Se queres mel, suporta as abelhas, escreveu, no século XVI, Erasmo de Roterdão (séc. XVI), máxima que se aplica a todos os tempos e que põe em evidência quanto perdemos em dignidade, desistindo da nossa intervenção crítica.

Entre muitas outras situações, em que revemos, directa ou indirectamente, aquelas palavras, sobressai a forma como nos foi imposto o Acordo Ortográfico de 1990, apresentado como uma espécie de «mel» que facilitaria a escrita, simplificando consequentemente a língua portuguesa, justificação, aliás, em sintonia com a pouca exigência que reina também no Ensino. Com efeito, nada menos científico e, aparentemente, mais melífluo, pela apregoada facilidade, do que «escrever como se pronuncia». Mas estranhamente, e na lógica do absurdo, multiplica-se a publicidade de acções de formação, pagas pelos inscritos, com o intuito de os ensinar a escrever à moda do Acordo Ortográfico que, afinal, surgira para simplificar a escrita.

Foi assim que um grupo de linguistas, portugueses e brasileiros, mascarados de investigadores competentes, entrou em cena, representando o deplorável espectáculo do Acordo Ortográfico. E, por incrível que pareça, este trabalho, jogo de cedências desiguais na dependência do mais forte, foi também justificado pela necessidade de a língua evoluir. Viemos a saber, posteriormente, por diversas intervenções de actores e apoiantes, que o argumento de peso tinha afinal sido a dimensão populacional do Brasil, face aos restantes países da CPLP, e que em nome desse novo valor «democrático» se justificava a decisão tomada, ao arrepio da opinião crítica de inúmeros linguistas e dos próprios falantes. Adequada também a uma estranha postura democrática foi a alteração, de cariz colonialista, que ditada pela pressa de assinar o referido Acordo, abdicou da exigência de unanimidade entre os oito países constituintes da CPLP, tendo bastado a aprovação de Portugal, Brasil e Cabo-Verde.

Porque tudo depende de nós, impõe-se que não desistamos desta Causa, aproveitando a possibilidade de intervir com mais consistência através de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC), com força de projecto de lei, com a finalidade de revogar a Resolução da Assembleia da República nº 35/2008 que determinou a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990. O processo é exigente, pois requer a recolha de 35.000 assinaturas em papel, encontrando-se toda a documentação no endereço https://ilcao.cedilha.net.

Apelamos a todos os que não concordam com este Acordo Ortográfico que divulguem esta ILC e recolham o maior número possível de assinaturas.

Maria do Carmo Vieira (22 de Abril de 2010)

[Texto recebido por email.]