Estamos com o “Público” na defesa da nossa língua. E ainda bem que Nuno Pacheco salienta o ridículo da situação a que nos conduziu uma classe dirigente na sua maioria inculta. Entendo aqui cultura como “conjunto dos conhecimentos adquiridos que permitem desenvolver o sentido crítico, o gosto, o discernimento” (vd. Petit Robert). No mesmo sentido, recorde-se a conhecida frase “La culture, c’est ce qui reste quand on a tout oublié” (Herriot) – a cultura é o que fica quando se esqueceu tudo. Este conceito de cultura situa-se nos antípodas do apreço pelas modas súbitas e avassaladoras, que exercem entre nós uma sedução irresistível. Tudo menos correr o risco de passar por “retrógrado”, “antiquado”, “passadista”!…

Ora, justamente, a nossa língua materna não é, por definição, um gadget de última geração. Não foi inventada por nós nem no nosso tempo. Ela é património essencial do povo português. E a ortografia, face visível, significante, da palavra rege-se por convenções e regras meditadas e aperfeiçoadas ao longo dos tempos por especialistas e estudiosos conhecedores da nossa língua. É pois preservando a sua dignidade – o que inclui o respeito pelo modo como se escreve graficamente – que ela conservará o seu prestígio e permanecerá uma referência para nós e para todos aqueles a quem a nossa História comum a levou.

Maria José Abranches

Este texto foi publicado, neste mesmo site, por Maria José Abranches, como simples comentário a um “post”. Importante de mais, demasiadamente bem escrito para ficar “desterrado” nessa redutora condição. Não é um simples comentário, é todo um manifesto.