Ora aqui está um artigo muito interessante, sob diversos aspectos. O autor deste texto, Feliciano Barreiras Duarte, foi também o autor do “Relatório Final referente à Petição n.º 511/X/3.ª” (“Em Defesa da Língua Portuguesa“, 2008), promovida por Vasco Graça Moura e outros; neste relatório, o próprio Barreiras Duarte refere:

«As preocupações e alertas dos peticionários são relevantes e devem ser tidos em conta, do ponto de vista técnico e político, a curto e a médio prazo.
O Governo deve promover e valorizar, ao longo de todo o processo, a colaboração especializada da comunidade científica e demais sectores cujo conhecimento ou actividade são de inegável utilidade.
»

Pois agora, quase seis anos depois de aquelas (suas próprias) recomendações não terem surtido o mais ínfimo efeito prático, pergunta ele: «E por falar disso, como está e onde anda esse Acordo Ortográfico?»

Bem, está mal, está muito mal (felizmente, e ninguém lhe deseja as melhoras), está ainda pior do que sempre esteve e anda por aí a espalhar o cAOs, a desortografia.

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As leis do poder.

O português como uma das línguas do “poder”

Por Feliciano Barreiras Duarte
publicado em 9 Fev 2015 – 09:04

Porque é que o português ainda não é uma língua oficial das Nações Unidas?

“O inglês é a língua mais fácil de ser mal falada”. Winston Churchill

Algumas projecções da UNESCO, atestam-nos que daqui a mais ou menos três décadas, o mundo poderá vir a ter cerca de 400 milhões de falantes do português. Bem se poderá colocar, a pergunta simples – afinal de que estamos à espera? O que nos faz (e tem feito) continuar estáticos perante uma língua com oito séculos de vida e de grande potencial? Bem sabemos que a desvalorização de algumas ciências sociais tem criado muitos analfabetos e iletrados especializados quase só em generalismos e blogosferismos que não conhecem minimamente a importância do português, como língua dentro e fora de portas, no nosso país. Também devido a exemplos negativos desse tipo é sempre bom termos presente que foi com base no testamento de D. Afonso II, feito a 27 de Junho de 1214 (que é o mais antigo documento régio ao nível do reino e do Estado e que é uma espécie de carta de Alforria do português como língua oficial) que se pode afirmar com toda a propriedade que o português tem 800 anos de vida (desde D. Afonso II e depois com D. Dinis tem beneficiado desse estatuto em detrimento do galaico português e do latim). Se existe desígnio, que nos deve mobilizar e unir é o de projectarmos e concretizarmos uma estratégia que ao nível institucional permita conferir, ao português, o estatuto de língua oficial em vários fóruns e organizações internacionais e mundiais, fazendo do português uma das línguas do “poder”. Informalmente mas sobretudo formalmente. Precisamos de consensualizar, defender e implementar uma política para a língua portuguesa, muito agressiva. O português não se pode resignar a ser uma língua de comunicação. Tem também de ser uma língua de cultura, da universidade, da investigação científica, da sociedade de informação, do comércio, do turismo, do desporto, dos negócios, da economia. Nas sociedades contemporâneas a valorização e a projecção das línguas, como instrumentos vivos de dinâmicas de comunicação e de poder, têm vindo a assumir (e assumirão cada vez mais no futuro) especial preponderância. Quem se atrasar a percebê-lo erra quase tanto como ao não pôr as suas contas públicas em ordem. O valor e o impacto das línguas são enormes. Como é o caso do português. Que não se pode resignar a ser apenas uma língua da rua, da loja, do espaço comercial e ou da conversação banal. Antes pelo contrário. Tem de ser também uma língua de estudo, de comunicação e de grande utilidade, nos negócios, nos meios académicos, universitários e de investigação científica, das artes e do cinema e sobretudo nos centros de poder.

E a esse propósito, porque é que o português ainda não é uma língua oficial das Nações Unidas?

Muita coisa continua infelizmente a passar-nos ao lado. Por exemplo, actualmente, o Parlamento português tem entre mãos a aprovação de uma alteração aos Estatutos da Organização Mundial do Turismo para que o chinês ganhe a dignidade institucional de língua oficial desta organização económica, a par do inglês, francês, russo, espanhol, e árabe. E, neste caso concreto, impõe-se uma pergunta simples também – para quando o português também ser aprovado como uma das línguas oficiais do turismo mundial?

O exemplo da valorização da língua, deveria muitas vezes vir de quem ao mais alto nível (em Portugal e fora de Portugal) representa o Estado português. Que mesmo no seu país, em muitas reuniões e actos oficiais, de forma fácil e infeliz, utiliza línguas diversas que não a sua, desvalorizando-a gravemente. Quem tem mundo e experiência nessas matérias sabe que “esse complexo” relativamente à utilização das línguas maternas não existe com os árabes, os espanhóis e os franceses. Em suma, à escala mundial, precisamos de mais e melhor regulação linguística, actualmente quase inexistente. Não nos iludamos. Para o português entrar na primeira divisão e solidificar-se como uma das línguas do “poder”, tem de ter uma estratégia muito política e diplomática. Também por isso, porque não dentro de portas, resolvermos alguns pendentes graves. Como por exemplo o da obrigatoriedade da utilização do português pelos principais dignitários do Estado português. E já agora porque não de vez resolver tudo o que diga respeito ao Acordo Ortográfico? E por falar disso, como está e onde anda esse Acordo Ortográfico?

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Feliciano Barreiras Duarte, publicado no jornal “i” de 09.02.15. A imagem de topo foi retirada também da notícia, sem menção de autoria.]