O Acordo Ortográfico do nosso descontentamento
Ana Cristina Leonardo
Expresso ATUAL (sic), 1 de Junho de 2013

Esta semana, pode o leitor desta crónica ser indulgente comigo e ler também o texto que escrevo sobre o livro “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico”. Como alguns já terão notado, estas linhas são impressas de acordo com o (des) Acordo Ortográfico. Distraída me confesso, só dei por isso passado algum tempo… e já não fui a tempo. Ao querer desfazer o erro, foi‐me dito que não se mudam as regras a meio do campeonato, o que estará certo, embora a mim mas tenham mudado a meio da vida, e isto sou eu a considerar, decerto com excessivo egocentrismo e atrevimento, a hipótese de igualar em longevidade Manoel de Oliveira. Dei então por mim à cata de palavras que não tivessem sofrido amputações, ou tão‐só figurações obtusas que me ferissem o ouvido ou a vista. Adjetivo sem “c” passava a atributo, apesar de me soar arcaizante, ótimo sem “p” passava a “bom”, opção tanto mais dolorosa quanto se sabe tratar‐se de dois vocábulos inimigos (confesso nunca me ter ocorrido substituir arquiteto sem “c” por desenhador de casas, como um dos opositores do AO citado no livro acima referido). Assim por diante… Trabalho inglório. Porque transforma a escrita em crochet, e porque é sempre chegado o dia em que temos de escrever aquela palavra e não outra. Como é hábito em Portugal, a discussão sobre o AO foi sendo desviada do essencial, com a irracionalidade a invadir o debate. Os contra eram uma cambada de retrógrados, os apoiantes davam provas de progressismo. O curioso é que, nesta matéria, o sonho imperial e saloio do cavaquismo linguístico deu as mãos ao deslumbramento modernaço e igualmente saloio do socratismo. Prova que ‘les beaux esprits se rencontrent’, mesmo em francês.

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[Transcrição integral de artigo da autoria de Ana Cristina Leonardo publicado no suplemento “Actual” do semanário “Expresso” de 01.06.13. “Link” disponível apenas para assinantes do jornal.]

[Fonte da transcrição (PDF): documento alojado em ISSUU por João Roque Dias.]