ILC contra o Acordo Ortográfico

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Resultados da Pesquisa em fernando venâncio

Facebook_iconOS ACORDISTAS JÁ NÃO ACORDAM

Fernando Venâncio

Saturday, April 11, 2015 at 12:04pm

 

A julgar pelos ares displicentes (quando há sequer ares) dos que se dizem felizes com o «Acordo Ortográfico de 1990», eis-nos acabados de aterrar no melhor dos mundos. Chatices, só estes piolhos importunos e tagarelas dos anti-acordistas.

Não se lhes ouve um pio, a esses portugueses ditosos. O Ministério, a Academia, os Centros de Linguística, o ILTEC, eles dormem a sono solto, mas silencioso. «Está tudo a correr com normalidade», reza o mantra dos gabinetes. «Até que enfim, sossego!», ronronam os gatos nos tapetes das Receções.

Entretanto, no mundo acordado, passam-se fenómenos insólitos. Um vírus, uma programação maligna, veio-se instalando em mentes portuguesas, comandando-lhes: «Se achares duas consoantes seguidas, corta uma». Até ao momento, os encontros com líquidas («tr», «pl» etc.) são poupados. A fonologia tem as suas resistências. Mas fora daí, o vírus é eficaz.

Já publiquei aqui listas sempre actualizadas dessas curiosas novidades. Essas listas (em que aproveitei sempre o denodado e inteligente esforço alheio) distinguem-se de outras do género por isto: são sempre confrontadas com o «Vocabulário da Mudança» do oficialíssimo ILTEC. Isto é, TODOS os vocábulos nelas contidos contrariam o AO90. E também todos figuraram pelo menos uma vez (e vários deles bastantes vezes) em textos públicos, assinados, e não raro provenientes de entidades oficiais.

Aqui vai nova lista com o estado de coisas presente. Tenha-se em conta que outras inovações haverá, que escapam à nossa atenção. Tenha-se em conta (e isto é decisivo!) que antes da entrada em vigor do AO90 fenómenos deste tipo eram residuais. Isto foi já inequivocamente demonstrado. Além disso, o carácter científico e ‘culto’ da larga maioria destas grafias mostra que elas nasceram duma busca de correcção e rigor.

*

GRAFIAS CONTRÁRIAS AO ACORDO ORTOGRÁFICO 1990,
PÚBLICAS E RECENTEMENTE DOCUMENTADAS EM PORTUGAL

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DICbresilienfrancais

Os brasileiros falam Português? Falam, claro. Mas nem sempre. Às vezes falam também… Brasileiro.

Repare-se numa frase como «Se vira!» Jamais um português a diria. Ela, simplesmente, não pertence à gramática do Português europeu. Primeiro porque, nele, nenhuma frase pode iniciar-se pelo pronome «se» (ou «me» ou «lhe»). Segundo porque ele não permite combinar uma 3a pessoa, «se», com um imperativo da 2a pessoa, «vira».

Mas não é tudo ainda. «Virar» significa, no Brasil, também «arranjar-se», «safar-se» em situação melindrosa. E, assim, «Se vira!» apela a uma sintaxe, a uma morfologia e a uma semântica desconhecidas, todas três, no Português europeu. Em contrapartida, todo e qualquer brasileiro, mesmo que não se exprimisse assim, reconhece, sem hesitação, a gramaticalidade dessa frase.

Do mesmo modo, são gramaticais no Brasil frases do tipo de «Fala não» ( = Não digas) ou «Onde ele mora?» ( = Onde mora ele?). No primeiro caso, a morfologia e a semântica não são nossas. Num caso e no outro, a sintaxe é-nos profundamente alheia.

São três exemplos muito simples. E, porque compactos, são tremendamente eloquentes.

Porque falo eu nisto? Porque estou farto, estou fartinho, estou até aqui, com os portugueses que bradam aos céus pelo ‘descalabro’ que o nosso ínclito idioma leva no Brasil. Acredite-se: o mundo estaria um bocadinho melhor sem tanta parvoíce. Parvoíce até é favor, pois o que aí fala é, muitas vezes, a sua (coitados!) superioridade rácica.

O Brasil encaminha-se, inexoravelmente, para uma língua própria. E os portugueses, se forem sensatos, e bonzinhos da cabeça, amocham e não piam.

Portugal não tem, em tudo isto, o mínimo dos direitos. Enquanto a Espanha, por 1600, tinha já fundado nas Américas várias e florescentes universidades, Portugal nunca criou uma, uma só, no Brasil. O próprio ensino secundário era contrariado. É verdade: o Marquês de Pombal impôs a língua portuguesa, proibindo a “língua geral” que os jesuítas estimulavam. Mas já era tarde. E, assim, sem a mais ténue política linguística, o idioma pôde crescer no Brasil entregue a si mesmo… o que, bem visto, não é, para uma língua, a pior das situações.

A nós cabem-nos, pois, a discrição, a distância, o respeito. E mainada.

Fernando Venâncio
15.09.2014

[Reprodução integral de “post” público, da autoria de Fernando Venâncio, publicado na “rede social” Facebook em 15.09.14.]
[Imagem original de “Larousse“.]
[Via Isabel Coutinho Monteiro.]

cartaPeroVazBN

(…)

A norma linguística brasileira, tão marcada como a conhecemos, é, paradoxalmente, uma criação portuguesa. Ao impedir a imprensa em território brasileiro até inícios do século XIX, ao não ter fundado no Brasil uma só universidade (quando a Espanha, em finais de Quinhentos, já fundara várias no continente americano), ao ter permitido ‒ e bem ‒ o desenvolvimento, durante séculos, de uma chamada ‘língua geral’ ao longo da costa do Brasil, Portugal objectivamente estimulou o desenvolvimento de uma norma linguística brasileira.

Certo: nós podemos ler sem problema de maior a imprensa e a ficção brasileiras, e eles podem ler as nossas. Uma percepção ‘culta’ e tolerante não tropeça nas diferenças. Mas, para o consumidor comum, sobretudo o brasileiro, as diferenças são decisivas. O mercado livreiro português ainda admite, em certas circunstâncias, uma edição brasileira de literatura inglesa, espanhola ou outra. Mas o mundo brasileiro da edição não comercializa nenhuma tradução (literária ou técnica) europeia. O consumidor brasileiro não está disposto a pagar um livro técnico, de divulgação, ou de ficção, com a nossa sintaxe, o nosso léxico, a nossa semântica, a nossa fraseologia. Ele sente-os como marcas estrangeiras, e, para ele, são-no efectivamente. O Acordo Ortográfico não veio, nem virá, modificar nada neste cenário. A euforia inicial dos editores portugueses com o Acordo já se esvaiu, e eles sabem-se hoje enganados, descobrindo por si mesmos aquilo que os linguistas desde há dezenas de anos lhes afiançavam: que a questão não era ortográfica mas essencialmente linguística, e que só na cabeça dos ideólogos unitaristas, existia, ou existe, uma ‘norma internacional’ do português.

Insisto: Portugal nunca desenvolveu, menos ainda impôs, uma observância gramatical ou vocabular a que o Brasil deveria submeter-se para ser aceite e respeitado. Ainda que o quisesse ‒ e sabiamente não o quis ‒ não teria tido êxito.

Esse precedente brasileiro deve ser encarado como da maior relevância para o português em África. Ele oferece todo o espaço para que os países africanos de expressão oficial portuguesa desenvolvam, e mesmo estimulem, normas próprias. Não há motivos para recear uma ‘desagregação’ da língua portuguesa, como fazem os ideólogos unitaristas portugueses, e mesmo alguns brasileiros, saudosos da bela ordem gramatical europeia, ela própria um produto histórico de doutrinários do século XVIII, que ‒ como qualquer norma linguística ‒ nada tem de sagrado, de ‘natural’, de intrinsecamente correcto, que nos proporciona decerto uma confortável segurança, mas que é menos estável do que pudera supor-se. Sim, também a norma do português europeu está, ela própria, em movimento.

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FVlinceQuem não conhecer os autores do artigo suporá dois brasileiros apanhados, sem culpa pessoal rastreável, na onda da choldra (olá, João) ortográfica. Quem souber que eles são, também, os autores do mais conhecido «Vocabulário Ortográfico» português, o do ILTEC, concluirá foram apanhados, e de que maneira, na própria rede. Vamos a pormenores.

O volume colectivo «O Português no Século XXI» (Ed. Parábola, São Paulo, 2013) inclui o artigo «Dicionários e vocabulários ortográficos na constituição da norma», assinado pelos portugueses MARGARITA CORREIA e JOSÉ PEDRO FERREIRA. São 22 páginas interessantíssimas, e informadíssimas, que recomendo vivamente a interessados.

A impressão de tratar-se de autoria brasileira funda-se na ocorrência de formas como «cotidiano», «fato», «registrar», «registro», «usuário», de particularidades como «gênese», «fenômeno», «ingênuo», «polêmica», «sincrônico», «sinônimo», ou de grafias (acordizadas para Portugal) como «adoção», «ato», «correção», «correto», «fator», «objetivo», «refletir», «seleção». Mais brasileiras ainda são sequências como «Sua faceta normativa», «Seus autores propõem-se», «se analisarmos seu conteúdo». Há, ainda, as novidades acordísticas gerais «autorregulação», «heroico», «veem», mais as novidades acordísticas brasileiras «bilíngue», «monolíngue», «multilíngue».

No conjunto, porém, o texto apresenta suficientes traços de genuíno fabrico europeu. E, para quem delas precisasse, as informações no final do volume não enganam: a prof. Margarita Correia e o dr. José Pedro Ferreira são dois compatriotas nossos.

As perplexidades aumentam quando deparamos com as seguintes curiosidades (indicam-se as páginas):

300: confecção
302: aspectos, aspetos, caráter, aspecto
304: caraterísticas, perspectivas, acepções, caráter, concepção
306: conceções, conceções
309: perspetiva, perspectiva
310: perspetiva, conceção, conceção
312: perspectivas
313: acepções, aspectos, acepções
314: carácter, acepções, acepções, caráter, aspectos
316: confeção
317: perspectiva

Um «Lince» com tosse? Sabotagem do inimigo (e qual)? Efeitos atlânticos das manchas solares? Eu acredito em tudo. Já estou por tudo. Mas não posso tomar estes senhores a sério.

Fernando Venâncio

[Transcrição integral de “post” (público), da autoria de Fernando Venâncio, publicado na página “Acordo Ortográfico Não!” (Facebook) em 17.06.13 às 17:15 h. “Links” inseridos por nós. A imagem foi copiada do “post” original.]

[calameo code=000868854339cb3eb0881 lang=pt width=100% height=500]

Texto de Fernando Venâncio publicado na revista Ler de 01.09.11.

[transcrição]

Tudo começou em 1967, em Coimbra. Sopravam no Mundo ventos de mudança, e esses eram fortes, mesmo em países sob ditadura, como o Brasil, que a tinha fresca, e Portugal, que a tinha eterna. As plácidas margens do Mondego assistiam, nesse ano, a uma não menos idílica confraternização de portugueses e brasileiros. A universidade coimbrã tomara a iniciativa de um Primeiro Simpósio sobre a Língua Portuguesa Contemporânea, que haveria de ficar também único, mas ninguém o sabia então. Reunia ele a fina flor da linguística e da cultura no nosso idioma: os brasileiros Antenor Nascentes, Mattoso Câmara, Sílvio Elia, Gladstone Chaves de Melo e os portugueses Jacinto do Prado Coelho, Vitorino Nemésio, Maria de Lourdes Belchior, Luís Lindley Cintra e Herculano de Carvalho. Só faltavam realmente Celso Cunha, ausente por motivos desconhecidos, e Manuel Rodrigues Lapa, impedido de pôr pé na universidade pelos subservientes ao regime.

Numa resolução firmada por nomes sonantes, o Simpósio propôs uma «unificação da ortografia portuguesa». Considerava-se urgente «um verdadeiro e eficaz acordo» na matéria, sacrificando «preconceitos e hábitos há muito adquiridos».

Defendia-se uma grafia «simplificada», não menos «científica» que «a dita etimológica». Isto soava a revolucionário, e era-o. Atacava-se o «problema» das consoantes não articuladas (factura, recepção) por simples eliminação delas,resolviam-se as acentuações divergentes (fenómeno,fenômeno) com a geral supressão de acentos nas esdrúxulas, e encorajava-se uma futura, suplementar «simplificação» desse sistema ortográfico já «unificado».
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publicoOpinião

O direito de ser atropelado

Maria Filomena Molder

04/05/2015 – 00:32

Ao contrário do que diz, a escrita é um repositório de enxames de significações ancoradas em redes etimológicas e um tesouro da memória. Na medida do possível, a ortografia deveria evitar o seu apagamento.

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No passado dia 14 de Abril realizou-se na Faculdade de Letras da UL um Fórum Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao “Acordo Ortográfico” de 1990, cujo cartaz suscitou reacções sensíveis por parte do “Ciberdúvidas”.

Além de apontar para um erro ortográfico, a saber, a falta de um hífen e de um ponto em 3ªfeira – o que, no meio do caos generalizado e serenamente ignorado, soa a lágrimas de crocodilo –, remeteu o leitor para a reacção do historiador Paulo Pinto publicada no blogue “Jugular”, e ainda para um artigo do mesmo autor publicado em 2013 no nº 177 da Revista Brotéria.

Fui ler. Quanto ao primeiro texto, o historiador converteu-se em director de consciência dos autores do cartaz e promotores do Fórum, acusando-os de enxovalhar a inocência do AO90. Ora, nós sabemos bem que só depois da aplicação experimental do AO90 estes erros monstruosos – “pato de regime”, “abruto”, “apocalise”, “pseudo-inteletual”, “fatos ocorridos”, “deixe o seu contato”, etc. – começaram a surgir nos documentos oficiosos e institucionais, bem como nos meios de comunicação. A lista é devastadora. Há quem a tenha actualizado: Fernando Venâncio, “O ACORDISMO EM NEGAÇÃO”, por exemplo. Só não vê quem não quer. É o caso do “Ciberdúvidas” e do historiador Paulo Pinto, que passam por tais provas incontestáveis como cães por vinha vindimada.

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publico“Apocalise abruto”

Octávio dos Santos
13/03/2015 – 05:07

O “cAOs” ortográfico está a alastrar em Portugal. Será definitivo? Ou, pelo contrário, será contido e até revertido?

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A imposição – ilegítima, ilegal, imoral, inútil, prejudicial, ridícula, totalitária – do dito “Acordo Ortográfico de 1990” como que já “normalizou”, aparente e infelizmente, aberrações como “atividade”, “ator” e “atriz”, “direto”, “espetáculo”, e outras (de)mais. Porém, bastantes “anomalias” adicionais têm vindo a ocorrer induzidas pela ideia – errada mas compreensível – de que, com o AO90, qualquer consoante de pronunciação minimamente “duvidosa” provavelmente não deve estar antes de outra.

Este perigo de proliferação, de multiplicação, de erros, de deturpações foi previsto e alertado atempada e acertadamente por muitos opositores do dito cujo, que então não receberam toda a atenção que mereciam mas que agora vêem os seus receios confirmados…

… Com exemplos como “abruto”, “acupuntura”, “adatação”, “adeto”, “adómen”, “ajunto”, “amidalite”, “aministração”, “aministrador”, “anistia”, “apocalise”, “artefato”, “autótones”, “avertência”, “batéria”, “batericida”, “carateres”, “cetro”, “compatar”, “conetar”, “conosco”, “contratura”, “convição”, “cootar”, “corréu”, “corrução”, “corrutor”, “critografia”, “dianóstico”, “disseção”, “dítico”, “dútil”, “eletroténico”, “elipsou(-se)”, “elise”, “elítico”, “enográfico”, “erução”, “esfínter”, “espetativa”, “espetável”, “espetro”, “estupefato”, “etópica”, “eucalito”, “expetoração”, “ezema”, “fição”, “fratais”, “frição”, “ginodesportivo”, “helicótero”, “histeretomia”, “ilariante”, “impato”, “indenização”, “infeciologia”, “intato”, “inteleto”, “interrução”, “interrutor”, “invita”, “iterícia”, “latente” (não o que ainda não se manifestou exteriormente), “manífico”, “mastetomia”, “mição”, “nétar”, “Netuno”, “oção”, “ocional”, “onívoros”, “ostáculo”, “ostipação”, “otanagem”, “otativo”, “otogenário”, “otógono”, “pato” (não a ave), “perfecionista”, “piroténico”, “pitórico”, “plânton”, “politénico”, “protologia”, “proveta” (não a dos bebés e dos laboratórios), “putrefato”, “refratário”, “réteis”, “reto” (não a parte da anatomia), “seticemia”, “setor”, “sução”, “sujacente”, “suntuoso”, “ténica”, “tenologia”, “tenológico”, “tetónica”, “trato” (não a forma de lidar com outros), “trítico”, “tumefação”, “tumefato”, “umidade” e “vasetomia”. Quais são as letras que faltam nas “palavras” acima referidas? Já não são só os “c’s” e os “p’s” que cortam… os “b’s”, os “g’s”, os “h’s”, os “m’s”, os “n’s” e os “t’s” também podem desaparecer!

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Francisco Miguel ValadaEscrever-se hão iniciaes maiúsculas em meio de períodos ou orações gramaticais, nos seguintes casos (…) f) Nomes dos meses
Diário do Governo n.º 213, 12 de Setembro de 1911, p. 3850

1. Em 1903, no prefácio de Portugais – phonétique et phonologie – morphologie – textes, advertia Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, acerca dos escritos que encerram a obra: “Les lecteurs seront surpris de rencontrer dans les textes des contradictions et des irrégularités orthographiques. J”ai gardé l”orthographe de chaque écrivain, à fin de mettre sous leurs yeux l”état anarchique où elle se trouve”.

Surpreendido ficaria decerto Gonçalves Viana se pudesse apreciar as actuais contradições e o actual estado anárquico da ortografia portuguesa, passados mais de cento e nove anos sobre aquelas linhas e quase cento e um anos sobre a entrada em vigor da “sua” reforma.

Mais surpreendido ficaria se lhe contassem que a causa do regresso às contradições e irregularidades fora uma reforma disfarçada de acordo. Soubera ainda Gonçalves Viana que o próprio Estado promotor desse acordo era dos primeiros a dar exemplos claros da anarquia ortográfica (ou “mixórdia acordesa”, como prudentemente lhe chamou António Emiliano, no PÚBLICO de 19/4/2012) e ficaria decerto com o semblante carregado de estupefacção.

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«É tipicamente português: mesmo aquilo que não faz sentido, aceitamo-lo com um encolher de ombros, esse sim, perigosamente mudo. Valha-nos, ao menos, a insistência da iniciativa legislativa de cidadãos contra o acordo (https://ilcao.cedilha.net/). Deviam assiná-la todos os que ainda não perderam a coragem.»
Nuno Pacheco

Agora que às criancinhas começa a ser servida nas escolas a nova e indigesta papa ortográfica (que muito trabalho há-de dar a pais e professores, sobretudo a explicar incongruências), eis que surge na revista Ler deste mês um extenso e magnífico artigo onde se dá conta da evolução da monumental farsa a que convencionou chamar-se Acordo Ortográfico ou AO90. Assinado e muito bem escrito por Fernando Venâncio, justifica por si só a compra da revista. Ao lê-lo, os que não sabiam ficarão a saber que, na fúria revolucionária dos primórdios da coisa, chegou a propor-se a abolição total da acentuação nas esdrúxulas: escrevia-se “polemico” e quem quisesse leria polémico, caso de Portugal, ou polêmico, caso do Brasil. E o “nosso” Malaca sugeriu até a supressão total dos hífens, o que daria coisas fantásticas como “bemestar” para “bem-estar” e “malingua” para má-língua.

Tudo à roda, como já perceberam, das temíveis contradições entre o que se diz e o que se escreve. Daí que os génios do AO tenham descoberto aquela que ficará como uma das afirmações mais idiotas deste jovem século: “Não se pronuncia, não se escreve.” É isso que dita, no AO, a morte das consoantes mudas. Mas serão assim tão mudas? Um exemplo curioso e brasileiro: no infinitivo impessoal dos verbos terminados em –er ou –ar, nunca o “r” é pronunciado. Comer, correr, bater, dever, diz-se naturalmente “comê”, “corrê”, “batê”, “devê”; tal como nadar, comprar, voar, andar, se diz “nadá”, “comprá”, “voá”, “andá”. Para lá da etimologia, não é difícil perceber que a vogal final é aberta por causa do “r” que fecha a palavra. Sem “r”, teríamos de ler “come”, “corre”, “bate”, “nada”, “compra”, “voa” e por aí fora. Por isso, a consoante aparentemente muda de tais palavras, afinal, “fala”. E acentua as vogais. Mas, como “não se pronuncia, não se escreve”, ainda um dia esse “r” fi nal será abatido.

Ora com as consoantes suprimidas em Portugal passa-se o mesmo. Por isso, aqui, espectáculo sem “c” só pode ler-se esp’táculo. Não há volta a dar a isto. No artigo já citado, Fernando Venâncio resume da melhor forma o problema (pág. 89): “O nosso magnífico idioma tem duas ortografias diferentes porque tem sistemas vocálicos divergentes. O fosso entre os dois vai-se, mesmo, alargando. Mil acordos ortográficos não conseguiriam uma reaproximação dos dois sistemas. Importa aceitá-lo com naturalidade e não interiorizá-lo como um drama.” Mas a isto o AO nada diz, cego na sua fúria de “unificar” que na verdade não unifica. O artigo lembra também este disparate: na entrada dos hotéis portugueses vai passar a escrever-se “receção”, por imposição do AO, enquanto no Brasil se continuará a escrever, e bem, “recepção”. Tão unificados que estamos…

Estranho é que, mesmo publicando artigo tão clarificador, a Ler passe a partir deste número a aplicar já o AO. É tipicamente português: mesmo aquilo que não faz sentido, aceitamo-lo com um encolher de ombros, esse sim, perigosamente mudo. Valha-nos, ao menos, a insistência da iniciativa legislativa de cidadãos contra o acordo (https://ilcao.cedilha.net/). Deviam assiná-la todos os que ainda não perderam a coragem.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de crónica da autoria de Nuno Pacheco publicada no jornal Público de 19.09.11. Link disponível apenas para assinantes.]

Nuno Pacheco subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.