publicoA notícia foi desanimadora e a explicação não ajudou. Na famigerada PAAC (dita prova de avaliação e conhecimento e capacidade), 62,8% dos professores deram erros ortográficos. Teria sido incumprimento do Acordo? Dizem que não. Por esse motivo, só 10%, diz o Iave (Instituto de Avaliação Educativa). Ora no textinho de 250 a 350 palavras que cada professor teve de escrever de sua livre criação (o que dá uns 1600 a 2300 caracteres já com espaços, coisa pouca), 90% dos erros nada tiveram a ver com o Acordo mas sim com, cite-se o Iave, “uso incorrecto da acentuação (cerca de metade do valor total), troca de vogais, troca de consoantes ou uso incorrecto de consoantes, aplicação incorrecta do plural e registo incorrecto de formas e de conjugações verbais”. Ora a mensagem que recebi via telemóvel, a sintetizar isto, dizia: “Metade dos erros dos professores sao de acentuacao” (sic).

Será, então, culpa dos telemóveis? Das mensagens rápidas? Da informática? Será que de tanto suprimirmos acentos para poupar tempo deixámos de saber usá-los? A hipótese não é descabida, mas é melhor culpar o desleixo. Os telemóveis e computadores têm acentos para quem os queira ou saiba usar, a pressa não justifica nada, mas é de notar que em muitos textos que por aí circulam, públicos ou nem tanto, lemos “pais” por “país”, “politica” (do verbo politicar) por “política”, etc. E tais descuidos não pensem que só os encontram em jovens apressados ou principiantes da escrita. Praticam-no, regularmente, políticos, magistrados e até catedráticos. Aliás, era curioso ver a tal PAAC entregue a cada um dos membros do Governo (deste ou dos anteriores) e pesar depois o resultado. Descontando o Acordo, teríamos belíssimos exemplos.

Mas voltemos à ortografia, esse bicho que nos corrói a escrita e o juízo consoante os mandantes de cada época. Imaginemos, por um momento, que os doutos avaliadores de hoje tinham pela frente um texto assim: “O Brazil recebêra o impulso de Portugal, e conjunctamente com a mãe patria proclamára a liberdade.” Chumbado, claro. Acentos a mais, outros a menos, vogais em excesso ou trocadas. Ou este: “Pois se Deos não quiz que a sujeyçaõ de Portugal a Castella fosse perpetua, porque haõ de querer, & porfiar os homens, em que o seja?” Chumbadíssimo, por maioria de razão avaliadora. Ora experimentemos este: “Sperae! Cahi no areal e na hora adversa / Que Deus concede aos seus/ Para o intervallo em que esteja a alma immersa/ Em sonhos que são Deus”. Como não chumbá-lo, de tão estranhas as palavras usadas? Ah, mas não viram tudo. “Passa o vento os do portico da igreja/ Esculpidos umbraes: correndo as naves/ Sussurrou, sussurrou entre as columnas/ De gothico lavor: no orgam do côro/ Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.” Pesado chumbo, em tão emaranhada escrita. Tentamos este: “Pois que direy daquelles que em delicias,/ Que o vil ocio no mundo traz consigo,/ gastão as vidas, logrão as divicias,/ Esquecidos de seu valor antigo:/ Nascem da tyrania inimicicias,/ Que o povo forte tem de si inimigo,/ Contigo Italia fallo, já sumersa/ Em vícios mil, & de ti mesma adversa.” Como não chumbá-lo, hã? Arrisquemos ainda este, a fechar o exercício: “(…) se o padre Bartolomeu de Gusmão fosse santo, seria um sinal do céu, Que é ser santo, senhor Escarlate, Que é ser santo, Blimunda.” Pontuação errada, fala desconexa. Chumbe-se, claro!

Pois bem: se este episódio fosse verdadeiro, teriam acabado de chumbar, nas suas ortografias originais, Almeida Garrett, Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Alexandre Herculano, Luis Vaz de Camões e até mesmo Saramago. Mas se foram Camões, Vieira ou Herculano quem moldou a língua portuguesa na modernidade, como se explica que a sua escrita (não as suas “actualizações” ao sabor das modas ortográficas) seja para a quase totalidade dos portugueses estranha? Explica-se de forma simples: cada ortografia procura esconder as anteriores, como se fossem erro ou crime. Em lugar de dar instrumentos aos aprendizes da língua para nelas se embrenharem, tirando prazer dessa descoberta, anulam-nas como se nunca tivessem existido. Mal comparado, seria como ouvir hoje Bach, Beethoven ou Mozart apenas com instrumentos electrónicos. Chumbem Vieira, Pessoa ou Camões: os chumbados sereis vós.

 

[Transcrição integral de texto, da autoria de Nuno Pachecopublicado no suplemento “Ipsilon” do jornal “PÚBLICO” de 17.08.14. “Links” e destaques adicionados por nós.]