Debate Acordo Ortográfico

Edite Estrela e Maria José Leitão

Em texto publicado na edição do PÚBLICO do passado dia 6 e intitulado “Um caso de revisionismo de conveniência”, os drs. Helena Carvalhão Buescu, Ana Isabel Buescu e Jorge Buescu, na sua qualidade de “filhos e herdeiros intelectuais” de Maria Leonor Carvalhão Buescu, acusam as autoras de “Saber Usar a Nova Ortografia” de “abuso e desvirtuamento” do nome da insigne filóloga.

Para se “repor a verdade”, nada melhor do que transcrever o parágrafo que provocou a inusitada reacção: “Ao longo dos séculos, muitos foram os que realçaram a necessidade de regras, revistas periodicamente, no sentido da simplificação e da modernização da escrita. Já em 1536, Fernão de Oliveira, o primeiro gramático português, alertava para a necessidade de novos sinais gráficos para diferenciar a representação das vogais ‘grandes’ (abertas) das vogais ‘pequenas’ (fechadas). Outros gramáticos, como Duarte Nunes de Lião e João de Barros, dedicaram especial atenção aos problemas ortográficos, como bem salientou a autora de “Dois Ortografistas do Séc. XVI”. Maria Leonor Carvalhão Buescu destaca a ‘polémica gramatical’ associada à ortografia, em que ‘as opiniões divergem parcialmente e parcialmente se encontram’, considerando, no entanto, que há ‘como que uma unanimidade entre os ortografistas: a melhor grafia é aquela que se aproxima da pronúncia’ [negrito nosso]. Vão nesse sentido as alterações do novo acordo ortográfico.”

A citação insere-se numa visão diacrónica da questão ortográfica, com o único objectivo de demonstrar que, já no século XVI, os gramáticos reconheciam a necessidade de regras e consideravam preferível a escrita fonética. A citação das palavras de Maria Leonor Carvalhão Buescu é fiel ao texto. Deixamos a interpretação aos leitores. A conclusão relativa ao Acordo Ortográfico é nossa, como é evidente. Ir além disto é leitura abusiva e despropositada.

Ser a favor do Acordo Ortográfico de 1990 é um direito tão respeitável como ser contra. Para defender os nossos pontos de vista, não fazemos juízos de intenção nem recorremos a termos insultuosos, mas não aceitamos ser impunemente acusadas de desonestidade intelectual. Também nós temos um nome a defender como filólogas e autoras de vários livros dedicados à Língua Portuguesa. O direito ao bom-nome a todos abrange e protege e não apenas a alguns.

Edite Estrela
Maria José Leitão

[Transcrição integral de artigo de opinião da autoria de Edite Estrela e de Maria José Leitão publicado no jornal “Público” de hoje, 12.03.12. Link não disponível.]

Isto refere-se a esta mensagem.

Nota 1: aqui, no site da ILC, utiliza-se um corrector ortográfico chamado “olho de lince” para repor a escrita na sua forma correcta (a que está em vigor, porque nunca foi revogada), a única que aceitamos. Por isso o texto acima transcrito foi corrigido, já que o original continha erros ortográficos.

Nota 2: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito e são por definição de interesse público.