ILC contra o Acordo Ortográfico

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Resultados da Pesquisa em mentiroso

LCANAUExpresso300310

1.«O catedrático que se jubilou em 2006 historia as divergências ortográficas entre Portugal e o Brasil desde o final do século XIX, quando, inspiradas em José de Alencar, algumas correntes de intelectuais defenderam, sem sucesso, a criação de uma língua brasileira: os acordos de 1911 (“foi feito à revelia do Brasil“), 1931 (“a primeira grande tentativa de uniformização”), 1943, 1945 (“quando se tentou convencer os brasileiros a reintroduzir as consoantes mudas, que tinham sido abolidas por necessidades de alfabetização”), 1975, 1986 (“quando se pretendeu uma reunificação completa da ortografia”).»

Malaca Casteleiro, académico português
[citação de http://www.dn.pt/gente/interior.aspx?content_id=1465295]

2. «Curiosamente, a despeito das inúmeras críticas que a reforma portuguesa recebera no Brasil, sua aceitação acabou sendo até maior do que aquela anteriormente realizada pelos acadêmicos brasileiros, pelo menos nos primeiros anos subseqüentes à mesma: em 1915, por exemplo, a própria Academia Brasileira de Letras acabaria aceitando um parecer de Silva Ramos (julho) que tornava oficial o sistema ortográfico lusitano, eliminando todas as divergências ortográficas entre Brasil e Portugal (novembro), apesar de que quatro anos depois (1919), a mesma academia voltaria atrás, renegando a proposta de Silva Ramos e abolindo a resolução de 1915.
O amor-próprio e o sentimento nacional brasileiros parecem ter, no final das contas, prevalecido.
»

Maurício Silva, ‘acadêmico’ brasileiro
[citação de http://www.filologia.org.br/revista/artigo/5(15)58-67.html]

Pesquisar neste “site” outros conteúdos com o termo “mentiroso”:  https://ilcao.cedilha.net/?s=mentiroso

[Imagem de Luís Canau.]

Evanildo Bechara é imortal. Desde 2000, ocupa a cadeira de número 33 da Academia Brasileira de Letras. Mas, aos 84 anos, mantém – com o vigor do menino que, aos 11, órfão de pai, saiu de Recife rumo ao Rio de Janeiro para completar seus estudos na casa de um tio-avô – dois hábitos inabaláveis: andar de ônibus e almoçar diariamente no Toledo, restaurante por quilo vizinho de frente à Casa de Machado de Assis, no centro do Rio de Janeiro, só para ouvir histórias da vida real.

Guilherme Gonçalves/ABL/Divulgação

‘A língua não se concentra na norma padrão nem na coloquial. Ela permite as variações‘, diz Bechara.~

Hoje autoridade máxima no Brasil quando o assunto é o novo acordo ortográfico, ele – que é autor da Moderna Gramática Brasileira – se prepara para celebrar o fim do trema: “Tiramos um peso dos ombros de quem escreve. Longe de ser um prejuízo, é um lucro”.

A partir de 1º de janeiro de 2013, além do trema, também se vão o acento agudo de “ideia” e o circunflexo de “voo” e “enjoo”. O alfabeto passará a ter 26 letras, ao incorporar “k”, “w” e “y”.

A data marca a entrada definitiva no Brasil da nova ortografia da Língua Portuguesa – cujas normas foram organizadas pela ABL na quinta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

As regras não são novas. Estão em vigor desde janeiro de 2009 [Mentira: isso foi só no Brasil], quando o Brasil e os demais membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa – Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste – concordaram [Mentira: isso foi só a assinatura do AO em 1990] em uniformizar a grafia das palavras [Mentira: não há “uniformização” alguma].

Os brasileiros tiveram quatro anos para se adequar. Durante esse período, tanto a grafia anterior como a nova foram aceitas oficialmente. Mas, a partir de ano que vem, concursos e provas escolares passam a cobrar o uso correto da nova ortografia. Documentos e publicações também deverão circular adaptados às novas regras.

O Brasil, diz Bechara, está preparado para receber as novas regras em definitivo. “Para o grande público, a ortografia está ligada à memória visual. Escrevemos as palavras como as vemos escritas. Hoje, vamos ao aeroporto e já vemos a palavra voo sem aquele acento circunflexo que se usava.”

Ainda há, no entanto, muitos desencontros. Às vésperas de o acordo entrar em vigor, a senadora Ana Amélia propôs que o Brasil avance mais devagar na sua implantação. Ela é autora de um projeto que estende por mais seis anos, até o fim de 2019, o período de adaptação das novas regras. Como a proposta ainda está parada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Casa e não há tempo hábil para a tramitação, a senadora pediu audiência com Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Casa Civil, para tratar do assunto. O pedido ainda está sem resposta.

Em Portugal, que tem até dezembro de 2014 [Mentira: o prazo é 31.12.2015, cf. n.º 2 da RAR 35/2008] para concluir o processo de implantação da nova grafia, a resistência ao acordo é ainda maior. A polêmica se intensificou depois que o poeta Vasco Graça Moura, ao assumir o cargo de diretor do Centro Cultural de Belém – uma das mais importantes instituições culturais do país -, determinou que fosse suspensa a aplicação das novas regras nos serviços sob sua tutela. Circula também na internet uma petição [Mentira: não é uma “petição”, é uma ILC (e não circula apenas na Internet)] para que o parlamento português vote o fim do acordo. “É claro que sabemos que toda mudança de hábito traz certa ojeriza a quem é obrigado a mudar, mas vale a pena o sacrifício. Uma língua que tem uma só ortografia [Mentira: não existe “uma só ortografia do Português, com ou sem AO90″] circula no mundo com mais facilidade”, garante Bechara.

A seguir, os melhores momentos da conversa.

A partir de 1º de janeiro passam a vigorar, definitivamente, as novas regras do acordo ortográfico. O Brasil está pronto para ele?
Ortografia é só a vestimenta das palavras. Quando se faz um acordo ortográfico, não se mexe na língua, se mexe apenas na roupagem das palavras. Desde 1911, Brasil e Portugal tentam aproximar seus sistemas de grafar palavras [Mentira: as tentativas foram apenas do lado português]. Tivemos quatro anos para nos adaptar e eles foram suficientes. Principalmente, graças à imprensa, que abraçou o novo sistema.

O acordo se efetivou?
Sim, porque a ortografia, para o grande público, está ligada à memória visual [Mentira: não é só a isso que a ortografia “está ligada”]. Escrevemos as palavras como as vemos escritas. [Mentira: não copiamos o erro] Como a imprensa e os livros começaram a usar o sistema desde o primeiro ano, as novas grafias das palavras começaram a aparecer. Hoje, vamos ao aeroporto e já vemos a palavra “voo” sem aquele acento circunflexo que se usava. As pessoas vão vendo as palavras sem acento e, na hora de grafar, escrevem sem acento. [Mentira: isso serão apenas ALGUMAS pessoas.] Isso permitiu que o acordo fosse, aos poucos, sendo dominado pelo público em geral. [Mentira: “público em geral” não é medida de nada.].

O que muda, essencialmente, a partir do ano que vem?
Mudam poucas coisas e, nessas mudanças, o Brasil teve de ceder muito mais do que Portugal [Mentira: 1,6% é mais do triplo de 0,5%. Dos seus hábitos de escrita, os portugueses só foram obrigados a abandonar a consoante não articulada, aquela que se escreve, mas não se pronuncia. No novo sistema, o que não se pronuncia não se escreve. [Mentira: “oje, isteria, omem” etc.]

Mas muitos dizem que as palavras mudaram mais em Portugal.
Quando pegamos em números, as mudanças para os brasileiros, de fato, são quase insignificantes: a norma escrita teve 0,43% de suas palavras mudadas. Em Portugal, 1,42%. Por quê? Porque Portugal usa e abusa [Mentira (e arrogância de Bechara): Portugal é um país soberano.] das consoantes que se escrevem, mas não se pronunciam.

E nós vamos conseguir viver sem o trema?
Começamos a aprender a língua pelo ouvido, quando crianças. Depois, aprendemos pelos olhos, porque lemos as palavras. O sistema fonético é anterior ao sistema gráfica [sic]. Ao abolir o trema, tiramos um peso dos ombros de quem escreve. A falta do trema, longe de ser um prejuízo, é um lucro. Deixamos de escrever o trema, mas podemos pronunciar as palavras da maneira como estamos acostumados a ouvi-las.

Quais são os benefícios do novo acordo para o Brasil?
O benefício do novo acordo não é só para o Brasil. Quando o sistema ortográfico começou a ser estudado, a preocupação era apenas facilitar a escrita [Mentira], portanto o movimento de simplificação ortográfica [Mentira: não houve “movimento” algum] ajudava a pedagogia da língua [Mentira]. Há também um fator de maturidade [Mentira]. Uma língua não pode ter duas ortografias oficiais [Mentira: ver os casos do Inglês, do Francês e do Castelhano] – como acontece hoje, em que temos a do Brasil e a de Portugal. [Verdade, para variar: continuamos a ter duas ortografias, de facto, apesar do AO90.]

O fator comercial também foi levado em consideração?
Claro. O valor econômico e político da língua foi um dado importante para a unificação ortográfica. [Mentira: isso foi só para a feitura do AO90, não houve nem haverá “unificação” alguma.] Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira [Mentira: de novo a mesma patranha, ver acima]. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma [Mentira, mentira, mentira (idem)].

Mesmo com as diferenças sendo tão pequenas?
Mesmo que pequenas [Mentira], as diferenças entre o português escrito no Brasil e o de Portugal fazem com que um livro publicado no Brasil seja reeditado nos outros países de língua portuguesa para poder ser comercializado [Mentira]. Isso aumenta o custo da produção [Mentira]. Uma ortografia unificada só serve para dar lucro.

Vale a pena.
É claro que sabemos que toda mudança de hábito traz certa ojeriza a quem é obrigado a mudar, mas vale a pena o sacrifício [Mentira]. Uma língua que tem uma só ortografia circula no mundo com mais facilidade [Mentira]. Repercute não só no comércio da língua, mas também em sua qualidade cultural [Mentira].

Mesmo assim, o acordo não é unanimidade. No Senado, por exemplo, há um movimento que propõe que o Brasil avance mais devagar na implantação das novas regras.
Esse movimento do Senado gorou [Mentira]. Na visão da Academia, esse assunto está encerrado desde que o acordo foi assinado [Mentira]. Se o movimento que quer brecar a entrada definitiva do acordo avançar, o que acredito não ser possível pela falta de tempo [Mentira], o sistema começará a ser desacreditado. Qualquer mudança só seria aconselhável depois que ele entrasse em vigor.

Portugal tem até o final de 2014 [Mentira: 31.12.2015, ver acima.] para se adaptar às novas regras, mas lá o acordo ainda enfrenta muita resistência.
Um dos grandes inimigos do acordo é o poeta Vasco Graça Moura, mas a discordância só está nos jornais. [Mentira: todas as sondagens dizem o contrário.] Há uma grande corrente da imprensa que já usa o acordo [Mentira], mas existe uma minoria que prefere não usar [Mentira]. É só isso [Mentira].

Paralelamente à simplificação da ortografia, há um movimento em defesa do uso coloquial da língua em detrimento da norma culta. Na última prova do Enem, algumas questões trouxeram, em seus enunciados, o uso oral, mas foi exigida a norma padrão na redação. O que o senhor acha disso?
A língua se apresenta muito variada para atender os compromissos do homem erudito, da pessoa escolarizada e também do analfabeto. Todos se servem da língua para a comunicação. A língua não se concentra nem na norma padrão, nem na norma coloquial. Ela permite as variações. A língua padrão não é contra a coloquial e vice-versa. Já em uma prova do Enem, na qual se busca saber a competência de um jovem que passou tantos anos na escola, a preocupação não deve ser a língua coloquial, mas, sim, a padrão.

Ver também um “post” anterior em que o mesmo Bechara demonstra de forma igualmente espectacular a sua patologia (os mentirosos compulsivos sofrem de uma patologia clínica comprovada), com o título ”O ACORDO ORTOGRÁFICO É MAIS DIFÍCIL PARA OS BRASILEIROS DO QUE PARA OS PORTUGUESES”.

[Transcrição integral (anotada) de entrevista publicada no jornal brasileiro “Estadão” em 12.11.12. “Links”, destaques, sublinhados e anotações de nossa autoria.]

[“Disclaimer”: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

[Imagem (recorte) do “blog” Fut Notas.]

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa em 1990, aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 26/91 e ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 43/91, ambos de 23 de Agosto, simplifica e sistematiza vários aspectos da ortografia e elimina algumas excepções ortográficas, garantindo uma maior harmonização ortográfica.

O Acordo Ortográfico visa dois objectivos: reforçar o papel da língua portuguesa como língua de comunicação internacional e garantir uma maior harmonização ortográfica entre os oito países que fazem parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

[Extractos da “Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011“, de 25 de Janeiro.]

1. «maior harmonização ortográfica»
Não há grande “harmonização” quando existem pelo menos 69.000 duplas grafias no VOP.

2. «elimina algumas excepções ortográficas»
Mas cria muitas outras duplas grafias que até agora não existiam. Apenas alguns exemplos:

3. «reforçar a língua portuguesa como língua de comunicação internacional»
Em que versão de “língua unificada”, a portuguesa ou a brasileira? ‎

Nota 1: os números de totais resultantes de cada pesquisa podem variar ligeiramente, dependendo de uma série de factores técnicos.
Nota 2: a base-de-dados VOP/ILTEC/PLP está em processo de fabrico, por assim dizer; ou seja, os resultados das pesquisas aumentarão certamente com o tempo, tanto em número absoluto de resultados como em número de erros absolutos.

europeia_200x200“Portugal no mundo: a língua portuguesa e os seus embaixadores”

O tema apresentado para debate implica forçosamente referir a Escola e o ensino da língua portuguesa, ensino que, obcecado pelo utilitário, pelo funcional e pelo «real», tem descurado, ao longo de anos, não só a Literatura, com destaque para a leitura da poesia e dos autores clássicos, mas também a História da Literatura, considerada «uma pura perda de tempo», bem como o ensino da Gramática, confundida com o «desastre» da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), mudanças profundamente agravadas com a imposição do AO de 90, «um monumento de incompetência e de ignorância», nas palavras do linguista António Emiliano. Compreender-se-á facilmente o porquê do desnorte na Escola, sob uma avalancha de mudanças que têm vindo a servir interesses e a desmotivar professores e alunos, contribuindo para a degradação do ensino da língua portuguesa, sendo de sublinhar, no entanto, e no que diz respeito ao AO, o parecer dado, em 1991, pela Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário no qual se lê: «Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar. O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos.»

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A Lusofonia

Miguel Tamen
17/4/2015, 1:16

Existe mesmo uma relação especial entre as pessoas que falam português, só porque falam português?

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A palavra ‘lusofonia’ é um substantivo abstracto que pretende designar a qualidade de falar português. É possível que haja uma qualidade de falar português, no sentido trivial do termo; mas é tão trivial como a qualidade de falar finlandês ou swahili. Ora a palavra ‘lusofonia’ é usada na acepção de que falar português não é trivial; está ligada à ideia de que as pessoas que falam português são especiais.

Em que sentido e em relação a quem serão os falantes de português especiais? A maioria das pessoas que usa o termo ‘lusofonia’ possivelmente não achará que os falantes do português pertençam a uma espécie biológica diferente da dos falantes de swahili ou finlandês; e têm razão. Mas acham que são especiais, e sobretudo que entre todos os falantes do português existe uma relação especial, que se deve ao facto de todos falarem português.

Esta teoria não se percebe bem. É parecida com a teoria de que todos os ruivos ou todos os coxos estão unidos por uma relação especial; e que os ruivos devem lealdade aos ruivos, e os coxos aos coxos. A analogia não é injustificada: tal como ser-se ruivo, ou ser-se coxo, falar português é uma condição infrequente que não tem a ver com os méritos de quem a satisfaz. Fala-se português por casualidade. Ora o que pode ser uma relação especial entre pessoas que devem ao acaso estar nessa relação?

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Imagem criada por Paula Blank

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”
Joseph Goebbels (29.10.1897 – 01.05.1945), Ministro da Propaganda de Adolf Hitler

Nota prévia
Atendendo a que nem toda a gente tem acesso aos conteúdos do Facebook, plataforma onde esta entrevista foi transcrita em primeira mão, e atendendo principalmente ao enorme interesse público da dita entrevista, abre-se no “site” da ILC uma excepção (sem exemplo), reproduzindo aqui também este verdadeiro manifesto: da aldrabice manifesta, da manifesta desfaçatez de um manifesto (pelos vistos) mentiroso.

Evanildo Bechara, 84 anos, académico, gramático e filólogo brasileiro, é visto como o arquitecto do Acordo Ortográfico (AO) no Brasil e é hoje a autoridade máxima para dirimir qualquer problema ou conflito gerado pelo AO. De passagem por Portugal, comenta a polémicas suscitadas pela aplicação do Acordo, admite discordar do elevado número de excepções contempladas, considera o uso do hífen um dos maiores problemas em qualquer língua e garante que a aplicação do AO será mais difícil para os brasileiros do que para os portugueses.

Os portugueses andam desde 1911 a abandonaras grafias etimológicas, mas não estará este Acordo Ortográfico a ir longe de mais na opção por uma ortografia mais fonética?
Essa foi uma simplificação no possível. O português beneficiou da visão de Gonçalves Viana, que em 1885 publicou com Vasconcelos Abreu, um pequeno folheto de simplificação. Naquele tempo não se pensava em unificação com o Brasil. Já naquela altura eles trabalhavam na unificação da língua portuguesa à maneira dos italianos, que foram bem mais avante. O italiano aboliu o “h” inicial, enquanto o espanhol manteve. O espanhol escreve “hombre”, com “h”;no italiano, “uomo” perdeu o “h”.

Essa é uma das excepções que geram confusão. Por um lado diz- se que se abandonam as consoantes mudas, mas depois temos o “h” mudíssimo no início de algumas palavras. Porquê?
Por causa de uma tradição. O português acompanhou o espanhol no sentido de não abolir o “h” etimológico, embora o português ainda ponha “h” em palavras cuja etimologia rejeitaria o “h”, como é o caso de”húmido”. No Brasil escrevemos sem “h”, porque ficámos fiéis à etimologia, mas no caso de “homem”e outras palavras com “h” nós persistimos.

Os portugueses são muito sensíveis à função diacrítica da consoante dita muda, que identifica o timbre aberto da vogal precedente. A sua ausência não deixa a palavra despida?
Já o primeiro gramático da língua portuguesa, Fernão de Oliveira, dizia, em 1536, que só se devia escrever a letra que se pronunciasse. Essa função diacrítica é válida, mas para um número pequeno de palavras em relação ao universo da língua. O próprio texto do Acordo, quando fala do acento diferencial, diz que em alguns casos você está liberado para o usar. No poema de Manuel Bandeira, que diz que o poema é forma (“fórma”) e não forma (“fôrma”), aí você pode usar o acento gráfico. Num caso como este, excepcionalmente, seria possível para a pessoa colocar o acento.

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O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Rui Gomes da Silva.

O Sr. Rui Gomes da Silva (PSD): — Sr. Presidente, Sr. Ministro da Cultura, Sr.ª Secretária de Estado da Cultura: Em 25 de Julho de 2004, em S. Tomé e Príncipe, Portugal e os países de expressão portuguesa assinaram o Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que, por sua vez, havia sido assinado, em Lisboa, no dia 16 de Dezembro de 1990.

Com este diploma que o Governo nos traz, reabre-se o debate que a sociedade portuguesa tem vindo a manter, em torno do Acordo Ortográfico, pelo menos desde 1990.

A uniformização da escrita tem, no caso da língua portuguesa, uma dimensão histórica.

A primeira reforma ortográfica data de 1911, mas só em 1931 foi aprovado o Primeiro Acordo Ortográfico entre Portugal e Brasil, por iniciativa da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa.

Ainda assim, não foi então alcançada a unificação ortográfica pretendida, pelo que se lhe sucederam a Convenção de 1943 e a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945.

Podemos dizer que, desde então, vigora, no Brasil, o Formulário Ortográfico de 1943 e, nos restantes países de expressão oficial portuguesa, o Acordo Ortográfico de 1945.

A continuação da língua portuguesa deve ser o nosso desafio e essa deve ser a medida das posições de todos os que se preocupam com o futuro da língua portuguesa, recusando seguir posições e posicionamentos que Camões tão bem retratou e deu a conhecer como de «Velhos do Restelo».

Com uma ligação, aliás, assinalável do PSD a este mesmo Acordo Ortográfico, mantemos o que dissemos em 1991 e em 1999.

Em 1990, foi o então Secretário de Estado, Pedro Santana Lopes, quem representou Portugal nas negociações e na assinatura do texto inicial, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, tendo o Segundo Protocolo Modificativo vindo a ser assinado posteriormente, quando Pedro Santana Lopes, hoje líder parlamentar do PSD, exercia as funções de Primeiro-Ministro de Portugal.

O PSD reconhece a importância de um acordo ortográfico enquanto instrumento de manutenção da solidariedade do domínio do Português falado, contributo para o desenvolvimento controlado das inevitáveis derivas diversificadas da língua portuguesa, meio de valorização da nossa língua, salvaguarda de um património comum, forma de fortalecer e consolidar as relações culturais que unem os países que nela oficialmente se exprimem, meio de estabelecimento de uma forma única de escrever o Português.

Num ponto todos estamos de acordo: a defesa e a valorização da língua portuguesa são valores cimeiros e devem merecer de todos nós especial atenção e cuidado.

O Acordo Ortográfico, que se refere fundamentalmente à preservação e à uniformidade da língua escrita, é também um instrumento estratégico e fundamental para a preservação desses valores cimeiros.

O que está aqui hoje em discussão — no fundo, o conteúdo deste Segundo Protocolo Modificativo — é a entrada em vigor desse mesmo Acordo Ortográfico, a sua abertura à República Democrática de Timor Leste e o prazo limite de seis anos para adaptação dos manuais. Isto, depois de um Primeiro Protocolo Modificativo que alterara o texto inicial, quando este previa, como prazo para ratificação por todas as partes signatárias, a entrada em vigor do próprio Acordo Ortográfico no ano de 1994.

Este será um passo determinante para a incontornável assunção do Português como língua plurinacional e multicultural e com estatuto reconhecido no contexto internacional.

Estamos, contudo, não a discutir o texto do Acordo mas modificações e adaptações ao Acordo Ortográfico que foi aprovado aqui, na Assembleia da República, em 4 de Junho de 1991, onde eu próprio tive a honra e a oportunidade de intervir, em nome e em representação do Partido Social Democrata, votação essa que, na altura, apenas teve a abstenção do PCP e votos contra de 16 Deputados do Partido Socialista e de 3 Deputados independentes.

No dia 18 de Novembro de 1999, a Assembleia da República votou por unanimidade aquele que foi o Primeiro Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico. Portanto, estamos num bom momento para aprovar, também por unanimidade — e é esse o desafio que aqui vos deixamos! —, este Segundo Protocolo Modificativo.

Desde há mais de meio século que se impõe a necessidade de promover a uniformização do léxico, principalmente técnico e científico, num dicionário comum. Essa uniformidade é muito importante em vários domínios: no domínio técnico e científico, no da intervenção de Portugal nos organismos internacionais, ao nível da sociedade da informação, da inovação e da tecnologia.

Cada vez mais nos deparamos com estrangeirismos escritos, de tal forma que praticamente já fazem parte do léxico, o que seria inimaginável, sobretudo face à regra.

Mas a uniformização do léxico também é fundamental, nomeadamente no que tem a ver com a edição de livros e com um sector económico fundamental que é o sector livreiro.

Conhecemos a posição de diversos editores e livreiros portugueses sobre a questão, mas também sabemos — e disso nos congratulamos — da existência de dicionários em conformidade com o próprio Acordo.

Creio é que não é possível manter por muito mais tempo um discurso antagónico de afirmação e expansão da língua portuguesa no mundo, ignorando, ao mesmo tempo, o que os outros países falantes da língua pensam sobre a matéria.

Portugal, Sr. Presidente, Sr. Ministro da Cultura, Sr.ª Secretária de Estado da Cultura, Srs. Deputados, não deve aliar-se [sic] da sua história, não deve temer pelo seu papel no mundo. Deve, antes, apoiar o desenvolvimento e a herança cultural dos que reclamam a sua pertença ao espaço da lusofonia,…

O Sr. Pedro Santana Lopes (PSD): — Muito bem!

O Sr. Rui Gomes da Silva (PSD): — … esse espaço com cerca de 200 milhões de falantes.

Uma palavra de elogio é aqui devida ao Professor Malaca Casteleiro,…

O Sr. Pedro Santana Lopes (PSD): — Muito bem!

O Sr. Rui Gomes da Silva (PSD): — … de reconhecimento pelo muito que fez para que o Acordo Ortográfico fosse possível e, depois, aprovado pelo governo de Aníbal Cavaco Silva e ratificado pelo então Presidente Mário Soares.

A história, Srs. Deputados, provou-nos em demasiados momentos que Portugal não é, de todo, um Estado com vocação para isolacionismos. Sempre que o fizemos perdemos o rumo de um povo vocacionado para «dar novos mundo ao mundo».

Saibamos ser os legítimos herdeiros de quem não temia o novo, de quem ousava descobrir novos rumos de progresso.

Por isso, o nosso voto favorável à proposta de resolução aqui trazida pelo Governo, que visa aprovar o Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico, assinado em Lisboa, em 16 de Dezembro de 1990.

Aplausos do PSD.

[Extracto do “Diário das Sessões” da Assembleia da República de 17 de Maio de 2008, apreciação (e aprovação) do 2º Protocolo Modificativo do AO90, que deu origem à aprovação da R.A.R. 35/2008.]

[A transcrição acima confere rigorosamente com o original disponível na Internet, à excepção dos destaques a “bold”, dos sublinhados e das notas aos links, que são de nossa autoria.
Imagem de Wikipedia.]

QUE GENTE É ESTA, em 1945, com o mundo em guerra a contar os cadáveres da barbárie nazi e das bombas atómicas de Hiroxima e Nagasaki, que se entretém, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, a cortar umas consoantes aqui, e uns acentos ali?

QUE GENTE É ESTA, em 1986, com o mundo em profunda mudança, Portugal e a Espanha a aderir à CEE, Duvalier a ser corrido do Haiti, Marcos a ser expulso das Filipinas, os mortos a gritar em Bhopal e em Chernobyl, que continua a entreter-se com as consoantes “mudas” portuguesas, incómodas para o Brasil? E cujo entretenimento foi rejeitado pela reacção da opinião pública portuguesa?

QUE GENTE É ESTA, em 1990, com Noriega a render-se na Nicarágua, os comunistas jugoslavos a ficarem sem o seu poder de 45 anos, a União Soviética a desmembrar-se a passo acelerado, Nelson Mandela a ser libertado na África do Sul, Saddam Hussein a invadir o Kuwait, as Alemanhas a reunificarem-se e Lech Walesa a ser eleito presidente da Polónia, que prepara afadigadamente as bases de um acordo “multilateral” para eliminar as “teimosas” consoantes “mudas” portuguesas, histórico empecilho à afirmação internacional da ortografia brasileira, agora incomodada pela entrada do português euro-afro-asiático-oceânico pela porta grande da Comunidade Europeia e logo com estatuto de língua oficial?

QUE GENTE É ESTA, em 1990, a 12 de Outubro, na Academia das Ciências de Lisboa, que insiste em ser assinado um acordo ortográfico da língua portuguesa (AO) que, do lado português, congregou apenas ferozes críticas por todas as instituições e especialistas científicos?
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