paz), o destino do AOLP: parar, corrigir, refazer. É o que vai acontecer, se quisermos, algum dia, falar de uma língua comum aos países que a têm como emblema.

No auge do poder da chamada «linguística oral & estrutural» a filologia era desvalorizada e condenada ao patamar do reaccionarismo. Quando se chamou a atenção (nesta revista, por exemplo) para idêntica desvalorização do ensino da Literatura nos programas de Português, a associação profissional respectiva estabeleceu que ensinar Literatura não tinha nada a ver com o ensino do Português. Tamanho absurdo não causou indignação (e foi igualmente pequena a que recebeu a decisão, do Ministério da Educação da época, em 2010, em não considerar a existência de erros ortográficos em provas de Português, uma inovação pedagógica de truz). O resultado é este: uma língua que se vai desfazendo.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Francisco José Viegas, publicado na revista “Ler”, número de Junho 2013. O texto, originalmente “ao abrigo do AO90”, foi corrigido automaticamente  com a extensão “desacordo ortográfico” para Chrome. “Links” e destaques inseridos por nós.]

[Imagem da capa da revista copiada da respectiva página no Facebook.]

[Via João Roque Dias, citando “post” no “blog”Chove. Transcrição a partir de ficheiro PDF alojado em Box.com.]

ipsilon_faceHá preconceito e uma certa arrogância da nossa parte, mas também dos brasileiros em relação a nós. As duas línguas estão estruturadas autonomamente e o grau de abertura do Brasil em relação ao estrangeiro, quando existe, é para outros territórios. Sobretudo os Estados Unidos. Olham muitas vezes a nossa escrita como pedante e nós encaramos o à-vontade deles como ligeireza.” Francisco José Viegas contextualiza, refere um caminho comum cheio de preconceitos históricos. “O salazarismo desconfiava do Brasil, de onde vinha toda a imoralidade, um certo sentido da barafunda, e havia – claro – o ressentimento contra a antiga colónia. Os brasileiros desconfiavam de um país de pobretanas e de provincianos que nunca tinham compreendido a “grandeza brasileira”.

De modo que, durante anos, desconhecemo-nos com orgulho e arrogância. Aquele Brasil que as telenovelas históricas da Globo nos trouxe significou para nós uma redescoberta do Brasil, sim, mas os intelectuais mantiveram sempre um preconceito europeu em relação ao que se fazia lá. Ignoravam que a universidade brasileira tinha debates profundos e alargados, que a literatura já não era apenas o cânone nordestino, que havia uma cultura urbana (sobretudo em São Paulo ou Porto Alegre) muito viva, que a literatura brasileira tinha, de facto, reinventado a língua portuguesa (no cânone clássico, com Érico Verissimo, Clarice, Rubem Fonseca; e que uma nova geração prolongava, com Assis Brasil, Patrícia Melo, Marçal Aquino, Tabajara Ruas – e hoje com Eucanãa, Galera, Ruffato, Mutarelli, Elvira Vigna, Paula Maia.” Os nomes continuam. No Brasil conhece-se Pessoa como se Pessoa fosse brasileiro, em Portugal Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Melo Neto estão longe de serem muito conhecidos, menos ainda lidos, salienta Hugo Mãe.

Nas universidades brasileiras ensinam-se portugueses contemporâneos. Na portuguesa, Abel Barros Baptista diz que não se lembra de um português ter pedido para fazer um doutoramento em literatura brasileira. Onde estão as falhas? “O Acordo Ortográfico não vem resolver nada”, dizem, como num coro, todos os nomes ouvidos para este texto. “O Acordo Ortográfico está implantado no Brasil. Nos jornais e na edição, é o modelo que funciona. O Brasil nunca ligou muito a acordos desses. Mas não nos podemos esquecer de que o português de Portugal e o do Brasil são e hão-de continuar a ser expressões diferentes da mesma língua. Julgar que a ortografia iria unificar as duas formas do português, só mesmo por piada. Vamos continuar a ter duas versões do português, mesmo se a ortografia se aproximou mais”, resume Francisco José Viegas. Mirna Queiroz fala da necessidade de uma “relação descomplexada sem expectativas vazias”. E o coro, em síntese, diz isto: enquanto passar pela cabeça de alguém traduzir um livro de português do Brasil para português de Portugal e vice-versa, as contas estarão voltadas e todos os contágios serão poucos.

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[Excerto de artigo com o título “Portugal e Brasil: orgulho e preconceito entre duas literaturas”, da autoria de Isabel Lucas, publicado no suplemento “Ípsilon” (do jornal “Público”) de 03.04.15. Os destaques e “links” são nossos.]

Nota:  visto que a “Wikipedia lusófona” passou a ser brasileira, apenas utilizamos ligações a entradas da Wikipedia em Inglês.

 

 

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O acordo do aborto da Língua Portuguesa

Dilma e Passos reafirmam Acordo Ortográfico para 2015, segundo referia a Agência Lusa a 10 de Junho 2013. E cito: “Portugal e Brasil acolheram com “satisfação” os contactos no quadro da CPLP para a elaboração dos Vocabulários Ortográficos Nacionais e reafirmaram que o acordo ortográfico entra em vigor em 2015, nos dois países. “Tendo em conta que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AOLP) entrará em vigor definitivamente em vigor em Portugal e no Brasil em Maio e em Dezembro de 2015, respectivamente, ambos os governantes reiteraram a importância da plena aplicação do AOLP em todos os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), como forma de contribuir para o reforço da internacionalização da língua portuguesa”, refere a Declaração Conjunta da XI Portugal-Brasil que decorreu hoje em Lisboa, entre o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e a chefe de Estado brasileira, Dilma Rousseff.

A 15 de Dezembro de 2014, o Portal Brasil escreve “no Brasil, o acordo foi ratificado em Setembro de 2008 e as novas regras já estão em uso, embora em carácter não obrigatório, desde 1º de Janeiro de 2009. A princípio, as medidas seriam aplicadas de modo obrigatório a partir de Janeiro de 2013, mas o governo brasileiro, após consultas a envolvidos no processo, preferiu dar mais tempo para a implantação” e assim sendo “as novas regras do acordo ortográfico começam a ser obrigatórias no País a partir de 1º de Janeiro de 2016”.

Certo é que hoje o Acordo Ortográfico (AO) continua a dividir especialistas, governantes e a sociedade civil nos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), surgindo mesmo pedidos de revogação, suspensão ou revisão deste por sectores do bloco lusófono.

Mas melhor mesmo são as afirmações do então Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, que à TVI 24, numa reportagem publicada no Expresso afirmou que “o Governo se prepara(va) para alterar o Acordo Ortográfico até 2015 e que cada português é livre para escrever como entender”. O secretário de Estado da Cultura admitiu em entrevista à TVI-24 alterar até 2015 algumas regras do novo Acordo Ortográfico, que já estava em vigor nos organismos do Estado desde Janeiro deste ano.

Manifestando o seu desacordo com algumas normas, Francisco José Viegas lembrou que “do ponto de vista teórico, a ortografia é uma coisa artificial. Portanto, podemos mudá-la. Até 2015 podemos corrigi-la, temos essa possibilidade e vamos usá-la. Nós temos que aperfeiçoar o que há para aperfeiçoar. Temos três anos para o fazer”.

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ILCAOflag—– Original Message —–
From: Jorge Tavares da Silva
To: ;
Cc: João Graça ; Maria Abranches
Sent: Thursday, February 19, 2015 4:43 PM
Subject: Os Direitos de Autor e o AO90

 

Exmos Srs Carlos Pereira e Paulo Carvalho,

No meu último e-mail, pus cobro à conversa entre mim e o Luso Jornal que V. Exas representam.

Todavia, foi-me entretando dado a conhecer o texto do dr. António de Macedo, que anexo à presente mensagem, para estabelecer claramente que a atitude dos corpos gerentes do Luso Jornal é, não só um caso flagrante de censura, a lembrar um tempo triste da República Portuguesa, como é também um acto ilegal em termos de Direitos de autor.

Por conseguinte, e ao dar a conhecer a V. Exas o teor dos textos legais, reservo-me defender, por via jurídica, os meus direitos enquanto autor de língua portuguesa.

Muito atenciosamente,

Jorge Tavares da Silva

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Anexo

Os Direitos de autor e o AO90 – António de Macedo (2012)

1 – A nova ortografia, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), foi promulgada pela Resolução da Assembleia da República (AR) n.º 26/91, de 23 de Agosto (com pequenas actualizações posteriores), e pormenorizada pela Resolução do Conselho de Ministros (CM) n.º 8/2011.

2 – A ortografia ainda em vigor, acordada pelo Acordo Ortográfico de 1945 (AO45), foi promulgada pelo Decreto n.º 35.228 de 8 de Dezembro de 1945, e ratificada em 1973, com pequenas alterações, pelo Decreto-Lei n.º 32/73 de 6 de Fevereiro.

3 – O Código do Direito de Autor e Direitos Conexos foi promulgado pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março (com pequenas actualizações posteriores).

4 – Na hierarquia legislativa um Decreto-Lei está acima duma Resolução da AR ou do CM. Um Decreto-Lei é vinculativo, ao passo que uma Resolução é uma mera recomendação.

5 – Por conseguinte, uma Resolução não tem força legal para revogar um Decreto-Lei, e por isso o AO45 continua em vigor.

6 – Em caso de conflito entre a nova ortografia e o Direito do Autor, o que prevalece é o Decreto-Lei do Direito de Autor.

7 – Em consequência, nenhum editor é obrigado a editar os seus livros ou as suas publicações segundo a nova ortografia, nem nenhum Autor é obrigado a escrever os seus textos segundo o AO90. Mais ainda: tentar impor a nova ortografia do AO90 é um acto ilegal, porque o que continua legalmente em vigor é o AO45.

8 – Ao abrigo do Código do Direito de Autor, os Autores têm o direito de preservar a sua própria opção ortográfica, conforme consta do n.º 1 do Art. 56.º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, onde se diz que o autor goza durante toda a vida do direito de assegurar a genuinidade e integridade da sua obra, opondo-se à sua destruição, a toda e qualquer mutilação, deformação ou outra modificação da mesma, e, de um modo geral, a todo e qualquer acto que a desvirtue.

9 – Embora no Artigo 93.º do mesmo Código do Direito de Autor se preveja a possibilidade de actualizações ortográficas, que não são consideradas “modificações”, há sempre a opção legítima, por parte do Autor, de escrever como entender, por uma “opção ortográfica de carácter estético”. O que aliás foi confirmado pelo Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, em entrevista à SIC no dia 8 de Janeiro de 2012, onde ele afirmou publicamente que até 2015 há um período de adaptação (e de eventuais reformulações do AO90, segundo disse) em que é permitido o uso paralelo do AO45 e do AO90, mas que aos Escritores, dada a sua condição de artistas criadores, ser-lhes-á sempre permitido utilizar a grafia que entenderem, mesmo que em 2015 o novo AO90 venha a ser eventualmente consagrado por Decreto-Lei, e não apenas, como agora, por uma simples Resolução da AR.

[Divulgação autorizada pelo remetente.]

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Francisco José Viegas, o anjinho da procissão

O chamado acordo ortográfico (AO90) assentou em três ilusões: o “critério fonético” (traduzido na expressão “escrever como se fala”), a “simplificação” da ortografia para facilitar a aprendizagem e a uniformização ortográfica do mundo lusófono como meio de criar textos ortograficamente iguaizinhos.

Não foi necessário perder muito tempo a pensar para se chegar, rapidamente, à conclusão de que o “critério fonético” acabaria por impedir a criação de uma ortografia única, cuja inexistência, aliás, já estava patente no texto do AO90, em que se admite que ponto máximo a atingir será o da “aproximação ortográfica”, o que correspondeu a destapar de um lado e tapar do outro. Nada disto, no entanto, tem servido de impedimento para que pessoas investidas de autoridade continuem a mentir, anunciando um futuro em que deixará de haver versões diferentes do mesmo texto ou edições diversas do mesmo livro.

Defender a simplificação de qualquer conteúdo a fim de facilitar a aprendizagem é um logro que serve para desvalorizar a importância do esforço e faz parte de um programa facilitista que está na base, por sua vez, de um processo de desinvestimento na Educação. Ainda por cima, um sistema ortográfico mal concebido e, portanto, incoerente, é fonte de confusão e nunca será fácil de aprender.

Devido aos seus defeitos de concepção, e aliado a muitos outros problemas anteriores, o AO90 tem estado na origem de muitos erros. O Francisco Miguel Valada tem-se dedicado a mostrar uma ponta doiceberg, com factos e contactos a serem substituídos por fatos e contatos, sendo de destacar o surgimento de tais espécimes no Diário da República.

O movimento brasileiro Simplificando a ortografia é, no fundo, a consequência inevitável de se ter alimentado as três ilusões acima referidas. Para lá de todas as críticas que o dito movimento possa merecer, a verdade é que há ali uma coerência: se o AO90 pretendeu privilegiar o “critério fonético”, por que razão havemos de cortar o C de “acto” e manter, por exemplo, o H de homem, se as duas consoantes não são pronunciadas?

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NP-rev2_14Abr2013Quem for de Algés para Belém, há-de encontrar do seu lado direito um vistoso edifício com o seguinte dístico, em letras grandes e brancas a erguerem-se da relva: Champalimaud Centre for the Unknow. Pormenor: se este centro tivesse sido edificado, por exemplo, na América Latina, chamar-se-ia certamente, Center for the Unknow. Porque “center” é a grafia usada nos Estados Unidos, do outro lado do Atlântico, e “centre” a usada em Inglaterra, do lado de cá. Ninguém tem ou teve, jamais, o mínimo problema com isso e, como se vê por cá, até os não anglófonos escolhem a grafia que mais lhes convém – ou simplesmente a que mais lhes apetece.

Outro exemplo. Peguemos numa palavra simples, conhecida de todos e com a mesma grafia em várias línguas: Paris. Se pedirmos a um lisboeta que a leia, ele dirá: “Pârich”. Se fizermos a mesma experiência com um espanhol, dirá “Párís”. Um brasileiro lerá “Páriss”, um catalão “Párríss”, um alemão “Párriss” e um francês, parisiense ou não, dirá “Párrí”.

O que importa isto? Importa em dois sentidos. Primeiro, comprova (se ainda fosse preciso fazê-lo) que há divisões ortográficas naturais num mesmo idioma, derivadas da sua adopção por diferentes povos, que vão modelando a língua e criando novas variantes. Segundo, que uma mesma palavra é pronunciada de diferentes formas consoante os sistemas vocálicos existentes em cada país, distrito ou mesmo região. Paris não muda de grafia quando é pronunciada “Pârich” ou “Páriss”, embora noutros idiomas tenha assumido forma gráfica diversa. Os italianos, por exemplo, escrevem Parigi.

continue a ler…

Várias vezes defendi que o Acordo Ortográfico (em vigor por decisão apressada do governo – de Janeiro de 2011) necessitava de ser aperfeiçoado, o que me valeu ataques boçais ou patetas.

Da revisão não viria mal ao mundo; pelo contrário, é imperiosa. APROVADO EM 1990, HOUVE TEMPO PARA DISCUTI-LO OU PARA ACABAR COM ELE. Nem uma coisa nem outra. Os jornais publicaram notícias sobre o adiamento da obrigatoriedade no Brasil para 2015. Lá, os órgãos do Estado só iriam aplicá-lo a partir de 2013 (a imprensa já o faz) e em Portugal só seria definitivo em 2015, o que coincide com a conclusão do Vocabulário Ortográfico de Língua Portuguesa. Ou seja: podemos livrar-nos dos erros.

 

[Transcrição parcial de texto de Francisco José Viegas, com o título “Os erros do Acordo”, Correio da Manhã, 10.12.2012. Imagem da versão online do jornal.]

[Legenda da formatação por nós introduzida:
Vermelho: errado. Segundo os termos da Convenção de Viena, o texto de um Tratado internacional não pode ser alterado.
MAIÚSCULAS: inteiramente verdade, mas infelizmente nada disso aconteceu.
Sublinhado: veja lá melhor essas datas todas, Sr. Ex-Secretário de Estado da Cultura.]

O que se segue vem propósito de “post” anterior, em que se denuncia uma empresa localizada na Europa e financiada pela União Europeia que oferece cursos de “brazilian” em vez de “Portuguese” e, ainda por cima, com a bandeira do Brasil a ilustrar a coisa. O autor fez o favor de nos enviar, para divulgação, cópia do seu protesto e a resposta da tal empresa.

Dispensa comentários.


Paulo Rodrigues da Costa, Oct 07 19:37 (CEST):

Prezados srs.,

Haveis de saber que Portugal é a matriz do idioma português. Ou não?… A bandeira brasileira a ilustrar o ensino do português deve ser gozo. Só histriões, como vós certamente sois, haviam de trocar a bandeira portuguesa pela brasileira (mas não trocaram o Union Jack pela bandeira americana no caso do inglês). Ora histriões não ensinam línguas. Pelo menos não cremos que tenham essa capacidade.

Portugal é da União Europeia e é incrível que esta espécie de federação de burocratas financie anedotas como a Babbel.

Sem outro assunto de momento,

Paulo Rodrigues

(Lisboa)

De: Babbel Support <plug_emp(true, ‘=e;emp:zendesk.com;emp:#1f-6db04;emp:babbel;emp:01f;emp:support+id340340’);“>>

## Please do not write below this line ##

Ticket #340340 – BRASILEIRO

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Camila Almeida, Oct 09 20:10 (CEST):
Olá Paulo,

Obrigada por entrar em contato com Babbel e por seu comentário.

Os cursos oferecidos pelo Babbel foram desenvolvidos por profissionais qualificados como professores de línguas estrangeiras, linguistas e falantes nativos.
Por trataram-se de cursos de português do Brasil, como consta em nosso site, logicamente as gravações e traduções foram feitas por falantes nativos do Brasil, brasileiros, exatamente para garantir a alta qualidade dos cursos. Da mesma forma, o site optou pelo símbolo da bandeira brasileira.
A escolha pelo português do Brasil ocorreu depois de uma pesquisa feita por Babbel que mostrou interesse maior pelo aprendizado do português do Brasil, do que pelo português falado em Portugal.

De qualquer forma, muito obrigada pela colaboração.

Caso você tenha alguma dúvida ou queira fazer algum comentário, nos escreva e nós entraremos em contato com você o quanto antes.

Saudações de Berlim
Camila – Time Babbel

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www.babbel.com, “Learn Languages Online”
Lesson Nine GmbH, Bergmannstr. 68, 10961 Berlin; HRB 110215
GF: Lorenz Heine, Markus Witte

Message-Id:FS73S9SE_507468a239e8b_8f912122706522025_sprut

[Nota: o autor enviou cópia da carta à Babbel para o Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas. (Ainda?) Não obteve qualquer resposta do dito.]

[Imagem gerada em Vistaprint.]


Adenda em 12.10.12, 12:20 h. Troca de respostas subsequente.

—– Original Message —–
From: Paulo Rodrigues da Costa
To:
Cc:
Sent: Wednesday, October 10, 2012 7:55 PM
Subject: RE: BRASILEIRO

Prezada sr.ª Camila,

Não contesto que a Babbel optasse como optou. Menos lídimo é que chame português a uma macarronada, é só. Mas, cada um é para o que nasce…

Passar bem,

Paulo Rodrigues

Lisboa

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De: Babbel Support [mailto:support@babbel.zendesk.com]
Enviada: terça-feira, 9 de Outubro de 2012 19:
Para: Paulo Rodrigues da Costa
Assunto: Re: BRASILEIRO

## Please do not write below this line ##

Ticket #340340 – BRASILEIRO

——————————————————————————–

Camila Almeida, Oct 09 20:10 (CEST):

Olá Paulo,

Obrigada por entrar em contato [contacto] com [a] Babbel e por [pelo] seu comentário.

Os cursos oferecidos pelo [por/pela] Babbel foram desenvolvidos por profissionais qualificados como professores de línguas estrangeiras, linguistas e falantes nativos.
Por trataram-se [se tratar] de cursos de português do Brasil, como consta em nosso «site», logicamente as gravações e traduções foram feitas por falantes nativos do Brasil [tupis?], brasileiros [ah! Bom!], exatamente exactamente para garantir a alta qualidade dos cursos. Da mesma forma [*], o «site» optou pelo símbolo da bandeira brasileira. [* «da mesma forma» ou «concomitantemente»? É que, se é «da mesma forma», significa que a opção pela bandeira brasileira é também «para garantir a alta qualidade dos cursos». Provavelmente a bandeira portuguesa já o seria menos, não é verdade!…]
A escolha pelo português do Brasil ocorreu depois de uma pesquisa feita por Babbel que mostrou interesse maior pelo aprendizado [ensino] do português do Brasil, do que pelo português falado em Portugal [basta dizer «português»; sendo o genuíno não carece de lhe apormos nenhum atributo].

De qualquer forma, muito obrigada pela colaboração.

Caso você tenha alguma dúvida ou queira fazer algum comentário, nos escreva e nós entraremos em contato com você [contacto consigo] o quanto antes.

Saudações de Berlim
Camila – Time [Equipa] Babbel

A ver vamos

O Acordo Ortográfico é um aborto político: suspensão, já!

Antes de ser secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas opunha-se ao Acordo Ortográfico, que não é nem acordo — não o há entre os países de língua portuguesa – nem ortográfico — muitas das mudanças ortográficas são incompetentes e indecentes. A nova “ortografia” é um aborto político. No governo, Viegas passou a “nim”: nem sim, nem não. Ao fim de um ano, a prática mostra que passou ao sim. Entretanto, a situação ortográfica está caótica. A resistência é, felizmente, grande e determinada. Nos documentos públicos, escolas, exames, media, a confusão é generalizada. É lamentável que Viegas mude como o vento, deixe andar o caos, e se demita da defesa da cultura no mais basilar dos seus instrumentos.

Eduardo Cintra Torres, jornal “Correio da Manhã“, 1 de Julho de 2012, crónica com o título “Panóptico“.

NP13052012O truque é simples. Num restaurante de má fama, um cliente refilão mas pouco astuto queixa-se do bife. Que está mal passado, que assim não o come nem paga, era o que faltava! O empregado encolhe os ombros, leva o prato, vira o bife ao contrário e trá-lo outra vez. O cliente despacha-o, voraz, satisfeitíssimo por ter reclamado. Nada mudou: nem o restaurante, nem o cliente, nem o bife. A ilusão é uma arma temível, não é?

Vem isto a propósito de uma carta, já divulgada onlinecitada, pelo menos, no weblog do escritor David Soares, Cadernos de Daath, e está na íntegra em ilcao.cedilha.net), que o cineasta, escritor e professor António de Macedo (sim, esse mesmo, o de Sete Balas para Selma, A Promessa ou O Princípio da Sabedoria) enviou por estes dias ao secretário de Estado da Cultura, sem obter resposta. O tema é o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO90) e a dúvida ali colocada é pertinente. Ora leiam:

“Segundo o AO90, os Brasileiros podem continuar a escrever (como sempre escreveram pela reforma ortográfica brasileira de 1943), por exemplo: acepção, aspecto, conjectura, perspectiva, decepção, detectar, excepcional, tactear, retrospectiva, percepção, intersectar, concepção, imperceptível, respectivo, recepção, susceptível, táctico
Em Portugal, com o mesmo AO90, seremos obrigados a escrever: aceção, aspeto, conjetura, perspetiva, deceção, detetar, excecional, tatear, retrospetiva, perceção, intersetar, conceção, impercetível, respetivo, receção, suscetível, tático…

Ora, a ideia não era uniformizar? Será que os Brasileiros não se vão rir quando virem, em escritos de Portugal, aberrações como deceção, recetivo, perceção…?”

No comentário que escreveu depois, como adenda à carta, António de Macedo conclui: “Ou seja, iguala-se de um lado (atual, direção, exceção, elétrico, objetivo, etc.) e desiguala-se do outro, como nos exemplos que citei na minha mensagem ao SEC. No fundo eu estava perguntando, por outras palavras, o que é que lucrámos com isto, Portugueses e Brasileiros, perguntando também, implicitamente, se não seria mais simples deixar tudo na mesma — ao menos, já estávamos familiarizados com as igualizações e as desigualizações, em vez de termos de aprender outras novas sem nenhuma vantagem óbvia.” Seguindo o raciocínio de António de Macedo, peguemos num, dois, três, quatro, uma dúzia de livros brasileiros recentes. Não é difícil ler, a par de ato ou fato (que cá se mantém facto, já agora, numa deliciosa “ortografia comum”), palavras como aspecto, perspectiva, caracterizou, facção, respectivamente, etc. Essas mesmas que o unificador acordo quer que, SÓ EM PORTUGAL, se escrevam aspeto, perspetiva, caraterizou, fação (é verdade, FAÇÃO!) e respetivamente.

É isto um acordo para unificar a ortografia? Onde está o empregado que serviu o bife, hã? Não vêem que está mal passado? Não, não vêem. Vão “adotar” a coisa e não vêem. Mas comem-no, regalados, apesar do truque baixo do bife apenas virado na cozinha, sem ver outra vez a frigideira, para que todos se deliciem com a ilusão de uma ortografia unificada. Mas há vozes atentas, vejam lá, que percebem a impossibilidade de tais mudanças. Leiam-nas: “Há diferenças intransponíveis dos dois lados do Atlântico, as quais foram acentuadas pelo tempo.” Autor? João Malaca Casteleiro, o pai do aborto, perdão, do acordo ortográfico (pág. 6 do opúsculo Atual: o que vai mudar na grafia do português, ed. Texto, 2007).

Claro que nada disto interessa, obviamente. Porque, diz-se por aí, o acordo não pode ser posto em causa, o acordo é um facto. Enganam-se: é um fato. Um fato feito por alfaiates incompetentes, que não serviriam nem para um pronto-a-vestir de segunda. E aprovado por quem descuidadamente se veste por dentro, cuidando que melhor o faz por fora. O que vale é que não faltam por aí políticos adversários do acordo. Por exemplo: Paulo Portas, Pedro Passos Coelho, Nuno Crato, Francisco José Viegas. Só é pena é estarem na oposição, coitados. Senão já tinham ido à cozinha, pegado na frigideira e…

[Transcrição integral. In jornal “PÚBLICO” (Revista 2) de hoje, 13.05.2012 – link disponível para assinantes. Destaques a “bold” e “links” inseridos por nós.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]