publico
A situação que vou descrever passou-se na II Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, que decorreu na Universidade de Lisboa, no final do mês de Outubro. Não vou mencionar nomes, porque o que mais importa são os argumentos. Ou a falta deles. Em todo o caso, a situação que vou descrever teve várias dezenas de testemunhas.

No âmbito desse evento, houve uma mesa específica sobre “A questão galega”. O que importa desde logo salientar é que todos os oradores dessa mesa eram galegos, falaram em galego para a assistência maioritariamente portuguesa e ninguém se queixou de não ter percebido o que quer que fosse.

Simplesmente, alguns oradores defenderam que a língua galega era realmente uma “língua independente da língua portuguesa” (uma “língua românica autónoma”, como foi frisado), enquanto os outros (entre os quais me incluo – dado que participei no aceso debate que se seguiu às diversas comunicações) defenderam o óbvio: que entre a língua que se fala na Galiza e em Portugal há tantas diferenças quanto, por exemplo, a língua que se fala em Portugal e no Brasil.

Bem sei que, lá e cá, há quem considere que, no Brasil, também existe realmente uma “língua independente da língua portuguesa” (talvez mesmo uma outra “língua românica autónoma”). O que até se compreende, para quem tem uma visão estrita, para não dizer estreita, do que é a Lusofonia – necessariamente, uma realidade plural e polifónica. De resto, a essa luz, até se pode questionar se em todo o território português se fala realmente a “mesma” língua.

Fácil é de perceber que o que esteve em causa, nesse debate, foram duas vias possíveis para a resolução da questão galega: uma insistindo numa via isolacionista, que não levará senão, a curto-médio prazo, à completa extinção dessa singularidade linguístico-cultural; a outra, apostando antes numa crescente convergência com o espaço lusófono (não apenas com Portugal), sem qualquer fantasma de dissolução. A língua que se fala na Galiza será sempre uma variante singular da língua portuguesa, nessa acepção mais ampla e mais profunda do que é a Lusofonia, enquanto realidade plural e polifónica.

Obviamente, a questão galega padece do fantasma político – sobretudo numa altura em que o todo espanhol ameaça desagregar-se. Por isso, compreende-se um especial cuidado por parte das autoridades portuguesas: decerto, ninguém pretende gerar um conflito político-diplomático com Espanha. Simplesmente, por muitos cuidados que se tenham, a verdade é que existe uma singularidade linguístico-cultural na Galiza que, por direito próprio, integra essa realidade plural e polifónica que é a Lusofonia. Com todos os cuidados político-diplomáticos que se devem ter, aja-se, pois, em consequência. A Pátria Lusófona assim o exige.

Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono.
www.movimentolusofono.org

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[Transcrição integral de texto, da autoria de Renato Epifânio, publicado no jornal “PÚBLICO” de 03.11.13. Destaques e “links” adicionados por nós.]