ILC contra o Acordo Ortográfico

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Resultados da Pesquisa em reescrever a história

«By destroying the words themselves, the state would be able to destroy the concepts they represented.»
George Orwell, “1984”

«Discussão:facto
Boa. Cheguei aqui à procura dum significado digno da palavra facto, mas em vez disso fui remetido para fato. Aí, encontrei quase um rascunho do sentido que procurava, o sentido 5. Mas, quando segui o link para o sinónimo, a ver se havia um significado um pouco mais desenvolvido, descobri que vinha dar a esta página outra vez. É obra. Quem procura facto sai deste dicionário com a ideia que significa fato. Quando é fato que pode ser também fa(c)to.

Fato e facto
São palavras da Língua Portuguesa, com o mesmo significado para todos os falantes.–antoniolac 00:38, 19 Janeiro 2007 (UTC)
Wikcionário “lusófono”

Verifique-se a data desta “reclamação” e depois a da última alteração da entrada respectiva: «Esta página foi modificada pela última vez às 05h17min de 24 de março de 2012.»

Por aqui se vê que pelo menos esta “reclamação” (de João Ricardo Rosa, activista da ILC) produziu efeitos, ou seja, os editores acordistas do Wikcionário re-introduziram à pressa a entrada sobre o termo “Facto”; isto porque, é claro, o AO90 prevê a dupla grafia “facto/fato” e eles, atarefadíssimos na sua obsessiva caça à “consoante muda”, tinham abatido ali um C a mais, de faCto, como terão de repente constatado.

Mas isto é apenas uma excepção para confirmar a regra, evidentemente, apenas e só porque o “acordo” que regula a “língua unificada” prevê mesmo não apenas aquela como outras 69 000 duplas grafias, das quais 4 000 integralmente novas, geradas, criadas, inventadas pelo mesmíssimo “acordo” que as iria abolir.

E é uma excepção também porque, como já vimos antes, não é permitido (pela Wikipedia e serviços quejandos) reverter a ortografia acordizada para a da norma Pt-Pt. E já vimos igualmente que não apenas é proibido reverter como toda a ortografia da norma em vigor em Portugal, em Angola e em Moçambique está a ser convertida, à força e com efeitos retroactivos, para a versão acordista.

De facto, designámos anteriormente este processo como genocídio linguístico mas o PAEC (processo de aniquilamento em curso) é ainda mais abrangente (e terrível) do que isso, visto que além de estropiar a ortografia de cada entrada lexical ou enciclopédica, por arrastamento “uniformiza” também os conteúdos. Ou seja, expliquemo-nos detalhadamente quanto a isto, mais uma vez, porque se trata de algo dificílimo de compreender e mais ainda de aceitar: os conteúdos explicativos, as ilustrações e os exemplos de cada uma das entradas lexicais estão a ser sistematicamente substituídos por… explicações brasileiras, ilustrações brasileiras e exemplos brasileiros.

Vejamos, assim um pouco “à sorte”, o caso da entrada wiki sobre “Metonímia”.

«Por exemplo, “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser localizado lá o gabinete presidencial.»

Perdão? Como? “Palácio do Planalto”? Para mim, que não sou brasileiro, já agora, se me é permitido, pergunto: o que diabo vem a ser isso de “Palácio do Planalto”? Ah, é a morada oficial do Presidente do Brasil, obrigado, compreendo; sim, mas porquê a do Presidente do Brasil? Porque não a do Presidente de Angola? Ou a do Presidente de Moçambique? Ou ainda, e sempre apenas por exemplo, que mal fez à Wikipedia “lusófona” o portuguesíssimo, se bem que certamente modesto, “Palácio de Belém”?

Será que antes, quando havia naquele serviço duas versões, “Português” e “Português do Brasil”, naquela que não era “do Brasil” já se referia o “Palácio do Planalto”? Não estaria lá, nessa versão diferenciada, o nosso velhinho palácio presidencial?

Pois, isso pelos vistos nunca mais viremos a saber: como já aqui demonstrámos, toda a História está a ser sistematicamente apagada ou, pior, muito, muito pior, toda a História está ser substituída pela versão “atual” do Português, como se nunca tivesse havido outra coisa além desse aleijão.

Pois é claro que os exemplos ilustrativos deste fenómeno de extermínio cultural em massa encontram-se por todo o lado e com muita facilidade. Basta procurar seja o que for para verificar a sistematização implacável do processo.

Apenas mais uma amostra, tão ao acaso como a anterior: vejamos o que diz a Wikipedia “lusófona” sobre “Metáfora“. Sem palavras, porque uma imagem vale ainda seguramente, hoje como ontem, por mil daquelas “coisas”.

Antes ficámos a saber que as entradas lexicais em Português-padrão estão a ser exterminadas selectivamente, com efeitos retroactivos, agora ficamos também cientes de que os conteúdos o estão a ser na mesma medida: a ortografia portuguesa “nunca existiu”, pretendem os acordistas, como jamais houve fosse o que fosse em Português… fora do Brasil.


Esta imagem é uma das últimas provas que restam de que havia duas grafias do Português na Wikipedia. Ainda lá está hoje, esquecida, numa recôndita página de acesso. Mas até esta será rapidamente apagada, é certo e seguro, porque aos acordistas não interessa deixar qualquer vestígio de que alguma vez existiu algo mais do que uma única “língua unificada” e uma só “cultura lusófona”; num único país pelos vistos, porque os “restantes” não contam para nada.

Já aqui foi citado a propósito, porém nunca será de mais relembrar as sábias, premonitórias, certeiras palavras de George Orwell.

«O objectivo da Novilíngua não é apenas oferecer um meio de expressão para a cosmovisão e para os hábitos mentais dos devotos do IngSoc, mas também impossibilitar outras formas de pensamento. Tão logo for adoptada definitivamente e a Anticlíngua esquecida, qualquer pensamento herético será literalmente impossível, até ao limite em que o pensamento depende das palavras. Quando esta for substituída de uma vez por todas, o último vínculo com o passado será eliminado

“1984” é agora.

Nota: as imagens neste “post” são “screenshots” (uma espécie de fotografias do que se vê no ecrã do computador em determinado momento) obtidas na data de publicação deste mesmo “post”; é possível que haja nos respectivos endereços (URL) alterações posteriores efectuadas pela própria Wikipedia.

«Favorecimento?
O artigo favorece a ortografia do Acordo Ortográfico sobre a de Angola. Não deveria antes ser “Objeto e objecto”, em vez de pôr a outra ortografia entre parêntesis como se fosse mais usada? 2.80.11.40 (discussão) 08h33min de 21 de julho de 2011 (UTC)

Explique-se melhor. Como assim o artigo favorece “o Acordo Ortográfico sobre a de Angola”? -Ramissés DC 15h04 min de 21 de julho de 2011 (UTC)» [Wikipedia “lusófona”]

Continuando na senda da denúncia (no sentido de exposição pública) do “PAEC”, ou seja, do processo de aniquilamento em curso, vejamos alguns exemplos que demonstram a forma verdadeiramente assassina como o Português-padrão está a ser apagado da História. Ou, dito de outra forma, ilustremos a gigantesca operação de destruição maciça – com efeitos retroactivos – da Língua Portuguesa não “acordizada”.

Como se vê na imagem de topo e como se lê ali, na reclamação de um angolano, a palavra “objecto” pura e simplesmente desapareceu. A bem dizer, nunca existiu! Se forçarmos a entrada directa no endereço (URL) correspondente àquela entrada com a grafia do Português “europeu” (e africano), podemos ver que somos automaticamente remetidos para o termo equivalente… em “acordês”: “objeto”. Basta experimentar, é só seguir o link http://pt.wikipedia.org/wiki/Objecto.

Porque presumimos ser muito difícil acreditar em que semelhante barbaridade esteja mesmo a acontecer, vamos repetir isto ponto por ponto a ver se a coisa resulta clara para toda a gente:

1. Na Wikipedia “PT” já foi apagado todo o passado. “Nunca” houve PT-PT e PT-BR. Por exemplo, a palavra OBJECTO não apenas foi abolida pelo AO90 como… NUNCA EXISTIU.
2. Para quem tem conta de edição na Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Objeto&action=history (a entrada mais antiga é de 01.06.10).
3. O redireccionamento (de OBJECTO para “objeto”) foi forçado COM EFEITOS RETROACTIVOS a 2005: http://web.archive.org/web/20050422021854/http://pt.wikipedia.org/wiki/Objecto
4. A busca interna por OBJECTO na Web Archive dá ERRO: http://liveweb.archive.org/http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Objecto&redirect=no

Claro que este processo de extermínio linguístico é sistemático, avassalador, por assim dizer industrializado: todas as palavras com a grafia do Acordo Ortográfico de 1945, que vigora ainda legalmente pelo menos em Portugal, Angola e Moçambique, estão a desaparecer na Wikipedia… mas não somente; é claro que os mesmos métodos de extinção em massa estão já a ser utilizados em várias plataformas, sistemas e serviços (virtuais ou não).

Qualquer pessoa pode verificar por si mesma com os exemplos que lhe forem ocorrendo: a palavra “Acto” não existe (nem existiu nunca ou será que existiu alguma vez mas foi exterminada?), “Actuação” desapareceu (agora é “obrigatoriamente” «atuação») e até algo como uma simples “acta” de reunião já não se faz (nem nunca se fez, pois claro), diz que tem de ser “ata” à viva força, ou seja, «um registro ou resenha de fatos ou ocorrências».

Este “apagão” geral (com efeitos retroactivos, repita-se e realce-se de novo) não acontece por mero acaso, evidentemente, e muito menos por necessidade. Faz parte de uma estratégia política, como já sabemos, que consiste num tão velho quanto terrível paradigma: “quem domina o passado domina o futuro; quem domina o presente domina o passado” [George Orwell, “1984”]

No próximo artigo desta série veremos de que forma o “apagão” selectivo não é apenas terminológico (ou ortográfico), é também referencial e de conteúdo.

Nota: as imagens neste “post” são “screenshots” (uma espécie de fotografias do que se vê no ecrã do computador em determinado momento) obtidas na data de publicação deste mesmo “post”; é possível que haja nos respectivos endereços (URL) alterações posteriores efectuadas pela própria Wikipedia.

«Proposto pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma tentativa de unificar a língua portuguesa, sobretudo na internet, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa passa a ser obrigatório no Brasil a partir de 1º de janeiro de 2013.»
“Jornal da Manhã” (online), Uberaba (Minas Gerais), Brasil, 19 de Março de 2012

Uma das consequências do AO90 que mais têm sido escamoteadas e que os nossos políticos, por regra, fingem ignorar é a seguinte: à conta de uma pretensa (e impossível) “uniformização” da Língua Portuguesa, a norma-padrão do Português está a ser inexorável e sistematicamente apagada em todos os registos e em qualquer suporte. Na Internet (e não só), dezenas, centenas, milhares de pessoas – na sua maioria do Brasil mas também contando com a solícita colaboração de alguns portugueses – estão a simplesmente fazer desaparecer a norma ortográfica do chamado Português europeu, como se tal coisa nunca tivesse sequer existido.

As provas que evidenciam esta gigantesca operação de genocídio linguístico (e cultural, por inerência) estão por todo o lado, apesar de também sobre elas, as provas, além dos conteúdos propriamente ditos, incidir a sanha, a raiva e o labor frenético destes revisores da História que agora se afadigam em sumamente liquidar o passado (que nunca o será para nós outros) da Língua Portuguesa.

Abreviando razões, aquilo que se está a passar é que a mentira da “língua portuguesa unificada” tenta instaurar a sua política do facto consumado através da eliminação pura e simples de qualquer referência ou conteúdo que não “obedeça” ao “acordo ortográfico” de 1990. Ou seja, em suma, segundo eles nunca antes houve norma-padrão, apague-se tudo aquilo que existir, sempre houve a “nova norma”, substitua-se a “antiga” por esta.

Nesta série de artigos, de que hoje se publica o primeiro, tentaremos ilustrar com exemplos vários – todos eles fundamentados documentalmente – este fenómeno que tem passado (deliberada e orquestradamente) despercebido da opinião pública e que poderíamos talvez designar pela abreviatura “PAEC”, processo de aniquilamento em curso.

A ilustração que se segue mostra, sem necessidade de quaisquer comentários adicionais, a forma ditatorial, canina, verdadeiramente nazi como esta “nova ordem ortográfica” é imposta, no caso, aos utilizadores da Wikipedia que se diz “lusófona”. Relevem-se, caridosa e pacientemente, as óbvias dificuldades de redacção do “Vinicius” em causa:

«Aproveito para lembrar que, apesar da Wikipedia lusófona privilegiar o uso das normas do Acordo Ortográfico de 1990 nas suas páginas oficiais (políticas, recomendações, etc.), qualquer usuário é livre de utilizar nas suas edições as regras ainda vigentes no Brasil (Formulário Ortográfico de 1943) ou as dos restantes países lusófonos (Acordo Ortográfico de 1945), não sendo toleradas alterações de uma norma para outra

No próximo artigo desta série veremos de que forma NUNCA EXISTIRAM na Wikipedia “lusófona” algumas entradas (palavras) com a grafia do Português-padrão.

[Imagem de topo de Tate online.]

observador_logo

Sobre a língua e o acordo ortográfico

Isabel Soares
18/5/2015
A língua está no âmago da cultura de um povo e não sabemos ao certo quais as consequências de manipular a língua de uma forma significativa, como está a ser feito.

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Pertenço ao grupo dos que assiste à alteração, ou melhor, à mutilação, da língua com grande desgosto. Sou uma simples leitora de alguns jornais, e tenho esporadicamente lido algumas notícias e artigos de opinião sobre o acordo ortográfico. A minha ligação a questões linguísticas é apenas a de um cidadão comum sem qualquer preparação específica sobre o assunto. A razão porque decidi escrever estas notas deve-se a que não li até agora nenhum artigo que aborde a questão da alteração da língua no que ela tem de essencial.

A língua não é um produto de um acto de vontade do ser humano. A língua é uma propriedade emergente de comunidades humanas que surge independentemente de qualquer actividade consciente dessas comunidades. Neste sentido, a língua é um fenómeno da natureza. A língua está ligada à mente humana, emerge dessa mente e molda-a de formas que provavelmente nunca conseguirão ser inteiramente compreendidas pelo ser humano. Isso implicava sermos capazes de nos auto-conhecermos completamente, de nos vermos completamente ao espelho, o que não parece ser possível. Como Kurt Gödel demonstrou, através do teorema da auto-referenciação, há limites ao conhecimento humano.

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NP_Revista2-20150517

Anacleto estava radiante. Já lhe tinham dito lá na repartição mas ele não acreditava. No dia 13, o das aparições lá de Fátima, já podia escrever com menos letras, que alívio. Agora era lei, já não podiam gozar com ele quando escrevia “coação” e lhe perguntavam onde é que tinha comprado o coador. Só podia ser mesmo bênção dos pastorinhos. Ele tinha-se informado, sabia tudo. Até ao dia 13, havia na escrita portuguesa duas ortografias. Uma para Portugal e outra para o Brasil. Um excesso! Agora, a partir de dia 13, passa haver só duas ortografias. Reparem bem na subtileza: duas e “só duas”. Completamente diferente. As duas antigas tinham muitas palavras diferentes, e além disso eram duas. As novas também têm palavras diferentes (não exactamente as mesmas, porque é preciso variar, a escrita tem de vencer o tédio) e são “só duas”. Ora é com este “só duas” que o português vai finalmente ser aceite lá na ONU, na UE, na CEDEAO e nessas coisas todas importantes. Mesmo na colectividade lá do bairro, onde os comunicados já estavam a ser escritos em mandarim, ia passar a imperar o “só duas”. Que é uma escrita comum, como está bom de ver.

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Publico-20150516

À memória do Vasco Graça Moura

Não sei se são válidos ou não os argumentos jurídicos que discutem a data da aplicação efectiva do Acordo Ortográfico [AO], se nestes dias, ou em 2016. Isso não me interessa em particular, a não ser para registar a pressa suspeita em o aplicar contra tudo e contra todos. Mas uma coisa eu sei ao certo: é que o desprezo concreto do bem que ele pretende regular, a língua portuguesa, é evidente nessa mistura sinistra de inércia, indiferença e imposição burocrática com que se pretende obrigar os portugueses a escrever de uma forma cada vez mais abastardada.

Na sua intenção original, o Acordo pretendia ser um acto de política externa, uma forma de manter algum controlo sobre o português escrito pelo mundo todo, como forma de garantir uma réstia de influência portuguesa num conjunto de países que, cada vez mais, se afastam da centralidade portuguesa, em particular o Brasil. Se é um “acordo” é suposto que seja com alguém. No entanto, desse ponto de vista, o AO é um grande falhanço diplomático, visto que está neste momento em vigor apenas em Portugal, com promessas do Brasil e Cabo Verde, esquecimento em Moçambique, Guiné Bissau, S. Tomé e Timor-Leste, e recusa activa em Angola. Nalguns casos há protelamentos sucessivos, implementações adiadas e uma geral indiferença e má vontade. Para além disso, nenhuma implementação do AO, vagamente parecida com a pressão burocrática que tem sido feita em Portugal, existe em nenhum país, a começar por aquele que parecia ser o seu principal beneficiado, o Brasil. Ratificado ele foi, aplicado, não.

Mas com o mal ou a sorte (mais a sorte que o mal) dos outros podemos nós bem, mas ele revela o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.

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Neste “debate”, emitido pela RDP – Antena 1 no dia 3 de Maio 2015 (com repetição no Domingo seguinte), a escritora Teolinda Gersão confronta o chamado “pai” do “acordo ortográfico”, Malaca Casteleiro. Visto que se trata de um “debate”, com inúmeras interrupções de parte a parte, transcrevemos em formato de entrevista apenas as intervenções de Teolinda Gersão. Os “links” e destaques são, obviamente, de nossa responsabilidade.

 

RDP: Teolinda Gersão, olhando a Língua nesta perspectiva história e evolutiva: crê que há necessidade, que havia necessidade, de a legislar? De a modificar através de Lei?

Teolinda Gersão: Obviamente que não e eu devo dizer que estou totalmente em desacordo com esta tentativa de uniformização porque ela é completamente impossível, nunca vai acontecer — e são os próprios brasileiros que o dizem. Eu estava a ouvir o Malaca Casteleiro e parecia-me que estava a ouvir um tratado de um académico, portanto, algo que pertence às academias mas que não está ligado à vida real. E eu vou falar em nome da vida real e do meu conhecimento, obviamente da Língua Portuguesa, mas também da variante brasileira porque a conheço muito bem, vivi dois anos em São Paulo, tenho imensos amigos brasileiros, aprendi a escrever Português lendo também autores brasileiros como Machado de Assis, por exemplo, ou Guimarães Rosa ou Drummond de Andrade ou quaisquer outros…

RDP: E leu nas versões brasileiras.

TG: Nas versões brasileiras. E em casa, desde criança que me explicavam “ah, no Brasil diz-se assim”. “Esta palavra” (por exemplo, “Ipê“) “não existe cá, é uma árvore que eles têm lá”. Explicavam-me e eu andava para a frente. E tropeçava na sintaxe, via que a gramática era diferente, a construção da frase era diferente, mas diziam-me “lá eles dizem assim, nós dizemos de outra maneira” e isso não me fazia confusão nenhuma…

RDP: Léxico e sintaxe. E a ortografia…

TG: A ortografia é um pormenor. O importante é o léxico e a sintaxe. E nunca vamos chegar a acordo nenhum. E mesmo na ortografia também não. Eu estava a ouvir tudo isto e estava a pensar: um acordo que se tenta fazer, no fundo, há cem anos, praticamente, e que não se consegue fazer, tem alguma coisa de errado na base. Porque se em ’45 os brasileiros não o aceitaram e “mandaram para o espaço” o que nós tínhamos pensado e não o puseram em prática — estavam no seu direito e fizeram eles muito bem — não queriam reintroduzir consoantes que já não pronunciavam. Nós temos o mesmo direito de agora não cortar consoantes que pronunciamos ou outras que são etimológicas. Não podemos rasurar a etimologia. Obviamente que o Brasil é um país muito jovem, a independência é em 1822, portanto é no séc. XIX, estamos quase, ainda, vizinhos dessa data e é um país onde nunca houve, nem haverá, uma única ruína romana, obviamente. Roma não lhes diz nada e o latim não lhes diz nada. E o Brasil é produto de uma fusão enorme de Línguas de emigrantes que para lá foram. A maioria foi portuguesa, obviamente, mas havia os indígenas e depois nós…

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Este “post” fica arquivado na categoria “Opinião”.

De facto, o texto de Guilherme D’Oliveira Martins publicado há dias na revista “Visão” é de tal forma revoltante, parece-me, é tão desonesto – para não dizer miserável -, intelectualmente falando, acho eu, que apenas como simples “opinião” me permito reproduzi-lo aqui… devidamente “guarnecido” com aquilo que eu penso do texto e do seu autor.

É também esta a única forma de que disponho, se bem que modesta, de ao menos deixar “lavrado” algures o meu protesto, veemente, enérgico e “ligeiramente” enraivecido, quanto a mais uma ridícula tentativa de reescrita da História.

Parafraseando o que escreveu Maria do Carmo Vieira sobre a acordização selvagem da obra do Padre António Vieira, não merecia Graça Moura este tratamento. Escrever sobre ele um texto encomiástico em acordês já seria suficientemente mau; mas citá-lo e, pior ainda, usando dele citações textuais “convertidas” para o português estropiado “segundo as regras” do AO90, bem, isso então é absolutamente intolerável, nojento, abjecto. Uma canalhice sem nome.

E assim como aqui deixo esta adjectivação, pela qual assumo evidentemente – e com imensa honra – toda a responsabilidade, aqui deixo também a transcrição do dito texto, da autoria de Guilherme D’Oliveira Martins, devidamente corrigido, transposto, “traduzido” para Português legítimo; e não apenas nas citações de Vasco Graça Moura que se atreveu a estropiar, mas na íntegra, todo o seu próprio arrazoado.

Se fizerem o favor de me permitir outra citação “ligeiramente” adaptada, a terminar, aqui fica também a referência (com a devida vénia ao autor, está bem de ver) a Almada Negreiros e ao seu intemporal, genial, maravilhoso ‘Manifesto Anti-Dantas’.

E FIQUE SABENDO O GUILHERME QUE SE TODOS FÔSSEM COMO EU, HAVERIA TAES MUNIÇÕES DE MANGUITOS QUE LEVARIAM DOIS SÉCULOS A GASTAR.

 

O lugar da cultura

Guilherme D’Oliveira Martins
13:00 Segunda feira, 1 de Junho de 2015

A cultura é uma realidade transversal, que não se dá bem com o isolamento e o sentimento de auto-suficiência. Daí não bastarem as boas intenções nem os ingénuos desígnios. Os investimentos nas pessoas, para serem reprodutivos e terem efeitos em mais desenvolvimento, têm de se articular com as prioridades na criação e sustentabilidade dos recursos disponíveis, a começar no factor humano.

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museulinguaportuguesa

A reforma ortográfica que se pretende é um pequeno passo (atrás) para os países lusófonos e um grande salto para quem vai lucrar com ela. O assunto me enche, a um só tempo, de indignação e preguiça. O Brasil está na vanguarda dessa militância estúpida. Por que estamos sempre fazendo tudo pelo avesso? Não precisamos de reforma nenhuma. Precisamos é de restauração. Explico-me.

A moda chegou por aqui na década de 70, espalhou-se como praga divina e contribuiu para formar gerações de analfabetos funcionais: as escolas renunciaram à gramática e, em seu lugar, passaram a ensinar uma certa “Comunicação e Expressão”, pouco importando o que isso significasse conceitualmente em sua grosseira redundância. Na prática, o aluno não precisava mais saber o que era um substantivo; bastava, dizia-se, que soubesse empregá-lo com eficiência e, atenção para a palavra mágica, “criatividade”. As aulas de sintaxe – sim, leitor, a tal “análise sintática”, lembra-se? – cederam espaço à “interpretação de texto”, exercício energúmeno que consiste em submeter o que se leu a perífrases – reescrever o mesmo, mas com excesso de palavras, sempre mais imprecisas. O ensino crítico do português foi assaltado pelo chamado “uso criativo” da língua. Para ser didático: se ela fosse pintura, em vez de ensinar o estudante a ver um quadro, o professor se esforçaria para torná-lo um Rafael ou um Picasso. Se fosse música, em vez de treinar o seu ouvido, tentaria transformá-lo num Mozart ou num Beethoven. Como se vê, era o anúncio de um desastre.

Os nossos Machados de Assis, Drummonds e Padres Vieiras “do povo” não apareceram. Em contrapartida, o analfabetismo funcional expandiu-se célere. Se fosse pintura, seria garrancho. Se fosse música, seria a do Bonde do Tigrão. É só gramática o que falta às nossas escolas? Ora, é certo que não. O país fez uma opção – ainda em curso e atravessando vários governos, em várias esferas – pela massificação de ensino, num entendimento muito particular de democratização: em vez de se criarem as condições para que, vá lá, as massas tivessem acesso ao conhecimento superior, rebaixaram-se as exigências para atingir índices robustos de escolarização. Na prova do Enem aplicada no mês passado, havia uma miserável questão próxima da gramática. Se Lula tivesse feito o exame, teria chegado à conclusão de que a escola, de fato, não lhe fez nenhuma falta. Isso não é democracia, mas vulgaridade, populismo e má-fé.

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publicoQuando Cristo foi crucificado por volta do ano 30/32 da nossa era, o Império Romano ocupava uma vasta área que abrangia desde a Ásia Menor até à Península Ibérica, incluindo a maior parte da Europa e todo o Norte de África. Com o correr dos tempos, e devido à inevitável vitalidade que as línguas têm como coisas vivas que são, o latim popular falado na Dácia acabou por se transformar no actual romeno, tal como o falado na Itália no actual italiano, na Gália no actual francês, na Hispânia no catalão, castelhano, galaico-português, etc., etc.

Durante algum tempo o latim da Roma originária manteve uma aparência de identidade sustentada, sobretudo desde que a Igreja o adoptou como língua eclesiástica e litúrgica antes do início da Alta Idade Média; mas mesmo esse foi sofrendo alterações ao ponto de um estudioso de latim clássico ter dificuldade em entender um texto em latim eclesiástico do século XII ou XIII, por exemplo.

Imaginemos que um folgazão dessas eras, insuflado de ideias “ortografistas”, se lembrava de tentar impor ao latim de Roma uma “grafia unificada” misturando, com as inerentes “facultatividades”, as formas do latim popular gaulês, dácio, lusitano, itálico… Só esta ideia tonta dá vontade de rir, e obviamente nenhum estudioso no seu juízo perfeito a consideraria, a menos que se tratasse de um escritor de ficção científica que inventasse uma novela de “história alternativa” passada num universo paralelo, onde esse caricato fenómeno tivesse ocorrido com todas as suas delirantes (e quiçá interessantíssimas) consequências.

Bom, tudo é possível no fantástico universo das ficções, e tal fantasia até poderia dar origem a um trepidante filme em 3-D com imaginosos efeitos especiais e outros truques que encantassem as plateias.

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