Facebook_iconMas a língua, Senhor Malaca?

Vou falar do Acordo Ortográfico. Poucas coisas podem hoje ser dadas por adquiridas. Estabilidade é uma palavra em desuso. O amor já não é até que a morte nos separe e os empregos muito menos são para a vida. Sabemos que estabilidade a sério só na morte, e era agora ou nunca que desatava a falar de entropia e de termodinâmica. Deixo isso para José Rodrigues dos Santos, cujo último livro, que não li, sei que se atira à jugular da quântica.

Se não li o mais recente de JRS, li há já uns anos “Imposturas Intelectuais” de Alan Sokal e Jean Bricmont, o que até hoje me deixou sempre de pé atrás quando ouço alguém referir gatos fechados em caixas. Acrescento que fora eu do sexo masculino, a afirmação de Lacan lá transcrita de que o “órgão eréctil (…) é igualável à raiz de -1” ter-me-ia tornado impotente. Descartado tal problema, exponho outro. Como saltar do “órgão eréctil” para o AO? Fácil. Ao “órgão eréctil” foi-lhe capado o cê.

Recordemos. As consoantes mudas são eliminadas quando não proferidas na pronúncia culta. No caso, o cê foi à vida, o que quer dizer que se alguém insistir em pronunciar “eréctil” isso significará que é um grandessíssimo bronco (a boa notícia é que, sendo bronco, não é necessariamente impotente). Estamos, pois, assim. Viva a fonética! Hipótese: em Portugal existe um grave problema de surdez. Ou isso, ou quem assinou o AO deve responder por crime de lesa-língua (as duas teses não se excluem entre si).

Vou ser franca. Nunca vi tanta asneira escrita. Nem o “Diário da República” escapa. Exemplos? Aos molhos. “Fato” por “facto”. “Fição” por “ficção”. “Corrução” por “corrupção”. “Recessão” por “receção” (já agora, que raio é “receção”?) “Ténico” por “Técnico” (pela minha saúde!). “Contato” por “contacto” (um clássico já perfilhado pelos impressos dos CTT e vários ministérios…). Dir-me-ão. A culpa não é do AO. Os portugueses é que são uma cambada de broncos (ou surdos, na versão mais branda).

Ora bem, e agora que me perdoem o Sokal e o Bricmont. Um homem conduz um carro a alta-velocidade e embate num poste de alta-tensão. O poste cai e o condutor sofre queimaduras fatais. A autópsia revela uma taxa de alcoolemia 100 vezes superior à necessária para anestesiar Bukowski. A escolástica diria que a causa da morte foi Deus. Eu, modestamente, limito-me a concluir: alguém, por amor de Deus, revogue o suicídio acelerado da língua. Sem esquecer que estamos a morrer orgulhosamente sós.

Ana Cristina Pereira Leonardo

[Transcrição integral de “post” (público), da autoria de Ana Cristina Pereira Leonardo, publicado na “rede social” Facebook em 24.11.14 às 13:45 h. “Links” adicionados por nós. Via João Roque Dias.]