logotipojornaliPor Diogo Pombo, publicado em 28 Mar 2013 – 03:10
Para já, o Acordo Ortográfico só vigora em dois países dos PALOP. Especialistas dividem-se sobre eventuais vantagens

Já muito se leu e ouviu sobre a decisão tomada em 1990. Nesse ano, Portugal assinou um novo Acordo Ortográfico (AO) da Língua Portuguesa com outros sete países (seriam oito, mais tarde, com Timor-Leste), para tentar unir na escrita um mundo povoado por 250 milhões de habitantes – o da Lusofonia. Hoje, porém, quase 20 anos volvidos, e entre críticas à sua utilidade, necessidade e impacto, há ainda outra questão que o AO enfrenta: que benefícios traz para as relações entre Portugal e os PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa)? Os especialistas dividem-se, e há mesmo quem diga que “as vantagens são zero”.

É com este número redondo, que Rui Miguel Duarte lança a dúvida. “Se nos cingirmos meramente à relação comercial e política, penso que não é vantajoso”, defende. Para Portugal, aliás, este acordo representa um dilema de como mais tarde pode vir a ser “difícil descalçar esta bota”. A metáfora escolhida pelo investigador do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa trilha o caminho até outro ponto. “Hoje vemos uma situação estranha, com Portugal a seguir putativamente uma política, e os PALOP outra”, diz o autor do estudo sobre as disparidades na aplicação do AO, que em Janeiro chegou ao Ministério da Educação e Ciência, acompanhado por uma carta aberta, para revogar uma “casmurrice”, um acordo “mixordês e babilonês”.

LUSOFONIA DIVIDIDA
Uma norma de escrita comum não devia ajudar a aproximar os países? Em teoria, sim. Se o implementarem. Actualmente, o AO já está em vigor em Portugal (desde Maio de 2009), no Brasil, em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Metade dos signatários, portanto, faltando ainda Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste, talvez “por se sentirem na corda bamba no meio das relações diplomáticas entre Portugal e o Brasil”, sugeriu Rui Miguel Duarte.

Por cá, o governo delimitou até ao final de 2015 o prazo para o acordo passar a ser obrigatório em toda a norma escrita portuguesa. O Brasil, por outro lado, já adiou a sua data para 1 de Janeiro de 2016. Em suma, o panorama actual vê a implementação do AO no mundo lusófono a decorrer aos solavancos. “Hoje temos o acordês brasileiro, o acordês-mixordês- babilonês em Portugal, e a versão que os PALOP assumem [o português de Portugal]”, resumiu, assim, o classicista.

Mesmo que um dia a nova ortografia seja universal nos oito signatários, essa comunhão, para Paulo Osório, “não vai alterar as relações entre os vários países”. O linguista e professor Associado com Agregação na Universidade da Beira Interior reforçou a sua tese, ao confessar que não encontra vantagens nem desvantagens na “existência de uma ortografia comum”. E explica porquê: “Se há problemas comunicativos entre os vários povos da Lusofonia é ao nível da oralidade, e não da escrita. Os falantes dos PALOP que sabem português conseguem ler um texto [escrito] na grafia antiga”.

Mas nem só de discordância é feita a análise ao futuro impacto do AO. José Mário Rocha, responsável pelo portal Ciberdúvidas, destacou a importância de existir um vocabulário comum para qualquer língua que se queira universalizar. Como o português. “Não podem existir divergências de país para país. O AO vai permitir a existência de um vocabulário comum, e se os PALOP o aplicarem, vão preferir mais facilmente as obras de editoras portuguesas”, argumentou, antes de acrescentar que “com o AO, passa a existir um guia ortográfico para se publicarem obras nesses países”. A universalização da ortografia no mundo lusófono eliminaria a necessidade em traduzir obras e manuais para serem comercializados noutro país lusófono.

Questionada pelo i, a Porto Editora informou que, desde a sua entrada em vigor, “a adaptação do Acordo Ortográfico terá representado um custo entre um a dois milhões de euros”, salvaguardando, porém, que o AO “não teve, nem tem, nem terá qualquer impacto nas exportações de livros para o Brasil”. Quanto a Angola e Moçambique, “as edições são feitas na antiga ortografia, uma vez que não adoptaram” o acordo.

Fernando Cristóvão é outra das vozes defensoras do acordo. O professor catedrático de Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa foi um dos linguistas que, na década de 80 do século passado, negociou com o Brasil as condições do AO. E desse tempo recorda um exemplo para explicar a sua defesa do acordo. “Em Bruxelas, quando participava nas comissões de cultura [presidiu, entre 1984 e 1989, ao Instituto da Cultura Portuguesa, actual Instituto Camões], perguntavam-me no fim: ‘Isto agora é redigido na ortografia português ou brasileira?’. Eu dizia que era em português, pois estávamos na União Europeia. Mas respondiam-me que estavam mais interessados no Brasil e em África”, contou.

[Transcrição integral de artigo, da autoria do jornalista Diogo Pombo, publicado no jornal “i” de 28.03.13. “Links” inseridos por nós.]