ILC contra o Acordo Ortográfico

Ler, assinar, divulgar

Resultados da Pesquisa em maria do carmo vieira

europeia_200x200“Portugal no mundo: a língua portuguesa e os seus embaixadores”

O tema apresentado para debate implica forçosamente referir a Escola e o ensino da língua portuguesa, ensino que, obcecado pelo utilitário, pelo funcional e pelo «real», tem descurado, ao longo de anos, não só a Literatura, com destaque para a leitura da poesia e dos autores clássicos, mas também a História da Literatura, considerada «uma pura perda de tempo», bem como o ensino da Gramática, confundida com o «desastre» da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), mudanças profundamente agravadas com a imposição do AO de 90, «um monumento de incompetência e de ignorância», nas palavras do linguista António Emiliano. Compreender-se-á facilmente o porquê do desnorte na Escola, sob uma avalancha de mudanças que têm vindo a servir interesses e a desmotivar professores e alunos, contribuindo para a degradação do ensino da língua portuguesa, sendo de sublinhar, no entanto, e no que diz respeito ao AO, o parecer dado, em 1991, pela Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário no qual se lê: «Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar. O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos.»

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«Entrada livre mediante inscrição aqui.»

Fonte: Universidade Europeia

Localização (ver mapa)
Estrada da Correia, nº 53
1500-210 Lisboa

FORUM EM LETRAS – 14 de Abril de 2015

Maria do Carmo VieiraVivemos sob o signo da idiotice, etimologicamente da «ignorância». Uma ignorância cultivada sobremaneira entre pessoas adeptas do imediato, ocupando visíveis cargos de poder, e que orgulhosamente se extasiam perante o seu vazio cultural e a sua insensibilidade face à justiça social, considerando seus inimigos todos os que ousam pensar por si próprios porque põem em causa, quantas vezes, os seus interesses. Nós, os professores, somos testemunhas dessa gritante falta de sensibilidade e de cultura, porque é disso que se trata, ostensivamente hasteadas com a reforma de 2003 no ensino, nomeadamente no ensino da Língua Portuguesa. Com efeito, em nome da facilidade, de uma apregoada alegria na sala de aula, do funcional e do utilitário, estes últimos com forte apego às exigências de mercado, a Literatura foi menosprezada, com destaque substancial para a poesia; também em nome da uniformização da nomenclatura gramatical, que havia sido posta em causa pelo Generativismo, impôs-se, em 2004, a massacrante TLEBS que, estéril, aspirou, no entanto a substituir a Gramática, mantendo-se do 1º ciclo ao secundário, com o disparate das suas designações e a confusão das suas descrições; no mesmo esquema de arrogância e de ouvidos surdos ao coro de críticas e à forte polémica suscitada, decretou-se em 2008 o dito Acordo Ortográfico de 90, paciente e hipocritamente engendrado nos bastidores, cuja barbaridade de argumentos veio sublinhar, de novo, a ignorância e a falta de cultura reinantes, o que é inegável pela leitura da Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990).

Porque somos professores e não perdemos ainda, apesar de tantas imposições, de tantas ameaças e de tanta estupidez, o sentido de ensinar, o que significa que não abdicamos da responsabilidade de responder criticamente a tudo o que ponha em causa a qualidade do ensino da língua portuguesa aos nossos alunos, apenas nos resta desobedecer colectivamente. Sabemos, com efeito, que só dominando bem a língua materna, os nossos alunos poderão pensar e exercer o seu espírito crítico; não o permitindo, somos responsáveis pelas nefastas consequências daí advenientes. Em suma, dizemos aos mentores deste Absurdo Acordo Ortográfico e aos políticos que na sua ignorância o implementaram, contrariando a vontade da esmagadora maioria dos portugueses, que, em nome da dignidade que nos assiste e que por isso mesmo não tem preço, não queremos «que nos libertem do pesado encargo de pensar».

Maria do Carmo Vieira

[Texto recebido da autora, por email, em 15.04.15. “Links” adicionados.]

logotipojornaliA necessidade de reflectir

Por Maria do Carmo Vieira
publicado em 26 Mar 2015 – 08:00
 
Iniciada pelo secundário, a Reforma de 2003 foi porventura a mais chocante das reformas do Ministério da Educação (ME), pela consciência de estarmos a ser conduzidos por gente arrogantemente surda e simultaneamente incompetente. Em democracia, constatámos, de forma explícita, uma falta de respeito pelos professores, advertidos, na nota prévia que acompanhava os programas de Português, de que as suas críticas não “poderiam colidir com as metodologias apresentadas”. Em suma: uma mudança inquestionável, pautada pela “emergência do ‘professor novo’” e a “nova concepção de escola”. Esta é a que existe, continuando o ministério a não ouvir com seriedade os docentes.

No cerne da mudança, um emaranhado de teorias da educação que avaliavam pela negativa os professores que, não “promovendo a mudança”, consideravam utopia os “mecanismos de diferenciação”, na mesma sala de aula, em relação “a gostos e preferências, ritmos de aprendizagem ou capacidades cognitivas dos alunos”, ou persistiam na preparação individual das suas aulas. Menosprezado foi também o conteúdo programático, e daí o seu esvaziamento de autores clássicos, no caso do Português, relegando-se para segundo plano a competência de um professor e o seu papel de transmissor de saber, na defesa de um “ensino centrado nos alunos” e na facilidade como estímulo para a aprendizagem. Absurdos que, contestados, continuam em vigor, nomeadamente na formação de professores e na sua avaliação, na estratégia de recuperação rápida ou na vontade de acabar com a retenção. Deverão salientar-se, contudo, como factor positivo, os novos programas de Português do secundário, nos quais foram reintegrados os clássicos.

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Mesa-redonda “Portugal no mundo: a língua portuguesa e os seus embaixadores”

Universidade Europeia | Laureate International Universities

Quarta-feira, 13 de Maio de 2015 das 19:00 às 21:00 (WEST)
Lisboa, Portugal

Detalhes do evento

No seguimento das duas edições anteriores, nas quais muito nos honrou a presença da escritora Lídia Jorge, dos Professores Doutores José Jorge Barreiros, Susana Araújo, Onésimo Teotónio Almeida, Petar Petrov, do Mestre Rui Pereira e da eurodeputada Dra. Ana Gomes, pretende-se promover uma reflexão interdisciplinar sobre o legado de Portugal na Europa e no mundo e os novos desafios que o país enfrenta face à complexa conjuntura actual.

Para a edição deste ano, propõe-se que o debate se norteie em torno das questões: “Portugal: qual a importância da língua portuguesa no mundo?” e “Portugal: que papel desempenha uma língua na projecção de um país?”.

Presenças confirmadas:

Professora Doutora Ana Paula Laborinho, Presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I. P.
Professora Doutora Isabel Casanova, Universidade Católica Portuguesa
Mestre Maria do Carmo Vieira, Fundação Francisco Manuel dos Santos

Moderador: Professor Doutor Marcelo G. Oliveira

Presença a confirmar:
Professor Doutor Luís Antero Reto, Reitor do ISCTE-IUL

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Excerto do programa “Política Mesmo” (TVI) emitido em 10 de Setembro 2014. Tema em discussão: início do ano “letivo”.

Intervenção de Maria do Carmo Vieira sobre a política em geral e os políticos que engendraram o “acordo ortográfico” em particular.

[Extracto de gravação de entrevista a Maria do Carmo Vieira emitida em 09.05.14 no programa “Livre Pensamento” da RTP2.]

pessoarrIniciamos a apreciação dos novos programas de Português do ensino secundário, lamentando que os seus autores, ligados ao ensino da Língua e da Literatura Portuguesa, não se sintam incomodados com o facto de se impor a professores e alunos o AO cuja Nota Explicativa (NE) deveria ser motivo de vergonha para qualquer um. Surpreendeu-nos também que demonstrando o seu apreço pela Literatura e pela análise literária, se tenham esquecido de que estudar a poesia de Ricardo Reis com os seus versos profanados pelo AO é uma aberração. As facultatividades, por exemplo, permitem a substituição do Pretérito Perfeito do Indicativo pelo Presente, e as estações do ano decretadas substantivos comuns perdem toda a sua carga simbólica. Isto para não falar também do que acontece com inúmeras famílias de palavras em que a ortografia varia conforme a «pronúncia». Como é possível, pois, sublinhar no Programa a necessidade de desenvolver o espírito crítico dos alunos e no que à língua diz respeito forçá-lo ao silêncio com o verbo decretar?

Se dermos, por exemplo, a ler a um aluno o pequeno extracto do texto da Introdução (pág. 7) que passo a transcrever: «O Programa privilegia o contacto direto com os textos e a construção de leituras fundamentadas […}», e o aluno questionar o professor sobre o porquê da ausência da consoante surda em «direto», que muito naturalmente lerá fechando a vogal, este só poderá responder-lhe com o incorrecto argumento da «pronúncia», sendo obrigado a fazer tábua rasa da vertente cultural (etimológica) da ortografia. Na verdade, só os professores de Português incompetentes e não habituados a pensar sobre a língua poderão aceitar tal critério.

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selosCTTSobre o acordo ortográfico

Entranhou-se em nós este gosto mórbido de reverenciar a ignorância e assistir ao absurdo, amplamente apregoados por fervorosos militantes que defendem o indefensável e optam também por silenciar críticas, consideradas perigosas, porque capazes de despertar incautos ou resignados. Outros há que, usando um discurso oco e de características labirínticas, tendem a confundir os mais ingénuos e pouco habituados a reflectir. Passa-se isto não só no campo político, mas também cultural. O Acordo Ortográfico é um entre muitos exemplos. Vejamos apenas alguns aspectos:

1. Lendo os discursos do ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, e do presidente de Portugal, Cavaco Silva, proferidos no Rio de Janeiro, a 7 de Março de 2008, neles encontramos subjacente a ideia da «projecção internacional da língua portuguesa» na base do Acordo Ortográfico, fortemente justificado pelo número de falantes brasileiros, num colonialismo linguístico inaceitável para Portugal e para os países africanos de expressão portuguesa. Num faz-de-conta de cultura, refere-se o nome de Fernando Pessoa e a sua frase escrita por Bernardo Soares, «Minha pátria é a língua portuguesa», ignorando que a mesma, no contexto em que se integra, se associa a uma outra frase que defende vigorosamente a vertente etimológica da língua, posta tão em causa pelo referido AO – «Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha». Num outro passo do discurso, Lula da Silva retoma a literatura portuguesa e foca o conceito de «Quinto Império» de Vieira, de novo evidenciando desconhecer o seu significado, mas sentindo sem dúvida o agradável cheiro a poder que depois mascara com pozinhos de «solidariedade entre povos e de justiça universal».

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A qualidade do Ensino, e no caso específico da Língua Portuguesa, depende em muito da competência dos professores, o que significa estudo contínuo, espírito crítico, gosto pela matéria leccionada, conhecimentos de Pedagogia, em suma, que um professor seja um advogado à altura, lembrando palavras de Séneca.

Esta breve introdução serve para evidenciar que vivemos num mundo às avessas no que aos aspectos descritos diz respeito. Com efeito, são os professores obrigados a esquecer o que lhes foi ensinado e o que estudaram, sendo igualmente convidados a silenciar o seu espírito crítico, a sua experiência de anos de trabalho e os resultados obtidos pelos seus alunos, em nome de uma mudança transformada em dogma.

Os professores, seja qual for o seu nível de ensino, muitas vezes sob a ameaça de processo disciplinar, são forçados a obedecer:
1. A programas esvaziados de conteúdos, na sua maioria, de uma mediocridade confrangedora, devido a uma elaboração pouco cuidada e à ausência de um fio condutor que lhes dê sentido, e todos eles, sem excepção, centrados na estafada designação do «funcional», do «utilitário» e «do mundo real», numa tentativa de responder aos (pseudo) interesses dos alunos;
2. A uma Terminologia Linguística que constitui um «disparate»1, uma aventura que pretendeu substituir a Gramática tradicional, aquela cujas normas, na verdade, seria imperioso interiorizar e dominar. Ao contrário da Gramática que ensina a lógica da língua e a explica com clareza, e permite uma reflexão tranquila sobre a língua, a TLEBS, a tal terminologia linguística que avassalou o Ensino, do Básico ao Secundário, disseca-a impiedosamente, numa exaustiva e doentia obsessão descritiva em que abundam «palavrões»2 para extasiar os que não sabem Gramática, substituindo a clareza pela confusão e pelo caos. A TLEBS, diz-se, surgiu para «levar os alunos a reflectir sobre a língua», quando mais não faz que massacrar professores e alunos e anular o estudo basilar da Gramática;
3. Ao Acordo Ortográfico, ponto a que dedicarei obviamente mais espaço, e cuja Nota Explicativa espelha para qualquer um a brincadeira de mau gosto que constituiu a sua feitura. Com efeito, lendo-a, o que a maioria das pessoas não fez, nem tão pouco os deputados (na sua maioria) da Assembleia da República que, desconhecendo a matéria em causa não o souberam discutir (veja-se o conteúdo das actas), nem tiveram a preocupação de ouvir estudiosos creditados pelo seu trabalho.

De uma forma leviana impôs-se este AO aos portugueses, na mais completa falta de respeito pela sua reacção, nomeadamente através de uma petição com milhares de assinaturas, e pela argumentação, até agora não contrariada, de autores de reconhecida competência linguística que em livros e em artigos sobre ele se pronunciaram. Como professora de Português devo igualmente registar o parecer da própria Direcção-Geral dos Ensinos Básico e Secundário que, a par de tantos outros, foi silenciada e esquecida numa qualquer gaveta: «Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar. O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos.»

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