“Temos uma responsabilidade como pais de parar o Acordo Ortográfico”

Duarte Branquinho

Madalena Homem Cardoso tem 43 anos, é médica e tornou-se a porta-voz de tantos pais que se preocupam com a educação dos seus filhos depois da imposição do Acordo Ortográfico. Enviou uma carta aberta ao ministro da Educação, Nuno Crato, dizendo que não autoriza a sua filha a aprender segundo a nova grafia, por o AO não se encontrar em vigor. O DIABO falou com esta mãe indignada.

O DIABO – Apareceu nos jornais como a “mãe indignada contra o Acordo Ortográfico (AO), depois de ter escrito uma carta ao ministro da Educação. Esperava esta visibilidade?

Madalena Homem Cardoso – Não foi simplesmente uma carta. O destinatário era um ministro, mas a carta tinha como finalidade ser tornada pública. É também uma comunicação pública.

Havia a esperança da visibilidade…
Não só a esperança, mas a intenção deliberada de torná-la um instrumento que faltava na contestação ao AO. Tínhamos já os argumentos dos constitucionalistas ou dos linguistas, mas faltava uma peça acessível a todos que abordasse esses aspectos e chegasse às pessoas comuns.

Há aqui também uma questão sentimental?
Sim, há uma parte emocional que se prende com coisas não facilmente objectiváveis. É a poética da Língua.

O que acha de lhe chamarem a “mãe indignada”?
Eu sou uma “mãe indignada” há muito tempo. Mas agora temos uma mãe e uma filha indignadas. A minha filha também é portadora de indignação ortográfica. Ela aprendeu a ler e a distinguir o “acordês”, até por necessidade. Chegando a tomar a iniciativa de corrigir os livros que lhe eram impingidos na escola. Foi ela até que me chamou a atenção para o problema dos pontos cardeais serem agora escritos em minúscula. Se não tiver maiúscula, “leste” pode ser uma forma do verbo ler, por exemplo. O mesmo nas estações do ano, onde “verão” se confunde com a forma do verbo ver. Todos os casos como este prejudicam a leitura e compreensão de uma frase. Como ela é menor, eu senti-me no dever de a representar.

A sua luta contra o AO surgiu agora?
Não. Desde 1986, quando tinha dezassete anos, acompanhei as intenções do senhor Houaiss, ajudado pelo senhor Malaca Casteleiro aqui em Portugal, e sempre me bati contra o AO.

Tem recolhido várias assinaturas para a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ilcao.cedilha.net). Aproveitou esta visibilidade para essa recolha?
Eu recolho assinaturas há  muito tempo, nos meus círculos próximos. Até agora consegui quase três centenas. Também organizei três acções públicas, sendo a primeira na Fundação Calouste Gulbenkian, a segunda no Metropolitano de Lisboa e a última na Feira do Livro que decorre agora no Parque Eduardo VII. Aí, é claro que o impacto da carta, que foi muito grande, se notou.

Desta vez houve um “encontro do terceiro grau”…
Foi muito engraçado, porque  não estava nada à espera. Tinha o grupo à minha espera e, quando me dirigia ao encontro deles, vi uma aglomeração de jornalistas à volta do Secretário de Estado da Cultura, que visitava a feira. Decidi entregar uma cópia da carta a Francisco José Viegas.

Qual foi a reacção dele?
Fez um grande sorriso e perguntou-me “Então foi você que escreveu a carta?”. Agradeceu-me, mas disse que não precisava porque já tinha em formato digital e que já a tinha lido. Mas disse que tinha todo o gosto. Foi muito efusivo.

Não fez críticas?
Não.  Eu fiquei muito surpreendida quando vi reproduzidas na imprensa declarações do secretário de Estado sobre umas supostas adaptações, não ao AO, mas ao Vocabulário Ortográfico Comum. Como é que se pode adaptar algo que não existe? Como é que se adapta o Vocabulário e não normas?

Com Viegas estava também Vasco Graça Moura, um dos grandes activistas contra o AO…
Sim. Eu cumprimentei-o e disse-lhe que  tinha tido o impulso de lhe enviar flores, mas contive-me. Ele riu-se e respondeu-me: “mais flores não, por favor”. O que é sinal que já deve ter recebido bastantes…

A sua carta também teve um efeito muito importante junto das associações de pais…
Eu fui activa nesse aspecto. Sem pressionar, fiz chegar através do Facebook a minha indignação e tem sido uma loucura em termos de comunicação. Ressurgiu a esperança de que isto não seja um facto consumado.

Há aqui uma responsabilidade enquanto pais…
Sim, há uma responsabilidade geracional de virmos a ser responsabilizados no futuro por um crime da maior gravidade de delapidação  do nosso património cultural. Porque é muito mais relevante e muito mais imaterial que o património Fado. Um facto destes tem consequências irreversíveis. Sobre esta geração impende a grave responsabilidade de suster este fenómeno grotesco.

É também uma questão de identidade…
Sim. O AO é um ataque ao cerne da nossa identidade cultural.

Sente que os portugueses estão contra o AO?
No meu contacto pessoal, não tenho dúvidas em afirmar que se a pessoas for posta, de uma forma livre, perante um sim ou um não num boletim secreto, responderá que é contra o AO.

Vasco Graça Moura falou há tempos na possibilidade de referendar o AO. Concorda?
Acho que não faz sentido. Não seria vinculativo, porque as pessoas não vão a sufrágios e não participam. Mas não tenho dúvidas de que mais de 90 por cento dos portugueses são contra o AO.

Apesar disso, acha que os portugueses vão acabar por aceitar o AO?
Acho que não. Quem aprendeu o Português como nós vai continuar a escrever da mesma forma. O problema são os que estão a aprender agora. É aí que se deve incidir. A nossa responsabilidade está nos pequenos que agora estão a aprender.

O AO deve ser combatido nas escolas?
Sim.  O silêncio dos professores perante a posição das associações pode ser dirimido. Porque há órgãos escolares que envolvem todos, porque há maneiras de fazer uma votação entre professores num estabelecimento de ensino, por voto secreto. Imagine-se o que seria 90 por cento dos professores de uma escola serem contra o AO…

Acha que a luta contra o AO é uma causa perdida?
De todo! Eu fui activista da causa de Timor, onde tínhamos uma formiga, Portugal, e um elefante, a Indonésia. Na altura houve uma questão moral e um consenso alargado, como acontece agora com o AO. Acredito nessa força moral.

O elefante agora é o Brasil ou os piores inimigos estão em Portugal?
Exactamente, os piores estão cá. Há quem veja isto como uma questão Portugal-Brasil, mas os brasileiros também estão contra o AO. O nosso pior inimigo  está em nós, na nossa passividade e na falta de participação.

Entrevista publicada no semanário «O Diabo», de 30 de Abril de 2012.

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]