ILC contra o Acordo Ortográfico

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Resultados da Pesquisa em Francisco Miguel Valada

Estive entre a assistência no evento do passado dia 14 de Abril, no anfiteatro da FLUL, e gravei em vídeo as intervenções dos convidados. Ao que parece, a organização do evento não possui qualquer registo da intervenção de Francisco Miguel Valada. Aqui fica.
Rui Valente

Francisco Miguel ValadaEscrever-se hão iniciaes maiúsculas em meio de períodos ou orações gramaticais, nos seguintes casos (…) f) Nomes dos meses
Diário do Governo n.º 213, 12 de Setembro de 1911, p. 3850

1. Em 1903, no prefácio de Portugais – phonétique et phonologie – morphologie – textes, advertia Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, acerca dos escritos que encerram a obra: “Les lecteurs seront surpris de rencontrer dans les textes des contradictions et des irrégularités orthographiques. J”ai gardé l”orthographe de chaque écrivain, à fin de mettre sous leurs yeux l”état anarchique où elle se trouve”.

Surpreendido ficaria decerto Gonçalves Viana se pudesse apreciar as actuais contradições e o actual estado anárquico da ortografia portuguesa, passados mais de cento e nove anos sobre aquelas linhas e quase cento e um anos sobre a entrada em vigor da “sua” reforma.

Mais surpreendido ficaria se lhe contassem que a causa do regresso às contradições e irregularidades fora uma reforma disfarçada de acordo. Soubera ainda Gonçalves Viana que o próprio Estado promotor desse acordo era dos primeiros a dar exemplos claros da anarquia ortográfica (ou “mixórdia acordesa”, como prudentemente lhe chamou António Emiliano, no PÚBLICO de 19/4/2012) e ficaria decerto com o semblante carregado de estupefacção.

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Francisco Miguel Valada

Francisco Miguel Valada nasceu no Porto e vive actualmente em Bruxelas. É intérprete de conferência.

Autor do livro Demanda, Deriva, Desastre — os três dês do Acordo Ortográfico (Ed. Textiverso, 2009), publica regularmente conteúdos sobre a Língua Portuguesa em geral e o Acordo Ortográfico em particular, do qual é, aliás, um opositor determinado. Algumas das suas intervenções públicas podem ser encontradas, por exemplo, no site Ciberdúvidas ou em artigos de imprensa, além de participações diversas em entrevistas e debates sobre a Língua Portuguesa e ainda uma presença marcante em vários grupos de acção e iniciativas nas redes sociais, nomeadamente no Facebook.

Subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

Francisco Miguel Valada nasceu no Porto em 1972. É licenciado em Tradução pela ESTG do Instituto Politécnico de Leiria e pós-graduado em Interpretação de Conferência pela Universidade do Minho. Foi professor assistente na ESTG do Instituto Politécnico de Leiria. É Intérprete de Conferência de língua portuguesa, tendo exercido durante três anos como intérprete residente da cabina portuguesa do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias no Luxemburgo. Exerce actualmente em regime de profissão liberal, domiciliado em Bruxelas.
“Demanda, Deriva, Desastre – Os três dês do Acordo Ortográfico”, Alcochete/Leiria, Textiverso, 2009, foi a sua primeira publicação em formato livro, apresentada sucessivamente em Leiria, Porto, Lisboa, Bruxelas (Bélgica) e Luxemburgo.

[Transcrição do perfil de autor no site da Textiverso.]

Nota: esta publicação foi autorizada pelo/a subscritor/a.

Publico-20150315Acordo Ortográfico de 1990: o regresso das falácias convenientes

Francisco Miguel Valada

Os próprios poderes públicos que estão na génese do AO90 demonstram a falácia da “ortografia comum”.

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…é confundir a arca do dilúvio com uma pipa apocalíptica

GNR, O Paciente (Psicopátria, 1986)

Em debate na TVI moderado por Fátima Lopes – e com António Chagas Baptista a atacar de forma muito competente o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) –, João Malaca Casteleiro apresentou três “razões essenciais” para justificar a pertinência do instrumento em apreço: razão histórica, razão linguística e razão política. São razões facilmente rebatidas em meia dúzia de linhas: do ponto de vista histórico, a demanda do Preste João ou andar aos gambozinos (citando J. M. Casteleiro: “conseguir chegar a uma ortografia comum”) nunca significou que o reino do Preste ou os gambozinos existissem e, do ponto de vista político, está por provar o benefício para a língua portuguesa da criação em Portugal da palavra ‘perspetiva’ (sic), substituta da ‘perspectiva’ mantida no Brasil.

J. M. Casteleiro considera que agora existe uma “ortografia comum”. Em Outubro do ano passado, introduzi no conversor Lince do ILTEC os programas políticos dos três candidatos à presidência do Brasil e obtive, entre outros, os seguintes resultados: “aspecto convertido para aspeto”; “concepção convertido para conceção”; “confecções convertido para confeções”; “excepcionais convertido para excecionais”; “facções convertido para fações”; “infecciosas convertido para infeciosas”; “percepção convertido para perceção”; “perspectiva convertido para perspetiva”; “recepção convertido para receção”; “receptiva convertido para recetiva”; “receptividade convertido para recetividade“; “receptor convertido para recetor”; “respectivamente convertido para respetivamente”; “respectivas convertido para respetivas”; “ruptura convertido para rutura”.

Ou seja, se quiser escrever ‘aspecto’, ‘concepção’, ‘confecções’, ‘excepcionais’, ‘facções’, ‘infecciosas’, ‘percepção’, ‘perspectiva’, ‘recepção’, ‘receptiva’, ‘receptividade’, ‘receptor’, ‘respectivamente’ ou ‘ruptura’, o AO90 não me permite tais veleidades, porque sou falante e escrevente de português europeu, mas um falante e escrevente de português do Brasil pode continuar a fazê-lo. Um dos resultados tangíveis da “ortografia comum” anunciada por J. M. Casteleiro encontra-se patente em dois textos publicados recentemente e com inegável importância política. No prefácio do livro Roteiros IX, Cavaco Silva escreve “perspetiva de ligação”, “aspetos essenciais” e “respetivos líderes políticos”. Contudo, na Mensagem ao Congresso Nacional (o documento que inaugura oficialmente o ano legislativo no Brasil), podemos ler “perspectiva de redução de custos”, “diversos aspectos da previdência complementar” e “respectivos sistemas estaduais de cultura”. Efectivamente, os próprios poderes públicos que estão na génese do AO90 demonstram a falácia da “ortografia comum”.

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publico(…)

Em 1999, Ernesto d’Andrade e Maria do Céu Viana escreviam: “É hábito estabelecer-se uma diferença entre a forma comum em português ‘rotura’ e a forma erudita ‘ruptura’ (…) Note-se que se entrasse em vigor o “Acordo Ortográfico” de 1990 (…) teríamos mais uma variante (‘rutura’) que nos parece injustificada”. É verdade, ei-la, a rutura (sic), exclusivamente em Portugal.

Antes que alguém enverede pela lengalenga da “dupla grafia” anterior ao AO90, “ruptura” e “rotura” não são “grafias duplas”: são palavras homófonas (em português europeu), com a nominalização de um mesmo verbo (‘romper’) a ser feita através de vocábulos diferentes, havendo aparente consenso quanto às respectivas acepções – “rotura” incide sobre um objecto físico (“rotura de ligamentos ou “carga de rotura”), enquanto “ruptura” diz respeito à interrupção da continuidade de uma situação (como na citação de Frei Bento Domingues, em epígrafe).

Quanto a grafias múltiplas, considere-se a “electroóptica”. Segundo o VdM, antes do AO90, havia duas grafias: “electroóptica” (comum a Portugal e Brasil) e “eletroóptica” (apenas no Brasil). Com o AO90, além de Portugal e Brasil deixarem de ter grafia comum, passa a haver três grafias: em Portugal, “eletro-tica”; no Brasil, “eletroóptica” e “electro-óptica”. É evidente que acentos agudos e circunflexos complicariam tudo. Se quiserem um espectáculo digno de registo, consultem o VdM e dêem uma espreitadela a espectrofotómetro” e “espectrómetro”.

No passado dia 31 de Janeiro, na AR, durante audiência concedida à Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, o deputado Luís Fazenda garantiu que “ficarmos com três grafias (…) é absolutamente insustentável, não faz sentido nenhum, é de uma ilogicidade total”. Pergunto ao senhor deputado Luís Fazenda e a todos os responsáveis políticos portugueses: estamos todos exactamente à espera de quê, para se acabar, duma vez por todas, com esta coisa insustentável?

Francisco Miguel Valada

[Transcrição parcial de texto, da autoria de Francisco Miguel Valada. “PÚBLICO” de 14.07.13. Destaques e “links” adicionados por nós.]

logobadge1O que se segue é a transcrição de um “diálogo” (troca de comentários) entre o embaixador Seixas da Costa e o jornalista Octávio dos Santos, a propósito de um artigo de Francisco Miguel Valada no “blog” “Aventar“.

Não vale a pena aventar, nem de propósito, qualquer espécie de considerações prévias; que cada qual tire as suas próprias conclusões (passe a redundância).

brainFrancisco Seixas da Costa diz:
16/06/2013 às 12:31
Caro Francisco Miguel Valada.

O que pretendi dizer, no texto que citou, foram três verdades muito simples:

1. A palavra “facto”, segundo o Acordo Ortográfico, não muda de grafia;

2. Do mesmo modo, a palavra não muda, naturalmente, de pronúncia, porque, como é óbvio, o Acordo tem como objetivo uma aproximação da forma escrita do Português e não qualquer harmonização da pronúncia das palavras;

3. Alguns opositores do Acordo, com evidente má fé, utilizam e estimulam uma confusão propositada entre as palavras “facto” e “fato”, nas suas diferentes grafias e sinónimos entre e dentro das normas portuguesa e brasileira, como meio para combaterem o Acordo.

A circunstância de algumas outras pessoas, qualquer que seja a sua real ou pretendida qualificação, continuarem – por distração, ignorância ou por outra qualquer razão – a laborar neste erro específico não absolve aqueles que, estando bem cientes dos factos referidos em 1 e 2, procedem como se os não conhecessem.

No seu caso, acho muito bem que, pensando o que pensa sobre o Acordo, prossiga a luta contra a sua aplicação. Está no seu pleno direito. Mas, deixe-me que lhe diga, julgo que trava uma “guerra” já perdida, em particular se pensar que, com a esmagadora difusão das novas regras através do ensino oficial, as futuras gerações já só escreverão dessa forma. Concordo consigo em que o atual estado de coisas é bem capaz de semear uma imensa confusão e, no limite, uma indesejável pluralidade gráfica, tudo isto com efeitos na dignidade da língua. Divergimos, estou certo, quanto a quem tem a responsabilidade maior por tudo isto: eu considero que ela recai, essencialmente, em quantos, por um conservantismo cultural arraigado, se barricaram na trincheira anti-Acordo e continuam a reagir à respetiva adoção, prolongando desnecessariamente a coexistência das duas grafias. Mas é um facto que essas pessoas têm o direito de vestir o fato da renitência gráfica, se bem que só o desespero justifique que a defesa da sua tese seja feita, muitas vezes, através de insultos e acusações soezes – atitude que, curiosamente, não vejo surgir do lado de quantos defendem o Acordo.

Cordialmente

Francisco Seixas da Costa

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Octávio dos Santos diz:
17/06/2013 às 19:57
«…Em quantos, por um conservantismo cultural arraigado, se barricaram na trincheira anti-Acordo e continuam a reagir à respetiva (sic) adoção (sic), prolongando desnecessariamente a coexistência das duas grafias…»

Pois é, estes teimosos, estes «chatos» opositores do AO, que se recusam a aceitar algo que é ilegal e inútil, além de aberrante… E que, para mais, representam a maioria da população! De onde é que será que apanharam esta mania de resistir? Até parece que tivemos uma ditadura!

«… Insultos e acusações soezes – atitude que, curiosamente, não vejo surgir do lado de quantos defendem o Acordo.»

Como o Sr. ex-embaixador não vê e eu vejo, aqui está apenas um exemplo que demonstra exactamente o contrário:

http://lampadamagica.blogspot.pt/2013/06/a-diferenca-entre-uma-pessoa-seria-e-o.html

Eu poderia perguntar-lhe, caro Chico, «porque não se cala?» Mas não o faço. Porque quero que continue a falar – a escrever – em «acordês». Para continuar a fazer figuras tristes.

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publico“Apocalise abruto”

Octávio dos Santos
13/03/2015 – 05:07

O “cAOs” ortográfico está a alastrar em Portugal. Será definitivo? Ou, pelo contrário, será contido e até revertido?

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A imposição – ilegítima, ilegal, imoral, inútil, prejudicial, ridícula, totalitária – do dito “Acordo Ortográfico de 1990” como que já “normalizou”, aparente e infelizmente, aberrações como “atividade”, “ator” e “atriz”, “direto”, “espetáculo”, e outras (de)mais. Porém, bastantes “anomalias” adicionais têm vindo a ocorrer induzidas pela ideia – errada mas compreensível – de que, com o AO90, qualquer consoante de pronunciação minimamente “duvidosa” provavelmente não deve estar antes de outra.

Este perigo de proliferação, de multiplicação, de erros, de deturpações foi previsto e alertado atempada e acertadamente por muitos opositores do dito cujo, que então não receberam toda a atenção que mereciam mas que agora vêem os seus receios confirmados…

… Com exemplos como “abruto”, “acupuntura”, “adatação”, “adeto”, “adómen”, “ajunto”, “amidalite”, “aministração”, “aministrador”, “anistia”, “apocalise”, “artefato”, “autótones”, “avertência”, “batéria”, “batericida”, “carateres”, “cetro”, “compatar”, “conetar”, “conosco”, “contratura”, “convição”, “cootar”, “corréu”, “corrução”, “corrutor”, “critografia”, “dianóstico”, “disseção”, “dítico”, “dútil”, “eletroténico”, “elipsou(-se)”, “elise”, “elítico”, “enográfico”, “erução”, “esfínter”, “espetativa”, “espetável”, “espetro”, “estupefato”, “etópica”, “eucalito”, “expetoração”, “ezema”, “fição”, “fratais”, “frição”, “ginodesportivo”, “helicótero”, “histeretomia”, “ilariante”, “impato”, “indenização”, “infeciologia”, “intato”, “inteleto”, “interrução”, “interrutor”, “invita”, “iterícia”, “latente” (não o que ainda não se manifestou exteriormente), “manífico”, “mastetomia”, “mição”, “nétar”, “Netuno”, “oção”, “ocional”, “onívoros”, “ostáculo”, “ostipação”, “otanagem”, “otativo”, “otogenário”, “otógono”, “pato” (não a ave), “perfecionista”, “piroténico”, “pitórico”, “plânton”, “politénico”, “protologia”, “proveta” (não a dos bebés e dos laboratórios), “putrefato”, “refratário”, “réteis”, “reto” (não a parte da anatomia), “seticemia”, “setor”, “sução”, “sujacente”, “suntuoso”, “ténica”, “tenologia”, “tenológico”, “tetónica”, “trato” (não a forma de lidar com outros), “trítico”, “tumefação”, “tumefato”, “umidade” e “vasetomia”. Quais são as letras que faltam nas “palavras” acima referidas? Já não são só os “c’s” e os “p’s” que cortam… os “b’s”, os “g’s”, os “h’s”, os “m’s”, os “n’s” e os “t’s” também podem desaparecer!

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adoção adoptando

Esse Acordo Ortográfico foi votado por unanimidade, nesta Câmara, em 1991 — aliás, privilégio que o Bloco de Esquerda não teve porque não existia à época.

Luís Fazenda

***

Neste preciso momento, estará a ser debatido, na Assembleia da República, um projecto de lei do Bloco de Esquerda sobre a eliminação da impossibilidade legal de adopção por casais do mesmo sexo. Na Exposição de Motivos, pode ler-se “debate promovido na sociedade e na Assembleia da República em torno do projeto [sic] de lei da co adoção [??]” e “o radicalismo da maioria de direita e as manobras que descambaram numa proposta infundada de referendo (…) visaram bloquear o processo legislativo em curso relativo à co adoção [??]”.

Isto é, quase dois anos depois da anómala ‘co-adoção’ – e apesar da coadoção –, o Bloco de Esquerda consegue matar dois coelhos de uma cajadada: conjuntamente com um projecto de lei sobre a eliminação da impossibilidade legal de adopção por casais do mesmo sexo, apresenta uma proposta de aditamento ao disposto no texto do Acordo Ortográfico de 1990.

Efectivamente, o deputado Luís Fazenda tinha razão: com estas ocorrências (‘co adoção’, ‘co-adoção’ e ‘coadoção’) ficamos “com três grafias”. É “absolutamente insustentável, não faz sentido nenhum, é de uma ilogicidade total”? A deputada Isabel Moreira pode escrever que “nada mudou desde o chumbo da co-adoção [?]“. Mudou para (muito) pior. Mas a culpa não é minha. É vossa. Assumam-na. E retractem-se. Com cê, sff.

Francisco Miguel Valada

afetada

A SIC Notícias pergunta-nos: “A imagem de Portugal no estrangeiro ficou afetada[sic] depois do conhecimento público destes casos de justiça?”. Creio que a imagem de Portugal fica de facto bastante ‘afetada’ (ou mesmo *aftada), quando se percebe o estado actual da língua portuguesa escrita.

Se considerarmos padrões grafémicos afins – alfinetar → alfinetado(s)/a(s); fretar→ fretado(s)/a(s); decretar→ decretado(s)/a(s) – verificamos muito rapidamente que a presença da letra consonântica ‘c’, parte do grafema composto <EC>, em ‘afectar’ → afectado(s)/a(s); arquitectar → arquitectado(s)/a(s); detectar → detectado(s)/a(s), não serve para enfeitar determinadas palavras.

Admito que a presença de um ‘vêem’ num texto com ‘afetada’ e ‘direto’ apenas surpreenda quem leu, pelo menos uma vez na vida e com atenção, as 21 bases do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Também admito que a presença de um ‘vêem’ num texto com ‘afetada’ e ‘direto’ é muito mais subtil do que uma ‘reacção’ no título e ‘reação’ [sic] no corpo do texto, como acontece na chamada para esta intervenção de Luís Marques Mendes. As duas incongruências comprovam quer a falta de conhecimento acerca do preceituado no texto do AO90, quer o carácter inadequado da base IV do AO90 para a norma ortográfica do português europeu.

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Francisco José Viegas, o anjinho da procissão

O chamado acordo ortográfico (AO90) assentou em três ilusões: o “critério fonético” (traduzido na expressão “escrever como se fala”), a “simplificação” da ortografia para facilitar a aprendizagem e a uniformização ortográfica do mundo lusófono como meio de criar textos ortograficamente iguaizinhos.

Não foi necessário perder muito tempo a pensar para se chegar, rapidamente, à conclusão de que o “critério fonético” acabaria por impedir a criação de uma ortografia única, cuja inexistência, aliás, já estava patente no texto do AO90, em que se admite que ponto máximo a atingir será o da “aproximação ortográfica”, o que correspondeu a destapar de um lado e tapar do outro. Nada disto, no entanto, tem servido de impedimento para que pessoas investidas de autoridade continuem a mentir, anunciando um futuro em que deixará de haver versões diferentes do mesmo texto ou edições diversas do mesmo livro.

Defender a simplificação de qualquer conteúdo a fim de facilitar a aprendizagem é um logro que serve para desvalorizar a importância do esforço e faz parte de um programa facilitista que está na base, por sua vez, de um processo de desinvestimento na Educação. Ainda por cima, um sistema ortográfico mal concebido e, portanto, incoerente, é fonte de confusão e nunca será fácil de aprender.

Devido aos seus defeitos de concepção, e aliado a muitos outros problemas anteriores, o AO90 tem estado na origem de muitos erros. O Francisco Miguel Valada tem-se dedicado a mostrar uma ponta doiceberg, com factos e contactos a serem substituídos por fatos e contatos, sendo de destacar o surgimento de tais espécimes no Diário da República.

O movimento brasileiro Simplificando a ortografia é, no fundo, a consequência inevitável de se ter alimentado as três ilusões acima referidas. Para lá de todas as críticas que o dito movimento possa merecer, a verdade é que há ali uma coerência: se o AO90 pretendeu privilegiar o “critério fonético”, por que razão havemos de cortar o C de “acto” e manter, por exemplo, o H de homem, se as duas consoantes não são pronunciadas?

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