ILC contra o Acordo Ortográfico

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Resultados da Pesquisa em ambiguidades

europeia_200x200“Portugal no mundo: a língua portuguesa e os seus embaixadores”

O tema apresentado para debate implica forçosamente referir a Escola e o ensino da língua portuguesa, ensino que, obcecado pelo utilitário, pelo funcional e pelo «real», tem descurado, ao longo de anos, não só a Literatura, com destaque para a leitura da poesia e dos autores clássicos, mas também a História da Literatura, considerada «uma pura perda de tempo», bem como o ensino da Gramática, confundida com o «desastre» da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), mudanças profundamente agravadas com a imposição do AO de 90, «um monumento de incompetência e de ignorância», nas palavras do linguista António Emiliano. Compreender-se-á facilmente o porquê do desnorte na Escola, sob uma avalancha de mudanças que têm vindo a servir interesses e a desmotivar professores e alunos, contribuindo para a degradação do ensino da língua portuguesa, sendo de sublinhar, no entanto, e no que diz respeito ao AO, o parecer dado, em 1991, pela Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário no qual se lê: «Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar. O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos.»

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jornal_OPais_AngolaO (Des)Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: uma agenda oculta (I) (uma abordagem na perspectiva da Ideologia Linguística e Análise Crítica do Discurso)

8 Maio 2015

António Filipe Augusto

No meu artigo publicado em 21 de Novembro de 2014, pelo Semanário O País, começo por sublinhar que “ a decisão acerca de adopção e/ou adaptação de um sistema ortográfico com fins de grafização de uma determinada língua ou conjunto de línguas é, e foi sempre, um processo de uma profunda investigação e aturados debates académicos, políticos e sociais e constitui um elemento preponderante entre os três pilares que sustentam o processo de Planificação Linguística, sendo por sinal, o elemento ‘sine qua non’ para a implementação da Política Linguística de um Estado”. No mesmo texto deixei claro que a “Política Linguística de um Estado sério e responsável”, e aqui acrescento, que se diz ser independente, “é concebida por uma equipa criada de forma transdisciplinar e inclusiva”, e aqui acrescento, e é de inteira responsabilidade desse Estado. A Planificação Ortográfica, por sua vez, constitui um elemento crucial, pois, ela é um dos três pilares do processo da Planificação Linguística.

Porém, nos primórdios da última década do século passado, Portugal e Brasil entenderam conceber e liderar um processo de planificação linguística, e mais precisamente uma reforma ortográfica da língua portuguesa a que denominaram por Acordo Ortográfico Unificado da Língua Portuguesa, cujo “objectivo explicito”, alegam, “é de pôr fim à existência de duas normas ortográficas oficiais divergentes”. Com esta planificação linguística, os protagonistas da referida reforma ortográfica advogam que o pretérito “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 pretende instituir uma ortografia oficial unificada da língua portuguesa” e “actualizar o sistema ortográfico que data desde o Acordo do ano de1945”.

Os proponentes da política impõem esta ortografia, de uma forma implícita, a todos os países falantes do português como língua oficial, mesmo não fazendo parte do processo inicialmente, ‘ipso facto’, sentiram-se na obrigação de “persuadir” as lideranças políticas dos países africanos que têm o português como língua oficial para aderir ao acordo, o que parcialmente acabaram “cegamente” fazendo. Este facto, leva os analistas de políticas linguísticas a uma perturbação, não somente académico, como político-social. Esta perturbação pode traduzir-se em várias inquietações, tais como: com que legitimidade podem Portugal e Brasil conceber a política linguística para os países africanos que se dizem independentes? Que tipo de independência clamam estes países ter se ainda são linguisticamente dependentes da sua potência colonizadora? Aqui, é preciso salientar que segundo a Ideologia Linguística, a independência de um Estado começa pela independência linguística, pois, a língua é um potente instrumento de controlo, de poder e de manipulação.

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bresilienV«Então é preciso refletir se o “purismo sintático e lexical embute discriminação” ou se perpetua subserviência. Lê-se a propósito em um post intitulado “Liberdade para a língua brasileira”, de “outros lusófonos”: “Defendemos a ideia que no Brasil já se fala outra língua [acrescentaria: e já se escreve outra língua também].

Defendemos que seja preciso dar aos brasileiros a liberdade de falarem na sua própria língua: o brasileiro [e de escreverem na língua brasileira]. A editora francesa Assimil, que vende cursos para aprender línguas estrangeiras, vende um curso com livro e 4 CDs para aprender a falar Português, e outro curso, sempre com livro mais 4 CDs, diferente para aprender a falar brasileiro.

E essa editora tem razão, pois já são duas línguas diferentes. É altura de aceitarmos isso, como já aceitamos que na África do Sul se fala Afrikaans, que já não é holandês, e em Barcelona se fala catalão, que não é castelhano. É altura de deixarmos aos brasileiros a liberdade e o orgulho de terem a sua própria língua. Chega de acordos! O casamento acabou, é altura de divorciarmos e muito boa sorte para todos.”»

Excerto de Por uma língua brasileira: acordo ortográfico pode abolir ‘Ç’, ‘CH’, ‘H’ e ‘SS’ | São Paulo Review.

Por uma língua brasileira: acordo ortográfico pode abolir ‘Ç’, ‘CH’, ‘H’ e ‘SS’

| São Paulo Review

A obrigatoriedade da nova ortografia, que resulta do acordo entre os países de Língua Portuguesa, mas vigorando em caráter facultativo desde 2009, foi adiada até 31 de janeiro de 2015. Isso porque, agora, senadores como Cyro Miranda (PSDB,GO), Cristovam Buarque (PDT,DF), Ana Amélia Lemos (PP,RS) e Lídice da Mata (PSB,BA), entre outros, entendem a necessidade de extinguir do vocabulário linguístico as letras “ç”, “ch”, “h” e construções com dois “s”, com o objetivo de substituir a “memorização, vulgarmente conhecida como decoreba, pelo raciocínio e entendimento”, a “eliminação de contradições e duplas grafias e a redução máxima do uso de hífen ou também a sua eliminação.”

Segundo o professor Ernani Pimentel, da equipe de debate do projeto “Simplificando o Português”, “quase ninguém sabe a ortografia em nosso País e encontrar alguém que saiba usar hífen, j, g, x, ch, s, z é algo raro. Até professores precisam recorrer a dicionários para confirmar como se escreve uma palavra, de tão complexo que é o nosso sistema.”

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autografoO ACORDO ORTOGRÁFICO foi uma aventura – em parte bem-intencionada — que se deixou levar demasiado longe. Na discussão têm fervilhado as proclamações e os equívocos. Ninguém está livre deles. Não tenho a pretensão de exprimir verdades absolutas. Mas agora que o assunto vai à Assembleia da República, talvez consiga ser útil com algumas modestas observações à margem, fora de argumentários, gesticulações e vozearias. De notar que, seja quais forem as posições tomadas, há, de um e do outro lado, PESSOAS que merecem respeito e cujo apreço pela Língua Portuguesa não pode ser posto em causa.

1 –. Nem tudo o que muda é progresso. Uma amputação é uma mudança. O apodrecimento também é um processo de transformação. Mas mudar para pior não é progresso, é regresso. Parece-me equivocado colocar as «simplificações» e as «uniformizações» do lado das aspirações sociais. Diminuir o alcance de um texto (cerceando-lhe a memória histórica, por exemplo) é empobrecer quem o lê. E isso não é «moderno», muito ao contrário, é uma limitação à liberdade.

2 – O chocalhar de quinas, sabres e castelos, com gritos de «sus! A mim!», como se a Pátria imemorial estivesse ameaçada e as cinzas dos nossos maiores estremecessem nos seus túmulos, parece-me que vem em má ocasião. Não é isso que está em causa. Ninguém pretende desacatar D. Afonso Henriques.

3 – Alguns escritores e outros práticos da Língua pensam (como Saramago disse a propósito de uma tentativa de acordo ainda pior) que «isso é coisa para revisores». Eu tenho uma enorme estima por revisores, com quem venho aprendendo muito. Têm-me poupado alguns deslizes e até dispensado – o que muito agradeço – de me exasperar com minudências e ambiguidades não raro antipáticas. Ao contrário do que pensa a sabedoria popular (com a sua atávica propensão para o erróneo), os escritores não têm que papaguear a gramática de cor. Mas a gramática não serve apenas «para dar o pitoresco» como ironizava Mark Twain. Valerá a pena, pelo menos, dar notícia de um desconforto.

4 – O que não vale a pena é bramir, vociferar, pôr-se aos encontrões e transformar a questão em matéria de claque clubística, na disputa pelo alarido mais ruidoso.

5 – A língua é uma realidade entranhada, que evolui e se transforma em interacção com as transformações sociais e históricas, e de acordo com as suas próprias leis (às vezes misteriosas). Não me parece adequado usá-la para experimentações. «Pesquisas fazem-se em casa, já dizia a minha avozinha que era escritora» escreveu algures Alexandre O’Neill. Impõe-se a máxima cautela quando se toca em aspectos relacionados com um uso quase milenar e com um corpus literário apreciável. A ortografia não é tão neutra como se pensa. Os matizes, as deslocações de sentidos são de uma extrema sensibilidade.

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goncalvesvianaApenas mais uma acha para a fogueira que há-de queimar o AO: demonstrar que os argumentos agora apresentados a defender a modernidade da primazia da fonética sobre a escrita já eram considerados coisa ultrapassada no séc. XIX.

Já em 1885 se apresentavam projectos de reformas ortográficas do Português, algumas das quais com as variantes agora propostas de substituição de algumas letras, como a de Gonçalves Viana e Vasconcelos  Abreu.

No entanto, para que a ortografia fosse de facto uma ortografia e não uma espécie de Deus-dará ortografo-fonético, a ortografia não se fundamentava na pronúncia. Destaco os seguintes pontos, retirados das bases propostas por estes autores para reger uma ortografia:

[citação]
3.º A ortografia é o sistema de escrita pelo qual é representada a língua dum povo ou duma nação num certo estado de evolução glotológica.

4.º Esta representação deve ser exacta para todo o povo, para toda a nação e portanto deve respeitar a filiação histórica.

5.º É evidente, pois, que a ortografia não pode ser especial dum modo de falar, quer este seja dum só indivíduo, quer duma província ou dialecto da língua.

6.º Em virtude disto a ortografia não pode representar a pronunciação, que por certo não será una; há-de representar a enunciação, a qual é sempre comum ao povo, à nação que fala uma só língua como seu idioma próprio e exclusivo.

7.º Na ortografia, por consequência, não se pode fazer uso de sinais que indiquem pronúncia de uma qualquer letra vogal, excepto quando essa vogal careça de ser pronunciada com modulação especial para a distinção conveniente do emprego sintáctico do vocábulo, ou aínda (e menos vezes em português) para distinguir na grafia única modos diferentes de silabização.

8.º Para se representar a enunciação carece-se de acentuar graficamente o vocábulo, e a ortografia deve ser tal que, subordinada às leis de acentuação na língua falada, mostre para qualquer vocábulo a sua sílaba tónica a quem desconheça o vocábulo que lê.
[/citação]

Sucintamente, a pronúncia rege a ortografia até ao ponto em que se procura grafar regionalismos ou sotaques. A ortografia deve ser una. A pronunciação das palavras não deve apresentar dúvidas nem para os vocábulos desconhecidos.

É exactamente o oposto do que se propõe o AO90. Grafias múltiplas, escritas de acordo com o sotaque regional, facultatividades e ambiguidades. Moderno, portanto.

O futuro do AO90 será propôr que em Lisboa se grafe coâlho e em Coimbra se continue a grafar coelho.

Mais adiante, os autores advogam a substituição dos th,ph e ch pelos seus equivalentes fonéticos – que não alteram a pronúncia, e ainda a redução das letras dobradas, como os gg em todos os casos, e os nn e mm em casos especiais.

Se para tal estiverem predispostos, recomendo-vos a análise do panfleto “Bases da Ortografia Portuguesa” publicado pela Imprensa Nacional. Está disponível no projecto Gutenberg, ou no link abaixo.

http://purl.pt/437/6/l-11025-5-v_PDF/l-11025-5-v_PDF_T-C/l-11025-5-v_tT-C.pdf

Afonso Loureiro

[Texto recebido por email, via “formulário de contacto“. Publicação aprovada pelo autor. Imagem de “Frenesi”, loja de livros antigos.]

FERLAP_logoExmo. Senhor
Presidente da Comissão de Educação, Ciência e Cultura,
José Ribeiro e Castro

Lisboa, 30 de Junho de 2013

Exmo. Senhor,

Começamos com uma pequena, enorme, frase de Fernando Pessoa “A minha Pátria é a Língua Portuguesa” que representa tudo o que pensamos da Língua Portuguesa e que não pode ser esquecido.

Depois, tendo em atenção que o Acordo Ortográfico é um Tratado multilateral restrito e que, de acordo com o acordado em 1990 por todas as partes, o mesmo entra em vigor apenas quando tenha sido ratificado por todos os Estados que o tenham negociado;

Tendo em atenção que o referido Tratado não foi ratificado por todos os Estados e que as modalidades da respectiva entrada em vigor são de importância decisiva e crucial desde o momento da autenticação do documento;

Tendo em atenção as divergências existentes entre a comunidade linguística e jurídica sobre a sua validade e legalidade (a Resolução do Conselho de Ministro que decidiu da sua aplicabilidade não pode fazer ignorar as regras sobre a aplicação de convenções internacionais consagrada no artº 8º da Constituição da República Portuguesa);

A FERLAP entende que a Língua evolui naturalmente e não por decreto, assim não entende:

1. em que condições é que admite a utilização de um Acordo Ortográfico que faz parte de Convenção multilateral ainda não ratificada por todos os membros;
2. em que medida, nestas circunstâncias se pode admitir a sua utilização pelos alunos, quando na comunidade linguística e científica a sua validade é duvidosa;
3. se faz sentido obrigar os alunos portugueses a utilizar o A.O. quando organismos integrantes da estrutura do Estado não o utilizam;
4. como é possível, haver alunos a aprender de forma diferenciada a sua Língua;
5. quais os benefícios que este acordo pode trazer à Língua Portuguesa e para Portugal;

Pensamos ser um atropelo completo à Língua e à Cultura Portuguesa, pensamos que nada de bom nos trouxe, pensamos que veio aumentar as ambiguidades já existentes, pensamos que em vez de simplificar, complicou, pensamos que a Língua, já o dizia Pessoa, é fundamental para a integridade e identidade de uma Nação, pensamos que, para já, a identidade está a perder-se, pensamos que as variações do Português o enriquecem e não o contrário.

Enfim, pensamos que os quase mil anos de História têm peso suficiente para não termos que abdicar da nossa Língua em troca de qualquer outra coisa.

Melhores cumprimentos,
Isidoro Roque
Presidente

[Transcrição integral da resposta da FERLAP (Federação Regional de Lisboa das Associações de Pais) a um pedido de informação da CECC (Comissão de Educação, Ciência e Cultura).]

logoCECC

[Ver AQUI outras entidades que recusam expressamente o AO90.]

JRDtxtlogo

CHINESICES, PRINCÍPIOS E VALORES (E TRAPAÇAS)

E porque é fundamental assinar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico

João Roque Dias, CT

8 de Abril de 2013

Avante, mesmo com imprecisões, erros e ambiguidades, dizem eles

Está para nascer um acordista que não aponte ao acordo ortográfico (AO90) «imprecisões, erros e ambiguidades». A começar, e à cabeça, pelo principal autor do Disparate pela parte portuguesa, Malaca Casteleiro, quando subscreveu, em 2008, o manifesto de Evanildo Bechara, o acordista-mor brasileiro, — “Considerações em torno do Manifesto-Petição dirigido ao senhor Presidente da República e aos Membros da Assembleia da República contra o Novo Acordo Ortográfico de 1990” —, divulgado durante o 3.º Encontro Açoriano da Lusofonia, no qual se pode ler:

«Só num ponto concordamos, em parte, com os termos do Manifesto-Petição quando declara que o Acordo não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambiguidades».

Agora, que na Assembleia da República foi constituído um Grupo de Trabalho para analisar a aplicação [sic] do acordo ortográfico, devemos perguntar aos nossos Deputados que loucura lhes passou pela cabeça para votar favoravelmente o Segundo Protocolo Modificativo do AO90, perante uma declaração deste teor? Não lhes bastou – aos Deputados e ao Presidente da República – terem ignorado TODOS os pareceres qualificados que receberam sobre o Disparate, e ignorarem também mais esta verdadeira certidão de óbito, emitida – pasme-se! – pelos autores do próprio óbito!

A este Grupo de Trabalho, apresentou o ILTEC um ”parecer” onde se lê:

«O ILTEC é crítico em relação ao AOLP90, mas opõe-se a qualquer retrocesso na sua aplicação. (…) O ILTEC tem, como não poderia deixar de ser, uma postura crítica sobre o AOLP90. (…) O AOLP90 não permite criar, por si só, traduções únicas para o português. Nenhuma alteração à ortografia o poderia permitir. (…)»

No entanto, Malaca Casteleiro, pai do Disparate, afirma prazenteiro, mas mentindo:

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artigo HC

Ortografia no Verão

Por Hermínia Castro

Imaginemos que nos diziam que doravante tínhamos de passar a representar o céu, por exemplo, de amarelo, em vez de ser de azul. Perguntávamos: porquê? “Porque sim.” Dizíamos: nós sabemos que não passa de uma representação e de uma convenção, mas porquê isto? Traz alguma vantagem? Fizeram estudos? Resolve alguma coisa? Melhora alguma coisa? E a resposta era sempre a mesma: “Porque sim”. Como se a opinião não fundamentada de meia-dúzia pudesse obrigar todos a fazer uma mudança sem sentido.

Agora troquemos a tonalidade do céu pela ortografia do português. Porque as alterações iriam unificar e simplificar, iriam aproximar a escrita da oralidade, seriam uma evolução da língua… ou “porque sim”? Vejamos.

Temos o irresistível argumento de aproximar a escrita da oralidade. Com pronúncias tão distintas como as dos alentejanos, timorenses, brasileiros, moçambicanos, cabo-verdianos, minhotos, guineenses, são-tomenses, açorianos, angolanos, etc., nada mais lógico senão dizer-lhes a todos que escrevam como pronunciam…? Quando estamos ao mesmo tempo a “unificar”, claro! Isto só como anedota. Será possível que haja quem ainda não tenha visto a contradição gritante deste disparate?!?

Mais irresistível ainda é o argumento de que temos que “ivoluir”. Impagável. Como se evoluir alguma vez pudesse significar cilindrar a riqueza e a diversidade do que quer que fosse, quanto mais de uma língua viva. Então porquê estas alterações, que implicam a desestabilização da ortografia com a introdução de milhares de novas facultatividades – leia-se também: ambiguidades – e com a invenção de “regras” absurdas e impossíveis de seguir, pois mais não são do que a consagração das excepções e dos erros? Ora, porque sim e está tudo dito.

Já sabemos que o destino de tudo no Universo é a entropia, mas será necessário dar um empurrão tão grande à ortografia da nossa língua? Temos uma ortografia que não é perfeita (aliás, nenhuma língua tem uma ortografia perfeita), mas introduzir mudanças aleatórias não significa melhorá-la. Muito pelo contrário.

Bem, então e agora? “Já está”, não é? Não! Felizmente, há uma maneira muito simples de resolver tudo isto: revogar (anular) a entrada em vigor do “acordo” “ortográfico” em Portugal. (A sério? Sim, sim, muito a sério.) Basta juntarmos 35.000 assinaturas (em papel) para entregarmos a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) Contra o Acordo Ortográfico. É uma proposta de lei, tal e qual como as que são submetidas pelos deputados, mas com a diferença de sermos nós, os cidadãos, a apresentá-la. Parece-me uma óptima ideia. Passamos a vida a reclamar e a dizer que se fôssemos nós faríamos assim e assado e cozido e frito. Pois façamos, então. Já temos largos milhares de subscritores, precisamos de mais uns quantos. Se cada pessoa que ler este texto (e concordar um bocadinho) subscrever, já serão mais uns milhares. Se depois falar nisso a mais meia dúzia de pessoas, já serão mais meia dúzia de milhares. E assim por diante. Numa onda de cidadania a lavar o país dessa escrita empeçonhada.

É só ir a https://ilcao.cedilha.net, imprimir o formulário de subscrição, preencher, assinar e enviar. Pode enviar-se por correio tradicional ou electrónico (com o impresso digitalizado em anexo). Tem é de ser assinado em papel antes de enviar, que é o requisito fundamental (está tudo explicadinho na página). Bastam cinco minutos. E acreditar que podemos ajudar a reparar este erro tremendo.

Aproveitemos então o Verão, a contemplar o azul (e todas as outras cores) do céu, para pensarmos nas palavras. Queremos ficar com esta imitação patética de ortografia, imposta à força e sem razão, ou preferimos ter uma língua viva, rica e que seguirá o caminho que nós lhe quisermos dar? Pensem e contemplem, verão certamente o que quero dizer. Depois é só enviar o impresso. E voltar à contemplação do céu, mas desta vez com a satisfação de ter feito o que está certo e de ter ajudado a repor um pouco de bom senso no país. Para saber mais: https://ilcao.cedilha.net

[Transcrição integral de artigo da autoria de Hermínia Castro. In jornal “PÚBLICO” de hoje, 05.08.2012 – link disponível para assinantes.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

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Debate: o Ensino e o AO90

A anunciada revisão do Acordo Ortográfico

Por Francisco Miguel Valada

Sou um professor pensador, não preciso do programa para me dizer o que devo fazer. Os colegas que querem que o programa seja prescritivo e autoritário são meros funcionários
Paulo Feytor Pinto, Jornal de Notícias, 27/3/2010 [link externo]

O professor tem que saber e tem que cumprir as regras que lhe são ditadas
Edviges Ferreira, Sociedade Civil, RTP, 13/1/2010

1. Aparentemente, terá passado despercebida a entrevista de Francisco José Viegas ao Correio da Manhã de 30/10/2011, em que o secretário de Estado da Cultura escancara a porta à revisão do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) e impugna o conteúdo quer das actuais “acções de formação”, quer, em última análise, do próprio AO90. Sublinha Francisco José Viegas que embora o AO90 seja “irreversível não quer dizer que não seja corrigível”. O AO90 é corrigível. Houve um responsável político que o disse. É um facto. Resta saber se Francisco José Viegas, além de comunicar tal iniciativa ao Correio da Manhã, informou as escolas, o Governo e “todos os serviços, organismos e entidades na dependência do Governo”, não esquecendo os redactores do Diário da República. Na ordem do dia, teremos, em conjectura e se tudo correr bem, além da reavaliação da base IV e da eliminação da base IX, a completa inutilidade das publicações actualmente saídas do Lince com amputação consonântica, mutilação diacrítica, hifenização arbitrária e facultatividade à vontade do freguês. Seria importante que este intuito de Francisco José Viegas passasse das páginas do Correio da Manhã para as mesas de trabalho do senhor ministro Nuno Crato e da senhora presidente da Associação de Professores de Português (APP), Edviges Ferreira.

2. Em entrevista à Única do Expresso de 3/9/2011, Nuno Crato alegava que o AO90 “é um facto. Como disse salvo erro o ministro dos Negócios Estrangeiros, neste momento não é uma questão de opinião” [link externo]. Antes pelo contrário. Enquanto o desígnio de Francisco José Viegas não se concretizar, o texto em apreço será sempre uma súmula de opiniões órfãs e descosidas e não uma colectânea de factos comprováveis. Desafio o senhor ministro a ler a alínea c) do ponto 4.2 da Nota Explicativa e a exigir: i) estudos sobre o “enorme esforço de memorização” das crianças de 6-7 anos diante dos P de recepção e C de selecção pré-AO90; ii) estudos que comprovem um menor “esforço de memorização” perante o “-eção” da receção AO90 e o “-essão” da recessão comum; iii) averiguar se esse “esforço de memorização” levou os autores do AO90 à criação, na base IV, 1.º, b), do espectro que ensombrou a recta final do século XX: a enigmática figura da letra C em aflição e em aflito…

3. Há dois meses, assustei-me com o formidável objectivo que Edviges Ferreira pretende obstinadamente atingir: “Penalizar os seus alunos que escreverem com a antiga grafia” (PÚBLICO, 8/9/2011). Aparentemente, nada demove a presidente da APP da exemplar aplicação dos respectivos e correspondentes correctivos, nem sequer a nota ministerial de 6/9/2011 a determinar que se “considerarão como válidas exclusivamente as regras definidas pelo AO a partir dos anos letivos [sic]” 2013-14 (6.º ano) e 2014-15 (4.º, 9.º, 11.º e 12.º anos). Seis dias depois, a presidente da APP voltava à carga no Correio da Manhã (12/9/2011), num registo mais suave, sem soar a palmatória: “Entendo que se deve penalizar os erros, mas isso fica ao critério dos professores” . As regras determinam 13-14 e 14-15, mas Edviges Ferreira quer fugir para a frente e começar a castigar de rompante, em 11-12, sem vocabulário ortográfico estável, sem acções de formação esclarecedoras, sem consideração ponderada, séria e objectiva dos pareceres científicos.

4. Assegurava a presidente da APP, na edição de 7/9/2011 do Jornal de Letras, que “contra as mudanças há sempre muitos “velhos do Restelo””. Sempre me surpreendeu o silêncio com que os especialistas em estudos camonianos reagem a este tropo recorrente: o Velho do Restelo vem invariavelmente à tona para silenciar a opinião contrária. Em vez de se discutir, debater e esclarecer, emerge o venerando homem e afunda-se a discussão. Na estrofe 94 do Canto IV d”Os Lusíadas, não é prestada qualquer informação sobre o mister da personagem. Durante a prelecção a que se dedica (estrofes 95-104), apesar de revelar aptidão para discorrer sobre mitologia, geografia e actualidade de finais do século XV, o Velho do Restelo não alude a qualquer aspecto cartográfico, não se pronuncia sobre a construção e a reparação das naus, remetendo-se a um prudente silêncio acerca de instrumentos náuticos, cálculos matemáticos e cosmográficos. Temos a certeza de que a opinião do “Velho do Restelo” não é uma opinião técnica avalizada. Pelo contrário, “contra as mudanças” foram elaborados pareceres, milagrosamente desencarcerados da gaveta onde se encontravam a acumular bolor, graças à acção da senhora deputada Zita Seabra. Reduzir quem se dedica ao estudo das escritas de base alfabética à condição de Velho do Restelo é inaceitável. Gregory Bateson (a propósito do “órgão da linguagem”) recomendava prudência na leitura das metáforas de Noam Chomsky. O mesmo conselho fica para quem envereda pelo atalho da menção àquele que, do cais, com voz pe?ada hum pouco aleuantando, se limitou a reflectir uma opinião não especializada sobre a gesta.

5. Teria Paulo Feytor Pinto (ex-presidente da APP) abandonado a óptica do “basta uma meia hora para os professores aprenderem as novas regras. E depois é aplicá-las” (PÚBLICO, 2/9/2009)? Teria sido anunciado que Paulo Feytor Pinto subscrevera a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (https://ilcao.cedilha.net/)? “Regras com ambiguidades que abrem a porta a arbitrariedades e que, por isso, são uma ameaça à transparência” (PÚBLICO, 8/9/2011 [link externo]) seria a solução do enigma defina as bases IV e IX do AO90 em termos técnicos e em dezoito palavras. O repto era, afinal, outro.

[Transcrição integral de crónica da autoria de Francisco Miguel Valada publicada no jornal Público de 24.11.11. Link disponível apenas para assinantes do jornal online. Links inseridos por nós no texto.]

Um responsável pela “coleção” Klássicos dizia há dias, no Facebook, sentir-se “lisonjeado” pelo artigo de Nuno Pacheco no Público, porque “mesmo a criticar a coleção, fê-lo construtivamente e divertidamente”.

Dificilmente se imaginaria tamanha cara de pau. O artigo de Nuno Pacheco é demolidor para a colecção Klássicos e não é possível confundir a sua ironia com o que quer que seja de divertido. Pelo contrário, o cenário que descreve para o futuro do nosso património literário é assustador.

Outra coisa não seria de esperar — a “coleção” Klássicos é, de facto, uma verdadeira obra de destruição da cultura.

Veja-se o caso de Gil Vicente, um dos autores afectados. José Bernardes, vicentista emérito e Professor da Universidade de Coimbra, diz-nos que já não é possível descodificar integralmente os textos de Gil Vicente. Dito de outra forma, os contemporâneos de mestre Gil divertiam-se certamente muito mais do que nós quando assistiam às suas obras. Ainda assim, acrescenta, é preferível fazer “o caminho possível” até Gil Vicente — e enriquecermo-nos nessa viagem — do que actualizar o legado vicentino.

Ora, isto é válido para qualquer obra. Actualizar, substituir palavras e expressões antigas por outras “atuais”, alegadamente mais familiares e acessíveis, é uma operação que apenas mutila o texto, e nada traz de novo para o leitor.

Diz a publicidade da “coleção” que a língua está sempre a mudar. Deste modo, devemos todos deitar fora “Os Maias” que comprámos na escola e adquirir uma nova edição. Que durará, no máximo, uns dez anos — porque a língua está sempre a mudar.

É verdade que a língua está em permanente evolução. Mas essa mudança, na sua espontaneidade, é sempre inclusiva. Cito novamente a publicidade da “coleção”: expressões como “Vossa Mercê”, “vossemecê”, “você” e até o brasileiro “cê”, convivem sem problemas. Cultura é conhecê-las a todas e conhecer o contexto adequado para cada uma delas.

Uma coisa é o significado de certas expressões ter-se perdido na noite dos tempos ou caído em desuso, outra é este crime de lesa-língua, em que o modo de escrever e de falar das gerações passadas é deliberadamente omitido às gerações vindouras. A pretexto de quê?

Se um clássico, como lembra Calvino, é um livro que não acabou de dizer o que tem a dizer, deixemo-lo então dizer o que efectivamente tem a dizer — e não outra coisa qualquer.

É claro que todo este desmando da colecção Klássicos não seria possível se não existisse um desmando ainda maior, chamado Acordo Ortográfico (AO90). Se mais argumentos fossem necessários para desautorizar o AO90, a colecção “Klássicos”, por si só, arrumaria de vez essa questão.
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