Nota prévia de ILC AO
Feliciano Barreiras Duarte foi o deputado que produziu o relatório final sobre a Petição/Manifesto de Vasco Graça Moura e outros, há quase 5 anos.
Neste texto vem expor mais uma vez a já velha e gasta rapsódia da “revisão” do AO90, essa “curiosa” mania de alguns, mas mesmo assim lá vai dizendo algumas coisas de interesse.

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O (des)acordo ortográfico?

Por Feliciano Barreiras Duarte
publicado em 5 Mar 2014 – 05:00

“É longo o caminho do projecto à coisa” – Molière

Ao debater-se e fazer-se a avaliação da aplicação do Acordo Ortográfico em Portugal e nos demais estados do espaço lusófono, devemos fazê-lo sem abusar do generalismo e da ironia. Independentemente de sermos a favor ou contra, não só da sua aprovação, mas acima de tudo da sua suspensão e ou alteração e melhoria. Porquanto se trata de uma matéria respeitante apenas ao Estado e à soberania. E nessa discussão não nos devemos deixar (salvo melhor opinião) iludir com a “doutrina da inevitabilidade” a que alguns, por desconhecimento, nos querem fazer resignar. Sabendo-se, infelizmente, que nos tempos em que vivemos, para muitos, esta é matéria é aborrecida, densa e que dá trabalho perceber, estudar, compreender. Aliás, muitos dos que emitem opinião sobre matérias desta natureza acham mais normal colocar um post num blogue ou fazer comentários no facebook, em brevíssimos minutos, que pegar de caras uma matéria que mexe com a reserva não escrita não só da nossa soberania, mas sobretudo no baú único e imaterial da nossa genética e evolução linguística, dentro e fora de portas. Não é por acaso que mesmo depois da aprovação formal do Acordo Ortográfico em Portugal e fora de Portugal passamos a vida a falar do Acordo Ortográfico. Entre as múltiplas razões para essa discussão permanente, sobressai, quanto a mim, uma que é lapidar. Na forma e no conteúdo, o Acordo foi aprovado à pressa, não fazendo parte do seu conteúdo vários aspectos “técnicos” que o tempo veio a provar que eram (são) pontos fracos graves. Mesmo para alguns dos seus principais defensores, como o professor Carlos Reis (que realizou um excelente estudo sobre a importância económica da língua portuguesa), que já fez saber da necessidade de se proceder a várias alterações. Por forma a que a língua portuguesa tenha condições, por via do Acordo Ortográfico, para se assumir como um dos instrumentos mais estruturantes e integradores de todo o espaço lusófono. Por isso devem-se aproveitar todos os contributos para que assim seja. Em particular os contributos de quem discorda do mesmo, e que tantas sugestões têm feito para que se transforme num instrumento positivo do reforço da lusofonia, a vários níveis. Só critérios político-diplomáticos, fundamentados na observância estrita de compromissos de Estado ao mais alto nível e critérios jurídico linguísticos nos devem fazer não aceitar a suspensão, por si só, deste acordo interno e internacional no âmbito da CPLP. Não fora isso, a conversa seria outra. Sobretudo para alguns membros de órgãos de soberania, que persistem em não dedicar mais do que o tempo de um post, de um clique, a matérias desta natureza. É por isso que nas coisas sérias e importantes é longo o  caminho de se teorizar sobre um projecto, estruturá-lo bem, estabilizar a metodologia correcta para a sua aplicação e obter resultados positivos. Mas isso é só para alguns. Que vão estando em minoria. Mas que não se importam.

[Transcrição parcial de crónica, da autoria de Feliciano Barreiras Duarte, publicada no jornal “i” de 05.03.14.