Adeque o seu vocabulário

Por José Diogo Quintela

É o que recomendo. Gostava de fazer um sério apelo ao povo português para que adeque sem demora o seu vocabulário ao novo Acordo Ortográfico (AO). Começando precisamente por perceber que adeque não é a forma como o general Ramalho Eanes se refere à associação de defesa do consumidor (por exemplo em “Portuguesas, portugueses, para decidir a marca de máquina de secar que hei de comprar, consulto a Proteste, a revista d”adeque”). Depois do AO, adeque substitui adeqúe como forma verbal do verbo adequar.

“Tem certeza, Zé Diogo? Peço-lhe que averigúe bem”, roga-me o leitor. Que está duplamente enganado. Primeiro, porque, por uma vez nestas crónicas, averiguei mesmo um facto. Depois, porque na vigência do novo AO, já não é averigúe, mas sim averigue. Que Ramalho Eanes, se tivesse passado muito tempo no Norte do país, também usaria em “começou a chover, vou encontrar um averigue onde me possa proteger. Quando chegar a casa, vou meter as ceroulas na máquina de secar recomendada pel”adeque”.

Mas a excelência deste AO não é só linguística. Também é médica. Uma das virtudes do Acordo Ortográfico é resolver um problema que afecta mais de 500 mil portugueses. Com a entrada em vigor deste AO, desaparece a disfunção eréctil. O AO faz administrativamente num instante o que o Viagra anda a tentar fazer quimicamente há anos. De repente, os homens portugueses deixam de ser afectados por dificuldades na erecção. Agora, no máximo, são afetados por dificuldades de ereção. O que não parece assim tão grave: não só uma erecção sem o c, mais curtinha, parece logo menos pujante, mas também uma afetação tem ar de não maçar tanto. Até por causa disso os preservativos já não precisam de ser tão seguros. Basta-lhes ser um contracetivo e chega.

O próprio Homoerectus, desde que passou a eretus, ficou um bocadinho mais dignificado. O que se percebe. “Erectus” em latim quer dizer erecto e, segundo o Google translator, “eretus” quer dizer “ere incenso”. Portanto, depois de extinto este semimacaco, ainda é promovido. Passa de um hominídeo cujo único e discutível mérito é andar direito para um que tem qualquer coisa charmosa (e imperceptível) a ver com incenso. Porventura um homem das cavernas sensível, que se preocupava com o cheiro da gruta onde dormia.

Apesar de tudo, incrivelmente, o AO tem os seus detractores. Ou, como os apoiantes do AO lhes chamam para os amesquinhar, “detratores”. Há muita gente que fala publicamente contra o AO. Numa atitude algo hipócrita, diga-se. Dizem-se contra o AO mas, aceitando o que o AO institui, passaram de espectadores para espetadores. Eram pessoas que assistiam à discussão sem interferir, agora espetam coisas no AO. E querem discutir melhor este acordo, numa espécie de debate colectivo. Não sei se não prefiro que o debate seja antes coletivo. Uma discussão onde só falam as pessoas que gostam de usar colete.

[Transcrição integral de crónica da autoria de Zé Diogo Quintela publicada na revista “Pública” (distribuída com o jornal Público) de 18.09.11. Link disponível apenas para assinantes.]
[Digitalização do texto: Paula Blank.]
[Imagem (recorte) do blog Bic Laranja.]

José Diogo Quintela subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.