Ex.mos Senhores Directores das publicações:

Público, Correio da Manhã, Jornal i, Sol, Jornal de Negócios, Revista Sábado, O Diabo, Gazeta da Beira, Jornal da Região

Sou visceralmente contra o Acordo Ortográfico de 1990, porque o conheço e repetidamente analisei, desde que foi publicado no Diário da República (23-8-1991), e porque tenho lido e ouvido muito do que sobre ele se publicou e disse, a favor e contra, desde então. Também sobre ele me tenho publicamente pronunciado em diversas ocasiões, numa luta que encetei em Abril de 2008. Os meus textos, alguns publicados na imprensa, encontram-se quase todos no meu nome (Maria José Abranches), no sítio da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (https://ilcao.cedilha.net/), que subscrevi e a que activamente aderi, assim que dela tive conhecimento por uma notícia do jornal “Público”.

Porque as publicações que V.ªs Exc.ªs dirigem se respeitam e nos respeitam, ao respeitarem a língua de Portugal, permito-me chamar a V.ª atenção para o meu último texto, “A Herança”, publicado no sítio acima referido em 10 de Junho último, pois ouso acreditar que o empenho e cuidado com que me documentei para o escrever poderão contribuir para uma visão mais global do muito que, para nós portugueses, está neste momento em causa (https://ilcao.cedilha.net/?p=6272#comments).

Aproveito ainda a ocasião para formular algumas perguntas cuja resposta nos deveria interessar a todos, cabendo à comunicação social um papel determinante no sentido de forçar os políticos a definir-se, quebrando os “tabus” que estes, com maior ou menor subtileza, nos querem impor:

– Como se explica que, tendo havido tantas eleições desde 1990, o AO90 nunca tenha sido publicamente discutido no âmbito das campanhas eleitorais? Esta pergunta é ainda mais pertinente no que toca às últimas eleições, a partir de 2009: legislativas, autárquicas, presidenciais e de novo legislativas.

– Porque é que, num momento particularmente difícil para Portugal, como este que atravessamos, o poder político insiste em despojar-nos também da nossa língua, impondo-nos uma ortografia escolhida pelo Brasil, o que favorece a norma brasileira da língua portuguesa, ferindo assim ainda mais profundamente a nossa dignidade? E tudo isto com custos avultados, que ninguém parece interessado em denunciar nem contabilizar…

– Não é estranho que ninguém sinta necessidade de saber a que “pressão” se referia Cavaco Silva, quando declarou, a 22.05.2012, na inauguração da Feira do Livro em Díli (vd. Público”): “Quando fui ao Brasil em 2008, face à pressão que então se fazia sentir no Brasil, o Governo português disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo, o que fiz”?!

– Porque é que Portugal entregou o destino da nossa língua à CPLP, onde os nossos Ministros da Educação, normalmente no estrangeiro, decidem do modo como nós e os nossos filhos e descendentes devemos escrever, sem que sejamos ouvidos, consultados, e nem sequer correctamente informados?…

Vem a propósito esta declaração: “Temos de olhar para a CPLP como uma comunidade relativamente atípica porque é a única comunidade linguística em que a potência mais importante não é a antiga potência colonial” – Seixas da Costa, citado por Nuno Pacheco, que acrescenta “(…) porque é a CPLP que se discute. Quem nela pesa, caso do Brasil; e quem nela quer fingir que pesa, caso de Portugal.” (in “A língua, o acordo e uma falsa unidade ditada pela política”, “Público”, 16 de Abril de 2008).

– Quem está preocupado com o desastre do ensino do Português, há muito visivelmente nas mãos de um “lobby” enquistado no Ministério da Educação? E porque não há verbas para o ensino da nossa língua junto das comunidades de portugueses espalhadas pelo mundo? Mas atenção: a campanha de implementação do AO90, nomeadamente graças às inúmeras acções de formação desenvolvidas, ao mercado dos novos manuais, à sua divulgação pela RTP, tem sido conduzida com invulgar vigor, e dispêndio pouco consentâneo com a “crise” que atravessamos!…

– Como foi ainda possível que os promotores do AO90 pusessem a circular – sem suscitar reacções inteligentes – uma série de enormidades que acriticamente se vão por aí repetindo, inclusivamente com a colaboração de alguns jornais, ainda há bem pouco tempo prestigiados? Muitos destes aspectos são devidamente equacionados no meu texto “A Herança”, pelo que aqui me limito a enumerá-los:
– as línguas evoluem (e até retrocedem, visto que nos querem obrigar a escrever como se faz no Brasil desde 1943 – sem esquecer que o português do Brasil tem características arcaicas, que nós já perdemos…); não somos os donos da língua (pois não; por isso nos está vedado amputá-la e desfigurá-la a pretexto de a tornar mais “vendável”); quem se opõe ao Acordo é reaccionário, “Velho do Restelo”, retrógrado, antiquado (o tique do costume: o importante são “os colarinhos à moda”); já houve outras reformas da ortografia, e também elas suscitaram resistências (“reforma” não é “acordo”) ; português antigo (expressão usada para referir a ortografia que continua em vigor e nos vem de 1945); este Acordo visa a uniformização indispensável ao prestígio internacional da língua portuguesa (o que obviamente não resiste à análise mais superficial); sem este AO, o português dito “europeu” ficará uma língua residual, como o mirandês ( para além da falta de respeito pelas línguas em geral, isto denota sobretudo ignorância…)…

Nesta enumeração incompleta dos dislates que têm servido de apoio ao AO90, quero ainda recordar a palavra sábia do ex-Ministro da Cultura, Pinto Ribeiro: “Nós afirmamo-nos enquanto identidade e enquanto povo através da língua que falamos e da expansão que demos a essa língua. Neste momento, o número de falantes do português andará pelos 230, 240, 250 milhões. Mas desses 250 milhões, 200 milhões são brasileiros. E eles eram apenas 70 milhões em 1960. De 1960 para 2008 triplicaram, e isso significa fazer 130 milhões de falantes do português, mais do que nós fizemos em todo o nosso passado.” (in entrevista ao “Público”, 04/02/2009; o destaque é meu)

Mas os abissais e insondáveis conhecimentos linguísticos dos políticos não param de nos surpreender: veja-se a Lei Nº 12.605, de 3 de Abril de 2012, proclamada pela “Presidenta” do Brasil, e que “Determina o emprego obrigatório da flexão de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas” – sem comentários!

Termino, com o meu mais profundo agradecimento à imprensa portuguesa que continua a defender lúcida e corajosamente a dignidade da língua de Portugal, e com um vibrante apelo a que se não poupe a esforços para fazer ouvir a voz dos portugueses, que o poder político tem ignorado e, por todos os meios, tem procurado silenciar!

Os meus cumprimentos,

Maria José Abranches Gonçalves dos Santos

[Mensagem recebida por email, da autora, com autorização de publicação.]