Há motivos de sobra para suspender a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 em Portugal. Aqui ficam alguns, para quem os quiser ler. O importante é esclarecer e não tomar o AO90 como um dado adquirido, pois não tem de o ser. Temos uma palavra a dizer, basta querermos. Neste caso, basta assinar e enviar o impresso de subscrição da ILC. Pode fazê-lo agora mesmo e ajudar a impedir a instituição de um absurdo. Colabore!

a) O AO90 não é ortográfico, é matemático e político. Senão vejamos: Portugal tem 10 milhões de habitantes; o Brasil tem quase 200; os restantes países de expressão oficial portuguesa terão cerca de 50 no total. Neste “acordo”, quem deu cartas foi o Brasil. Nós só cedemos, em tudo. Do lado de lá praticamente não houve alterações. Não é um acordo, é uma declaração de subserviência. É a imposição de uma ditadura ortográfica. Enquanto país, julgo que está na altura de recuperarmos a nossa independência e, já agora, alguma dignidade e auto-respeito. Nesta equação, importa ainda não esquecer que Angola e Moçambique, dois outros países com mais falantes do português do que Portugal, não adoptaram ainda o AO90 (com o que só merecem a minha admiração e vénia) e muito menos o irão aplicar na prática tão cedo.

b) Dizerem-me que trocar “óptimo” por “ótimo” não faz diferença, pois diz-se da mesma forma, é como dizerem-me que trocar azinheiras por eucaliptos não faz diferença, pois ambos são árvores, e que a floresta fica basicamente na mesma. Ou dizerem-me que trocar os castelos por arranha-céus não faz diferença nenhuma, pois é preciso evoluir e, afinal de contas, são apenas zero vírgula não sei quantos por cento dos elementos que constituem as localidades. Só podem estar a brincar. (Mas não duvido que aparecessem argumentos a favor!!)

c) O AO90 não cumpre qualquer dos seus objectivos declarados. Para começar, não uniformiza coisíssima nenhuma. Mesmo que uniformizasse (“unificar” é apenas uma palavra encapotada para “uniformizar”), qualquer tradutor sabe que, nem que a ortografia fosse igualzinha, não é possível pegar num texto técnico de português do Brasil e usá-lo directamente em Portugal, nem vice-versa. Não usamos a língua da mesma forma. Usamos termos diferentes. Construímos as frases de forma diferente. Digamos que os tijolos são os mesmos, mas o edifício resultante é outro. Qualquer pessoa que já tenha lido instruções de um aparelho qualquer em português do Brasil percebe isto. Então de que serve “unificar”? Serve para sermos inundados de livros e textos brasileiros mais facilmente, pois virão com ortografia “unificada”. Para quem acha que o inverso também é verdadeiro, desengane-se, pois os brasileiros, ao contrário de nós, sabem proteger o seu mercado e defender o que é seu.

d) Não considero que a uniformização seja sequer um objectivo desejável. Na Biologia, a diversidade é sinal de riqueza e de saúde do ecossistema. Na língua também. Acho óptimo que o português tenha tantas variantes, do “português com açúcar” do Brasil ao português falado em Timor-Leste. A diversidade contribui para a sua riqueza enquanto idioma e demonstra como se adaptou bem pelo mundo inteiro. Todas as variantes têm os seus defeitos e virtudes. Não vejo qualquer problema nisso e acho que um acordo ortográfico bem elaborado deveria respeitar esta diversidade e não procurar limá-la à machadada, por um critério exclusivamente fonético. O português do Brasil está a derivar, evoluindo numa direcção própria – e daí? Deixá-lo. Não temos de ir atrás dele nem de vender o nosso património cultural por causa disso, ficamos imediatamente mais pobres.

e) O AO90 é uma fabricação completamente artificial. Só assim se explica que neste momento, por vontade do acordo, apenas em Portugal se escreva “receção”, enquanto no Brasil se continua, e muito bem, a escrever “recepção”. Ou talvez o melhor exemplo aqui seja mesmo “deceção”…? Alguém achou, baseado não sei em quê, que o português de Portugal iria evoluir nesse sentido, mas eu não vejo quaisquer evidências disso (tal como não me lembro de ver ninguém particularmente aflito por ter de pôr um acento em “pára”…). Por falar em evidências, onde estão os estudos que mostram que o AO90 era uma boa ideia e não apenas um pretexto para algumas editoras venderem dicionários novos?

f) O AO90 não é uma evolução da língua, é uma deturpação. Não entendo este ataque feroz às consoantes mudas, que têm uma função perfeitamente definida. A minha avó, que foi quem me ensinou a ler e escrever, explicou-me que não se dizem mas que, ao falar, moldamos a saída do som quase como se fôssemos dizê-las e que isso muda a forma como a palavra é dita (ora experimentem dizer “actualizar”, devagarinho, e digam-me se o “c” está lá ou não está; agora digam “atualizar”… muda toda a dinâmica da palavra). Por isso, obviamente, não pode escrever-se da mesma forma em Portugal e no Brasil, pois temos pronúncias completamente diferentes. Isto parece-me absolutamente evidente. Nunca na vida “fracionar” e “fraccionar” se lerá da mesma forma – julgo que nem os mais acérrimos defensores do AO90 poderão negar isto.

As imensas duplas grafias introduzidas no AO90, por exemplo, em caracterizar/caraterizar, olfacto/olfato, etc., mostram bem como é precipitado eliminar estas consoantes em Portugal. Seguir o caminho da simplificação indiscriminada, indo por atalhos fonéticos que nem sequer são nossos, é cair no ridículo que ilustra este texto (mesmo não sabendo inglês, vê-se bem a deturpação progressiva das palavras, até ficarem sem sentido nenhum; além disso, a Sociedade Inglesa de Ortografia lançou este texto como uma brincadeira… em Portugal há, curiosamente, quem defenda o AO90 com argumentos muito semelhantes!).

A propósito, como será que o inglês conseguiu afirmar-se mundialmente, se ainda usa arcaísmos como o “ph” (sim, por exemplo em “pharmacy”!!) e o duplo “L” (por exemplo em “allergy”)? A questão aqui é que não é sequer a “modernidade” ou a evolução da língua que estão em causa, trata-se apenas de uma sede de poder e influência (não esquecer que o Brasil é uma das maiores economias emergentes actualmente e que há sempre quem ache que imitar os poderosos os torna poderosos também… torna-os numas muito tristes figuras, isso sim), e não será certamente a ortografia que virá resolver seja o que for nesses domínios.

Não pode obliterar-se a História e a origem das palavras e dizer-se que isso não é importante. O que vem a seguir? “Umidade”? “Kestão”? Olhamos para as palavras do “acordês” e sabemos instintivamente que não são nossas, embora pretendam substituir as nossas. Mesmo que as consoantes mudas não tivessem efeito nenhum nas palavras (o que não é verdade, pois ora suavizam, ora acentuam as letras que lhes estão adjacentes), a forma como escrevemos faz parte da nossa identidade nacional. Não me parece que seja esta a melhor altura para nos roubarem isso. Os símbolos não são insignificantes.

g) Um acordo ortográfico não deveria causar tamanha perturbação na sociedade, deveria antes funcionar como uma actualização de software, instalando-se facilmente sem causar perturbações de maior aos utilizadores. Este AO, ao causar a resistência e as dificuldades que se vêem, já mais do que demonstrou não ser adequado. Não o queremos, obrigada. Se fosse um pacote de software, a caixa de reclamações do fabricante já estaria entupida e o produto seria recolhido e aperfeiçoado até estar à altura das expectativas dos consumidores. Mas infelizmente não o comprámos por nossa vontade (muito embora estejamos a pagá-lo bem caro), está a ser-nos imposto e lamentavelmente parece que ninguém ouve as reclamações dos utilizadores. De qualquer forma, aqui fica o meu recado aos Exmos/as. Senhores/as responsáveis pelo AO90: se é que um acordo ortográfico é mesmo necessário a esta altura, voltem à mesa de trabalho e apresentem-nos uma alternativa com pés e cabeça. Talvez então consigam vendê-lo sem ser à custa de publicidade enganosa.

h) O AO90 é um desperdício brutal de recursos. Quando penso que, por causa do AO90, de repente todas as bibliotecas do país ficarão obsoletas, todos os documentos que temos em casa ficarão ultrapassados, toda a sinalética terá de ser alterada, todos os websites terão de ser revistos, tudo quanto está impresso terá de ser trocado, simplesmente por estar escrito em português perfeitamente correcto… não consigo compreender. Parece-me um desperdício absurdo, ainda para mais na actual situação do país. Parece-me um crime. Em suma, parece-me uma estupidez sem nome. Mas, pior que isso, é perguntar duas coisas: tudo isto porquê? Para quê? Não encontro uma resposta satisfatória a estas perguntas. Não consegui, até hoje, ouvir um único argumento a favor do AO90 que me convencesse. Caem todos por terra se os analisarmos durante 3 segundos.

Para melhor, muda-se sempre. Para pior, não lembra a ninguém…!!

Assine a ILC. É a melhor prenda que pode dar a si mesmo e ao país.

(Já agora, no seu dia-a-dia, não deixe que ninguém lhe diga que tem de passar a utilizar o AO90. Não é verdade. Pelo menos até 2015.)

Hermínia Castro

Bióloga e tradutora, Hermínia Castro é uma das mais dedicadas voluntárias de recolha de assinaturas e de divulgação da ILC. Texto recebido por email.