Vicente Jorge Silva, quando apelidou esta geração de “rasca”, estava longe de imaginar a polémica que iria gerar e ainda gera. Como penso, geração “rasca” foram alguns da minha geração, nomeadamente políticos, que nos endividaram, endividam e que levaram este País a este estado lastimável, onde hoje nos encontramos.

Não obstante, na verdadeira essência, a minha geração foi uma geração “à rasca”, com uma juventude que viveu com a ansiedade e o espectro da Guerra. “Desenrascada” é esta geração de jovens, muitos com o ensino Universitário, que saem com consideráveis capacidades de trabalho, que falam diversas línguas, que dominam a informática e que só precisam de ser humildes, não ostentar os títulos com pompa e circunstância e ganhar experiência, para trabalhar em qualquer parte do mundo. Lá fora, somos apreciados e devemos orgulhar-nos de ser Portugueses.

Sejamos coerentes, somos Portugueses, mas não devemos vender a nossa Língua, como parece estar a acontecer com o novo Acordo Ortográfico; porque a língua é a nossa afirmação no Mundo. Pessoalmente, não vou aderir ao A.O. 90, por imperativo de consciência patriótica. Vejo muitos inconvenientes e nenhumas vantagens. Gostaria que a nossa Sociedade Civil e, principalmente, a nossa Juventude, que não é “Rasca”, se levantasse e não se ajoelhasse. Para isso, já nos basta a Troika.

Este acordo, já apelidado por muitos, como um “acto político de empobrecimento cultural”, deverá ser repensado. Neste sentido, não há nada melhor que consultar o site https://ilcao.cedilha.net/ e obter informações. Aí ficará a saber que não é um “acordo, não é “ortográfico” e não está em “vigor”. Ficará a saber que as cedências foram quase todas de Portugal. Ficará ainda a saber que é inconstitucional, pois o Dec-Lei do último acordo ainda não foi revogado, que a nível da CPLP não foi ratificado, pois não foi aprovado por unanimidade, como é regra, uma vez que Angola e Moçambique ainda não aderiram. Diz quem sabe, que enquanto não houver um vocabulário ortográfico, comum a todos os sete países da CPLP, não é possível aplicá-lo. Há apenas, no nosso País, uma recomendação que não tem valor jurídico. Aliás, o “Jornal de Angola” fez duras críticas ao A.O.90. Sendo Africano, deu uma verdadeira lição de “Bom Português”. Verificará ainda que este “acordo” não constitui uma evolução da Língua. É uma “evolução” inventada por meia dúzia de académicos e imposta pelo Estado. Dois terços dos Portugueses não concordam com esta confusão, que só cria problemas aos Professores, já de si tão sobrecarregados e exaustos de trabalhos. A língua não se muda por decreto, é regulada pelo costume.

Além disso, o A.O. 90 não vem resolver coisíssima nenhuma, uma vez que a ortografia é a menor das diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil. Diz-se ainda que não respeita a Etimologia das palavras, mas isso não são contas do meu rosário; não me reconheço também com competência para discutir o A.O. 90 em termos linguísticos. Já agora e para terminar, os brasileiros não estão igualmente muito contentes com o A.O. 90. Consideram-no um aleijão, linguìsticamente mal feito, politicamente mal pensado e socialmente mal justificado. E o custo social e financeiro de tal negócio?

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João Pires Simões

[Transcrição parcial de artigo da autoria de João Pires Simões publicado no jornal “Diário de Aveiro” de 20.02.12. Recorte e transcrição recebidos por email, do autor.]