ILC contra o Acordo Ortográfico

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Resultados da Pesquisa em nuno pacheco

NP_Revista2-20150517

Anacleto estava radiante. Já lhe tinham dito lá na repartição mas ele não acreditava. No dia 13, o das aparições lá de Fátima, já podia escrever com menos letras, que alívio. Agora era lei, já não podiam gozar com ele quando escrevia “coação” e lhe perguntavam onde é que tinha comprado o coador. Só podia ser mesmo bênção dos pastorinhos. Ele tinha-se informado, sabia tudo. Até ao dia 13, havia na escrita portuguesa duas ortografias. Uma para Portugal e outra para o Brasil. Um excesso! Agora, a partir de dia 13, passa haver só duas ortografias. Reparem bem na subtileza: duas e “só duas”. Completamente diferente. As duas antigas tinham muitas palavras diferentes, e além disso eram duas. As novas também têm palavras diferentes (não exactamente as mesmas, porque é preciso variar, a escrita tem de vencer o tédio) e são “só duas”. Ora é com este “só duas” que o português vai finalmente ser aceite lá na ONU, na UE, na CEDEAO e nessas coisas todas importantes. Mesmo na colectividade lá do bairro, onde os comunicados já estavam a ser escritos em mandarim, ia passar a imperar o “só duas”. Que é uma escrita comum, como está bom de ver.

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fotoNP1Maravilhas da fonética

Há uns dias, por velhos impulsos e novas necessidades, encheu-se o anfiteatro 1 da Faculdade de Letras de Lisboa para discutir a malfadada questão do chamado acordo ortográfico. Mas esta crónica vai, como se verá, para além dele. É que, a dada altura, embora toda a gente falasse de ortografia, na verdade falávamos (porque lá estive, como convidado) essencialmente de fonética. Os episódios mais bizarros ali relatados acabavam, sempre, relacionados com os “sons” da escrita. Por isso, façamos uma pequena viagem ao maravilhoso mundo da fonética e, já agora, dos sons em geral.

Comecemos pela música. No Ocidente, sete notas (que conhecemos por dó, ré, mi, fá, só, lá, si) são suficientes para criar desde a mais básica balada à mais elaborada sinfonia. Mas, se valessem só por si, nunca o seu poder criativo iria tão longe. Sem as mínimas e semínimas, breves e semibreves, fusas e semifusas, colcheias e semicolcheias, sem uma sinalética própria das pautas musicais e que permite gerar os mais variados compassos, ritmos, melodias e harmonias, as sete notas definhariam.

Com as línguas passa-se o mesmo. Da primordial fala à sua expressão gráfica, há uma “pauta” que se desenvolve e expande para lá dos traços básicos do alfabeto. Numa das suas Charlas Linguísticas na RTP, em 1958 (editadas em livro nos anos 60), o filólogo Raul Machado criticava professores ou pais que, em tom autoritário, diziam a crianças com dificuldade de ler uma frase num livro: “Menino, leia o que lá está!” Como se dissessem: “O menino é parvo! O menino não sabe ler!” E dava como exemplo esta frase: “Os homens sentem e pensam.” Uma frase simples, que toda a gente lerá sem dificuldade. Toda a gente? Sim, toda a gente que já domina, mesmo que de forma inconsciente, as regras do código vocálico do português europeu. Se uma criança lesse mesmo “o que lá está”, com base no que aprendera no alfabeto, leria (dizia então o filólogo): Óss hóménnss sénntémm é pénnsamm. Ou, “em grafia sónica, a seguinte algaraviada: Óç hóménç çéntéme é pénçame”. Em vez disso, qualquer pessoa lerá “Uz ómãix sêntãi i pênsão”. No entanto, escrevemos “Os homens sentem e pensam”.

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NP Revista2 2015-03-22

Há dias convidaram-me para uma “cerimônia”. Não fui. Não pelo convite, ou por inconveniências temporais, mas pela incongruência da expressão. A dita “cerimônia” não se realizava no Rio, São Paulo ou qualquer outra cidade brasileira, mas em Lisboa e o convite partiu de um português. Que se passará para termos agora “cerimônias” em vez de cerimónias? Ignorância? Dicionário errado?

Seja o que for, o mesmo problema pode também afectar Nelson. Nelson é, suponhamos, um aluno instruído no Rio de Janeiro que, por migração dos pais, se mudou para Lisboa e ali prosseguiu os estudos. Num teste escolar, teve pela frente um texto livre dedicado aos transportes. Nelson não teria problemas, escrevia bem, pelo menos era o que lhe diziam no Rio, e atirou-se à escrita. Mas o professor veio depois admoestá-lo, baixando-lhe a nota, por “vários” erros ortográficos. Escreveu Nelson, seguro de si, as palavras “trem”, “cotidiano”, “recepção”, “excepcional”, “concepção”, “aspecto” e “quatorze”. O professor emendou “trem” para “comboio” (“essa palavra não se usa por cá com esse sentido, só no Brasil”), “cotidiano” (palavra que é admitida pelo Dicionário Houaiss) para “quotidiano”, “recepção” para “receção”, “excepcional” para “excecional”, “concepção” para “conceção”, “aspecto” para “aspeto” e “quatorze” (como no Brasil se escreve, regularmente, há décadas) para “catorze”. Nelson estava estupefacto (ou estaria “estupefato”?): então não havia, agora, uma ortografia comum, em que 99% das palavras eram grafadas da mesma maneira em todas as pátrias de língua portuguesa?

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Logo_Enredo2015_mediaNo tempo do beija-ditador

Teodoro e Teodorin estavam satisfeitíssimos. Ainda mal se atreviam a balbuciar “ôba” e já os imortalizavam em glória na Sapucaí. Não sabem? Pois conta-se depressa. Estavam os Teodoros, pai e filho, a jogar monopólio na mansão presidencial, quando Teodorin, distraído a folhear uma revista brasileira, gritou para o pai: “Regardez, padre, el bueno Mardi Gras brasileño!” Teodoro, resoluto, respondeu-lhe num castelhano babélico: “Compra!” Mas Teodorin explicou-lhe, com paciência, que não podia ser assim. Não era só comprar, era preciso conversa, diplomacia, essas coisas democráticas. Teodoro disse-lhe que de democracia não percebia nada mas, ainda assim, que comprasse. Foi o que bastou para que Teodorin, sagaz, se empenhasse na coisa. Era preciso um passo, mas qual? Foi ver a lista das escolas de samba e tropeçou numa com nome de pássaro: Beija-Flor. Servia perfeitamente. Fez contactos. E tratou do cheque, naturalmente. Se o Brasil andava a cortar nos apoios às escolas sambistas, por que razão não poderia a mais recente sócia da grande irmandade lusófona (que é uma coleccionadora compulsiva de línguas oficiais e não oficiais — a brincar, entre umas e outras, já juntou ao espanhol da colonização e ao fang tribal o inglês “pidgin”, o francês e o português) dar uma ajuda?

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publicoQuando há tantos problemas pelo mundo, pode parecer estranho voltar à língua, em particular a língua escrita, mas este ano é apropriado. É que, embora tenham espalhado que só em 2016 é que o acordo ortográfico (AO) de 1990 entra em vigor em todo o país, a data é uma falácia. Na verdade, o dito AO já contamina quase tudo: escolas, meios de comunicação social (exceptuando alguns heróicos resistentes), instituições estatais e privadas e um sem-número de alegres seguidores da coisa. Dir-se-ia portanto que, tal como pagamos a dívida pública a juros mais altos do que os outros e ainda louvamos tal solução, nos embrenhámos na novidade ortográfica desejosos de colher os seus tão apregoados benefícios. Mas, se já tantos o aplicam e tão afincadamente, não deveriam esses benefícios ser visíveis? Não deveríamos ter já a tão apregoada “ortografia comum” nos países onde o português é usado como língua oficial ou de trabalho? Teoricamente sim, na prática… Não. Ainda agora se anunciou que a (excelente) Companhia das Letras brasileira vai começar a ter edições portuguesas. Pergunta: para quê? Por que não vender em Portugal as edições brasileiras a preços normais? Não é, afinal, a mesma língua? A mesma ortografia?

Vejamos um exemplo. Ainda há dias, o ciclo do cinema de expressão alemã em Lisboa abriu com um filme, As Irmãs Amadas, baseado no trio amoroso que teve como centro o poeta Friedrich Schiller. Era legendado em português, sim, mas do Brasil. A dada altura, uma das irmãs pergunta à outra (em alemão, naturalmente) o que foi traduzido deste modo: “E já falou pra mamãe?” Se a tradução fosse em português europeu, seria: “E já contaste à mãe?” Ou: “E já disseste à mamã?” Claro que no Brasil estas últimas expressões soariam ridículas. É por isso que, no capítulo das traduções, tal como sempre sucedeu, há e continuará a haver versões diferentes consoante os países. Apesar da língua. O problema é que Portugal, no seu afã de eterno subserviente, há-de dispensar a pouco e pouco as traduções e legendagens próprias (e isso, infelizmente, já está a suceder no mercado videográfico) a pretexto, estúpido pretexto, de que falamos a mesma língua, logo entendemos tudo o que está escrito. Entendemos, claro, tal como os brasileiros entendem o português europeu grafado, mas estaremos assim a minar de forma irreversível a nossa cultura porque abdicaremos de uma expressão própria que nos acompanha, evoluindo, há séculos.

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Revista_2_12102014

O assunto tem andado morto — mal morto, reconheça-se — mas agora reanimou-se. A nova directora do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, vulgo IILP, achou por bem vir garantir que o acordo ortográfico (AO) “será aplicado em todos os estados” da CPLP, admitindo, rezam as notícias, que “cada um tem um ritmo próprio”. Sobre a utilidade da coisa não falou, como era de esperar. Nem poderia. Até agora, tirando a profusão caótica de grafias que por aí vai (com acordo, sem, meio por meio, supressão de letras a eito e até colocação de consoantes onde nunca existiram), ninguém foi capaz de se chegar à ribalta linguista e afirmar, com euforia: esta era a boa solução e provou-se!

Pelo contrário. Na mesma semana em que o IILP debitava a burocracia do costume, a assembleia de delegados do Pen Clube Internacional (com 58 centros ali representados) aprovou, por unanimidade, uma nova resolução (já o havia feito antes) apelando para que as autoridades reconheçam que há “problemas significativos” na aplicação do AO, refutando o argumento de que tal acordo “conduzirá a uma simplificação da língua com benefícios no plano da educação”; e defendendo a “liberdade dos escritores e tradutores” a “escolherem a opção ortográfica mais apropriada ao seu trabalho”. O problema é que o IILP é a “autoridade”, ou uma delas, movida a pretensões políticas, enquanto o Pen se “limita” a unir um grupo de profissionais que lidam todos os dias com a língua e a escrita, enfrentando os muitos problemas que estas lhes colocam. Não poderá, nunca, ser a mesma coisa.

E unificar é preciso. É? Vejamos dois exemplos curiosos de palavras iguais grafadas de modo diferente em Portugal e no Brasil, até porque “trocam” de letra na primeira sílaba: catorze em Portugal e quatorze no Brasil (onde se lê o “u”, tal como em quatro); quotidiano em Portugal e cotidiano no Brasil. O AO unificou-os? Não. Mas vários dicionários, antes até da entorse acordista, fizeram o que deviam: incluíram as quatro formulações, indicando as que vigoram cá e lá. Se isso tivesse sido feito com as muitas palavras mudadas à força sem ter em conta os códigos vocálicos de cada país, estaríamos bem melhor. Mas preferiram criar uma escrita só “nossa”. Desnecessária e inutilmente absurda.

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publicoA notícia foi desanimadora e a explicação não ajudou. Na famigerada PAAC (dita prova de avaliação e conhecimento e capacidade), 62,8% dos professores deram erros ortográficos. Teria sido incumprimento do Acordo? Dizem que não. Por esse motivo, só 10%, diz o Iave (Instituto de Avaliação Educativa). Ora no textinho de 250 a 350 palavras que cada professor teve de escrever de sua livre criação (o que dá uns 1600 a 2300 caracteres já com espaços, coisa pouca), 90% dos erros nada tiveram a ver com o Acordo mas sim com, cite-se o Iave, “uso incorrecto da acentuação (cerca de metade do valor total), troca de vogais, troca de consoantes ou uso incorrecto de consoantes, aplicação incorrecta do plural e registo incorrecto de formas e de conjugações verbais”. Ora a mensagem que recebi via telemóvel, a sintetizar isto, dizia: “Metade dos erros dos professores sao de acentuacao” (sic).

Será, então, culpa dos telemóveis? Das mensagens rápidas? Da informática? Será que de tanto suprimirmos acentos para poupar tempo deixámos de saber usá-los? A hipótese não é descabida, mas é melhor culpar o desleixo. Os telemóveis e computadores têm acentos para quem os queira ou saiba usar, a pressa não justifica nada, mas é de notar que em muitos textos que por aí circulam, públicos ou nem tanto, lemos “pais” por “país”, “politica” (do verbo politicar) por “política”, etc. E tais descuidos não pensem que só os encontram em jovens apressados ou principiantes da escrita. Praticam-no, regularmente, políticos, magistrados e até catedráticos. Aliás, era curioso ver a tal PAAC entregue a cada um dos membros do Governo (deste ou dos anteriores) e pesar depois o resultado. Descontando o Acordo, teríamos belíssimos exemplos.

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fotoNP1Talvez muitos ainda se lembrem da irritação de Felipe Scolari quando, numa conferência de imprensa em Portugal, nos anos em que foi treinador da selecção portuguesa, quis pôr em sentido um jornalista brasileiro que se lhe dirigiu dizendo “Ôi, Felipão…” Terá exclamado algo como isto: “Aqui não sou Felipão, sou Felipe Scolari!” Ora o uso generalizado de “Felipão” no Brasil para designar Scolari tem uma raiz de familiaridade e ao mesmo tempo de grandeza. “Felipão” é o “amigo Felipe” ou “conterrâneo Felipe” mas é também o “grande Felipe”. E para isso lá está, bem audível, o sufixo nominal -ão, neste caso aplicado com sentido aumentativo.

Mas se Scolari quis banir, ainda que conjunturalmente, o -ão do seu nome (voltou a ser Felipão no Brasil, embora o aumentativo tivesse perdido valor nos últimos 15 dias), um português tentou bani-lo em definitivo da Língua pátria há três séculos. Não só o -ão (que é típica e exclusivamente português) mas todos os ditongos nasais. A história, deliciosa, é contada pelo escritor Agostinho de Campos no volume II de Paladinos da Linguagem (ed. Aillaud e Bertrand, 1922). Num livro a que chamou Antídoto da Língua Portuguesa, editado em 1710, António de Mello da Fonseca (que usava como pseudónimo José de Macedo) desafiava o rei D. João V, ainda nos primeiros anos do seu reinado, a banir por decreto régio da Língua Portuguesa os ditongos nasais, substituindo-os “por outras formas mais próximas do italiano, do castelhano ou do latim”. Isto dava que, onde antes haveria -ão, passaria a haver -one, -ano ou -ude. Exemplos: Ladrone, sermone, irmano, verano, em vez de ladrão, sermão, irmão e verão; multitude e ingratitude em lugar de multidão e ingratidão; frouxidade e vastidade em lugar de frouxidão e vastidão; putrédine e caligine em vez de podridão e cerração; e até mesmo manhana, lana e romana em vez de manhã, lã e romã. Não queria só isto, claro. Queria também introduzir letras novas no alfabeto, criar tempos verbais até aí inexistentes e criar inúmeras palavras novas. Tudo por decreto (já vem de trás, tal mania) e acreditando ele que (o comentário é de Agostinho de Campos) “reordenada a nossa língua segundo os seus conselhos, por ordem do Snr. D. João V, todos os outros povos se apressariam a aprendê-la, assim enriquecida, depurada e ao mesmo tempo simplificada — guiando-a às honras e proveitos de linguagem universal”. No Antídoto, para exemplificar o seu horror aos ditongos nasais, contava inclusive uma história passada com D. Catarina, enferma em Londres e em repouso. Sugeriram-lhe as amas um caldo de galinha. Ao que a rainha respondeu: “Não.” O horror teria sido, segundo ele, generalizado. “Ai, manas! Que quer dizer aquilo? Que palavrinha é aquela, tão grandemente feia, e tão pequenina? Eu não sei como cabe tanta fealdade em tanta pequeneza…” Tirando o curioso pormenor de, nas exclamações de “horror”, ele ter escrito “tão” duas vezes, contra um só “não” da rainha, a campanha não foi por diante. Talvez porque o próprio rei, a quem ele dedicou o livro, se chamasse… João. Ficaria Joane? Joano?

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Língua rica, língua pobre e uma linha a menos

Por mais estéril que seja a discussão em torno da real idade da Língua Portuguesa (os 800 anos invocados por aí correspondem a um documento oficial de D. Afonso II, sendo meramente simbólicos), as comemorações lá se fizeram no Padrão dos Descobrimentos, com poesia e alguns discursos, crianças e balõezinhos, música e danças a condizer. A língua multifalou-se nos seus diversos tons e a coisa seguiu adiante, como sempre segue mesmo quando nada acontece. Ora aderindo aos redondos 800, a Academia Portuguesa de Cinema, com apoio da Assembleia Municipal de Lisboa, da Costa do Castelo Filmes e da Cinemate, exibiu na passada quarta-feira no Fórum Lisboa (antigo Cinema Roma, que em boa hora reanimou a sua programação, agora com filmes relacionados com os 40 anos do 25 de Abril) o documentário Língua, Vidas em Português.

Realizado por Victor Lopes, cineasta moçambicano radicado no Brasil há um quarto de século, o documentário (filmado em 2001) é uma curiosíssima viagem pelas voltas que o Português vem dando consoante as geografias, mas é também uma viagem por várias vidas, na maioria pobres ou muito pobres, que usam cada qual o Português a seu modo. Uma língua rica num mundo pobre, falada por pobres, mas também uma língua tão rica (por acção das culturas que dela se foram apropriando) que até se dá ao luxo de empobrecer.

“Cada vez temos menos palavras, cada vez usamos menos palavras”, diz a dada altura José Saramago, para lembrar que a riqueza conquistada pelo tempo nas expressões da fala ou literárias tem vindo a fazer um caminho inverso, empobrecendo. Como se nos esperasse um futuro onde um grunhir primitivo, monossilábico, viesse substituir a comunicação oral humana — a conclusão é do próprio Saramago, com uma irónica tristeza. Já João Ubaldo Ribeiro, escritor brasileiro que se apresenta como “usuário da língua”, dá outro exemplo. “Estamos [no Brasil] importando não só vocabulário mas também a sintaxe americana, a maneira de pensar americana, a maneira de colocar o raciocínio. Isso é que é gravíssimo. (…) Você ouve ‘porque nós vamos ir na festa depois, primeiro nós vamos ir no cinema’. ‘We will go’. Até isso tá indo embora, tá virando tempo composto em Português brasileiro.”

De um lado, Saramago diz: “Quase me apetece dizer que não há uma Língua Portuguesa. Há línguas em Português. (…) Mas não tira nada à evidência de que se trata do corpo da Língua Portuguesa, é um corpo espalhado pelo mundo.” Do outro lado, Ubaldo observa que “a que, futuramente, tenderá a ser a língua brasileira, ‘tá evoluindo muito”. Percebe-se, por esta declaração desassombrada de 2002, os medos que levaram ao estapafúrdio fingimento da ortografia unificada. Porque se o Brasil decretar uma “Língua Brasileira” (como ousaram os chilenos em relação ao espanhol) lá se vai o sonho dos 200 milhões. O filme, no entanto, não destrói a esperança, porque sublinha que, apesar da distância, da ausência, do desinteresse, a Língua Portuguesa povoa ainda, nas suas variantes, milhões de almas. “Toda noite”, anuncia o filme logo de início, “200 milhões de pessoas sonham em português. Estas são algumas delas”. Vale a pena vê-lo para nos revermos, nas nossas utopias e fragilidades. No Youtube há um excerto com boa resolução (http://goo.gl/kaF2G) e uma versão integral de má qualidade.

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testamento1214

É sempre ingrato falar de algo tão usual como a língua, mas talvez seja por muito falarmos dela, com euforia e sem tino, que a ela sempre voltamos, como náufragos sem madeiros que nos valham num mar imenso. Vamos, pois, à língua e aos seus futuros.

Mas é impossível falar em futuro sem relembrar, ainda que brevemente, o passado. O tempo do galego-português (ou galaico-português, se preferirem), nascido do latim no ângulo noroeste da Península Ibérica, depois da presença romana iniciada em 218 a.C. Outras invasões e conquistas trouxeram outros falares. E se o latim escrito continuava como língua de cultura e transmissão de conhecimento, o português nascido de uma das línguas peninsulares (galego-português, castelhano e catalão; os bascos não haviam abraçado o latim e assim se mantiveram) viu o seu vocabulário, latino e grego na origem, enriquecer-se com palavras de origem germânica (menos) ou árabe (mais). O Testamento de D. Afonso II, que está na origem da mais recente euforia celebrativa, está datado de 27 de Junho de 1214 (faz agora exactamente 800 anos) e é, a nível oficial, o mais antigo documento escrito em língua portuguesa de que há registo. Mas o português não parou por aí, e às influências da proximidade com o castelhano (que chegou a ser usado como segundo língua falada e escrita, inclusive por Gil Vicente e Camões) veio depois a ser influenciado, a partir do século XVIII, pela língua francesa. Gramática, Ortografia e Lexicografia iam-se desenvolvendo desde o século XVI. E iam surgindo os dicionários e vocabulários, com realce para os de Bluteau e de Morais e Silva (ambos escritos e publicados já no séc. XVIII). Por onde andava o português falado, já então?

A crescer e a modificar-se, mas em caminhos diversos consoante as geografias. Portugal e Brasil, mantendo unidade ortográfica até aos últimos tempos da monarquia portuguesa (já o Brasil se tornara independente em 1822), caminhavam para uma óbvia e natural separação em termos de expressão linguística. A velhíssima mãe-língua, ela própria com ainda mais antigos progenitores e parentes, via os filhos crescer, sem contudo prestar atenção suficiente às suas necessidades e diferenças. África, neste campo, também por via da colonização, viu-se a braços com o português como língua oficial (de ensino, de administração) mas não de uso. Porque nesse papel estavam as línguas maternas, não as do colonizador. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe tinham crioulos próprios (ainda hoje de uso comum no dia-a-dia), Guiné-Bissau, Angola e Moçambique tinham (e têm) várias línguas, correspondentes a etnias. E se os movimentos de libertação africanos optaram pelo português no momento de escolher uma língua oficial, isso deveu-se à necessidade de evitar divisões (escolher uma língua em detrimento de outra acirraria tribalismos) e ao mesmo tempo de aproveitar o esteio do conhecimento já semeado pelo português.

Depois disso? O vazio, ou quase. Quando, após as independências, os países africanos clamaram por professores, por ajuda no ensino, a resposta foi fraca ou nula. Angola, Moçambique e Guiné-Bissau quiseram incentivar o português em finais dos anos 1970, mas com parco sucesso. Manuel Ferreira (1917-1992), professor e africanista célebre, autor de livros como Hora Di Bai ou A Aventura Crioula, escreveu em 1988 num livro intitulado Que Futuro Para a Língua Portuguesa em África? (curiosamente, a mesma pergunta que hoje repetimos mas com os olhos postos em ambições maiores) o seguinte: “Houve um período em que esses três países procuraram, insistentemente, socorrer-se de Portugal para a contratação de professores cooperantes, mas sabe-se de quanto os sucessivos Governos portugueses, socialistas ou social-democratas, mostraram estranhamente um soberano desdém pelos continuados apelos dos Governos desses países.” Agostinho Neto terá dito, então, que ia bater a outra porta: a do Brasil.

Pois foi exactamente no Brasil que a língua portuguesa tomou forma distinta, falada e escrita e isso deveria constituir motivo de orgulho. Ao contrário do desprezo a que foi votada África. Cuidou-se excessivamente da ideia de língua oficial, descuidando a língua de uso. Artifício útil para palestras, mas máscara de enorme incompetência. Quando hoje se levanta a bandeira dos “250 milhões de falantes”, Brasil e Portugal são contados na íntegra mas África e o Oriente (Índia, Macau e Timor) são esquecidos na realidade dos seus dias, das suas populações, mesmo que sejam lembrados num punhado de intelectuais, governantes e funcionários. Temos, por incompetência e cobiça, os olhos postos nas altas esferas do poder, mas esquecemos a aldeia, a sanzala, a tabanca. Não nos importamos de mentir quando, alardeando o português como “língua de negócios”, tratamos desses negócios naturalmente em inglês, não só no estrangeiro mas também em Portugal, como se o nosso idioma nos envergonhasse, subservientes como sempre ao que nos vem de fora e achamos mais capaz e mais útil. Como queremos que o português seja língua de trabalho no estrangeiro quando nem em Portugal o é? Quem queremos enganar com tais sonhos de expansão, quando os esforços têm sido contrários, no sentido de fechar, minguar, menorizar o português perante outros idiomas, esses verdadeiramente internacionais porque, em lugar de se auto-elogiarem, impõem-se, fazem-se ouvir. Os ingleses não falam da língua, falam a língua. Assim o deviam fazer os portugueses.

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