fotoNP1Tem andado acesa, e ainda bem, a discussão em torno da grafia do português. Mas se neste campo ainda se esgrimem argumentos, há uma área onde o aviltar da língua se insinua, sorrateiro, sem que provoque escândalos de maior. Essa área é a da legendagem dos filmes. Não a legendagem pirata, que circula na Internet sem freio, mas a dos filmes no circuito comercial. Um exemplo: até aqui, havia apenas dois tipos de legendas classificadas como português”: as escritas em português europeu e as escritas em português do Brasil. Geralmente vinham identificadas. Agora raramente vêm, e a elas juntaram-se mais dois géneros: o “português” do acordo ortográfico, que circula apenas em Portugal, um “não-sei-quê-guês” que nos é impingido por editoras menos escrupulosas. Há muitos exemplos de erros, má tradução, palavras inexistentes), mas podemos cingir-nos hoje a apenas dois, ambos à venda em DVD: ‘O Processo’ (‘The Trial’), de Orson Welles, ‘1963’, uma edição de Cinecom; e ‘Estacion termini’ (‘Indiscretion of an American Wife’), de Vittorio de Sica, 1952, edição da Sogemedia. São editoras espanholas, mas convém ressalvar que há muito boas (e correctas) legendagens vindas de Espanha.

Comecemos por Welles. Nos primeiros minutos do filme, com Anthony Perkins e Jeanne Moreau, ouve-se o tiquetaque de um relógio e Joseph K. acorda com um homem de gabardina e chapéu a entrar-lhe no quarto, sem pedir licença. Agora leiam este diálogo fantástico: “Espera à Srta. Burstner?” “Não, que ocorrência. Não. Porquê?” “Como pronunciou o seu nome…” “Quando?” “No momento de entrar eu.” “Vinha você do seu quarto e eu… Que faz aqui? Quem és? Que faz no meu quarto?” “A Srta. Burstner entra de noite, por essa porta? Normalmente? “Não, senhor. Nunca. Essa porta está sempre fechada. A Sra. Grubhach tem a chave. O pode perguntar a ela. Onde está? Sra. Grubhach.” “Sem dúvida você espera à Sra. Grubach.” “Não espero a ninguém. E muitíssimo menos a você.” (“Onde vai?”, pergunta o intruso, mas não se deram ao trabalho de legendar.) “A Sra. Grubach se assombraria se soubesse que a gente se passeia tranquilamente por seu apartamento em plena noite.” Mais tarde, já no tribunal, K.(Perkins) diz: “Convido, publicamente, ao juiz de instrução a que dê as suas ordens em voz alta e em términos claros. Não haverá lugar a dúvidas, a minha detenção, as condições deste interrogatório e a razão de ser desta organização constitui-se nisto. Se elige a qualquer um, se lhe acusa e se lhe julga.” E, virando-se para a ruidosa audiência, tem esta tirada espantosa (só na legenda): “Quando me aplaudiais era para embaucar-me. A nao ser que vos proponhais burlar-vos de mim. Há mil e um exemplos. No fim, lemos: “Este filme está baseada num romance de Franz Kafka.” Pelos exemplos, não é difícil acreditar no “baseamento”…

Mudemos agora de bobina, perdão, de disco. No início de ‘Estacion Termini’, Jenniferjones está na estação central ferroviária de Roma e telefona ao sobrinho, dando-lhe um recado para a empregada: “Está? Paul, sou a tia Mary. Necessito a tua ajuda. Apanha uma das minha malas, a mais grande e diz-lhe à donzela [no inglês do filme ouve-se “maid”] que recolha tudo o que possa. Estou na estação. Vou-me. Não, não passou nada… Mas tenho que apanhar o avião de regresso em Paris. Ah! Não te esqueças do abrigo de peles. Saio no comboio das sete para Milão. Estarei esperando-te. Muito bem, mas dá-te pressa.” Quando Jennifer reencontra o amante italiano na gare (Montgomery Clift), chega o sobrinho a correr: “Tia Mary, tia Mary. O consegui. O fiz.” Ela responde: “Obrigado, Paul, és muito amável. Dá-lhe um beijo à tua mãe. E outro para ti também. Te quero muito.” “Que passou? Lhe passa algo ao tio Howard?” “Não, não. Todos estão bem.” “Subo a mala ao comboio?” “Não obigada querido, o moço se encargará.” Jennifer e Clift conversam na gare. Passa um homem a vender esferográficas. “Penas. Quer uma pena? Uma pena.” Ele manda-o embora. No final, ao descer do comboio, depois de (contra vontade) deixar Jennifer, Clift cai. Um homem acerca-se dele e pergunta-lhe (diz a legenda): “Maguou-se?” Ele levanta-se, diz-lhe que não.

E é verdade. Se houve aqui alguém ou alguma coisa que se magoou foi a língua portuguesa. Escrita, falada, pouco importa. Por este caminho, acabará num destroço. E sem a mínima salvação.

publico

[Transcrição integral de artigo publicado na revista “2” (suplemento do jornal “Público“) de 29.12.13, da autoria do jornalista Nuno Pacheco (director-adjunto do jornal).]