Editorial

O início deste ano foi marcado pela adopção do famigerado Acordo Ortográfico (AO) no ensino, nos textos oficiais e na Administração Pública. O Governo pretende, assim, dar a machadada final na ortografia nacional, esperando que todos se resignem. A maior parte das pessoas pouco ligou a esta questão até ver o AO a entrar-lhe, literalmente, em casa.

Como escreveu Miguel Esteves Cardoso, este Acordo foi “feito atrás das nossas costas, enquanto dormíamos, por quem estava sempre a acordar”. Mas, agora que está bem à nossa frente, não há desculpa para não o denunciarmos. Há mesmo a obrigação de o recusar de todas as formas ao nosso alcance. Uma delas é assinando a Iniciativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico (ilcao.cedilha.net).

No entanto, a imprensa tem neste caso um papel de especial importância. Mesmo nos órgãos que se apressaram no seguidismo ao AO, vários colunistas mantiveram o que agora se chama “a anterior ortografia”. Acontece que cada vez mais jornais começam a adoptar o AO, mesmo contrariados. É o caso do diário desportivo “A Bola”, um dos jornais mais vendidos em Portugal, que a partir de 2 de Janeiro último começou a escrever com as novas regras. Isto “apesar da divergência profunda e irremediável” e depois de “um tempo de silenciosa resistência a um acordo do qual profundamente discordamos”, nas palavras do seu director.

Foi uma triste notícia e um mau exemplo para todos os resistentes. Ainda assim, continuaremos a ter jornais escritos com duas ortografias. Foi esta a “unificação” que o AO trouxe, na prática.

Nós não adoptamos! (Escrito assim, correctamente, com o “p” que parece ser tão incómodo para alguns). Não é uma questão de teimosia, é por princípio e por dever enquanto portugueses.»
Duarte Branquinho

Editorial da edição desta semana de “O Diabo“.