QUARTA, 7

Interrogava-me eu há dias sobre o paradeiro dos defensores do impropriamente chamado Acordo Ortográfico (AO), que pareciam ter desaparecido para parte incerta. Dois deles apareceram enfim há dias na televisão. E para quê? Para criticar as sensatas declarações do secretário de Estado da Cultura, que admite alterações pontuais ao AO – aliás o mínimo admissível por parte de quem se mostra capaz de ouvir a opinião pública, largamente contrária ao referido “acordo”, e uma prova de lucidez por parte de quem foi o primeiro colunista da imprensa portuguesa a aplicar nos seus escritos a putativa norma, muito antes de supostamente o ser.

E o que diziam estes advogados do “acordo”? Simplesmente isto: agora não se deve mexer no dito – porque já está. Porque as criancinhas ficariam baralhadas (como se não andasse já tudo baralhado). Porque as editoras de manuais escolares gastariam muito dinheiro (como se isso não tivesse já ocorrido quando se viram forçadas a passar do português para o acordês). Em suma, porque sim.

Nenhuma tentativa de rebater as inúmeras objecções suscitadas por filólogos, lexicógrafos, professores universitários e escritores (de António Lobo Antunes a Manuel Alegre, passando por Miguel Esteves Cardoso, Baptista-Bastos, Manuel António Pina e Vasco Graça Moura, entre tantos outros). Nula capacidade de argumentação perante críticas sérias e severas ao AO, como as que foram há dias suscitadas pelo director da Faculdade de Letras de Lisboa, António Feijó, numa notável entrevista ao diário i encimada pela seguinte pergunta: “Porque é que o Estado há-de entrar nas consoantes mudas?”

A Faculdade de Letras de Lisboa é uma das instituições que recusam impor o AO, alertando pela voz do seu principal responsável – na sequência da recente tomada de posição pública de Graça Moura enquanto responsável do Centro Cultural de Belém – que o que está em jogo nesta questão da língua é, no fundo, uma questão de património comum que não deve ser lesado.

“As pessoas são culturalizadas e socializadas por imersão, através da escolarização, através do contacto, pela leitura, com um certo tipo de ortografia. E essa imersão cultural cria uma relação quase visceral com a ortografia. Porque é que tenho de sofrer subitamente a violência de ver tudo isto alterado?”, interroga-se o director da Faculdade de Letras. Apontando, certeiramente, o caso inglês. “Se virmos outras experiências como, por exemplo, o inglês entre os EUA e a Inglaterra, que tolera grafias diferentes, seria impensável para eles que a ortografia fosse homogeneizada. Nem num país nem noutro ninguém presume que pudesse ser objecto de um acordo. Porque isso violaria uma série de afinidades locais, pessoais, etc, transformando numa questão política o que não é político. O inglês nem sequer é a língua oficial dos EUA, porque a ideia de que o Estado possa definir uma língua oficial é repugnante a uma política liberal. Isto permite a diversidade linguística”, observa António Feijó.

Argumentos inteligentes e bem sustentados, que eu gostaria de ver rebatidos pelos escassos defensores do AO. Infelizmente, estão remetidos à lógica do “porque sim”.

Por Hoje Macau | 13 Mar 2012 |

[Transcrição de artigo publicado hoje, 13.03.12, no jornal Hoje Macau (“online”). Os links foram introduzidos por nós no texto.]
[Nota: este artigo é aqui reproduzido, com os devidos créditos e ligações, tendo em conta o seu manifesto interesse público.]