Li o primeiro livro aos seis anos, e li-o duas vezes de seguida. Era “Os Desastres de Sophia”, da Condessa de Ségur. Era mesmo Sophia, não Sofia, porque a edição das Livrarias Aillaud e Bertrand, que ainda tenho, é anterior à reforma ortográfica da 1ª República. Estranhei a grafia, mas o livro não piorou por isso. Essa reforma ortográfica foi feita com pés e cabeça e simplificou onde tinha de simplificar.

Achei o romance, que é moralista, muito engraçado. Se era bom, o melhor seria ler duas vezes. Foi escrito em diálogos, como o teatro, um género usado no século XIX que infelizmente se perdeu no romance e na novela. Os nossos “escritores” de aeroporto bem podiam usar este estilo, pois poupar-se-iam verbos inúteis e adjectivos insuportáveis na descrição das personagens enquanto falam, entre travessões e vírgulas.

Mais tarde, ao estudar História na licenciatura, contactei muito com o português medieval, moderno e contemporâneo. Algumas investigações que tenho feito sobre a literatura e a vida em Portugal no período final do século XIX e início do século XX, proporcionam-me o contacto com papel velho e grafias antigas. Antes do 25 de Abril convivi com a introdução de algumas normas ortográficas valiosas, como a supressão dos acentos nos advérbios de modo, realmente desnecessários.

Muitas grafias desde que o português despontou vai para um milénio, mas sempre a mesma beleza da língua. A grafia fazia sentido e tem de fazer sentido com a sonoridade, com a origem e com o significado dos vocábulos. Para amarmos as palavras que escrevemos, também temos de amar a forma como as escrevemos, uma letra após a outra e um espaço e uma cedilha e um acento e um hífen e o que for. Do que não gosto do novo “acordo” “ortográfico” é não ser um acordo e não ser ortográfico. É um documento político que violenta uma forma de escrever consensual no meu e noutros países para servir uma estratégia incompetente e submissa de relações internacionais.

Não penso que uma língua tenha de escrever-se da mesma forma nos países que a partilham. O universo anglo-saxónico não tem a mínima preocupação com a diversidade ortográfica nos diversos países. A uniformização não faz sentido para países cultos, adultos e democráticos. Partilham a língua e falam-na de mil e uma maneiras, escrevendo um pouco dessa diferença com diferentes ortografias.

A minha vida, hoje, é em grande medida escrever, escrever artigos de imprensa, académicos, livros. Quero escrever com uma ortografia racional, sem tropeços como os que o aborto ortográfico propõe. Não quero escrever sob a ditadura que me pretendem impor, por ser ditadura e por ser errada. Nem tudo o que está no documento é errado, há algumas actualizações necessárias em alguns aspectos, mas o essencial do documento é negativo.

Por isso subscrevi a ILC e convidei a minha família e os meus amigos a subscreverem também. Não sei se teremos êxito, mas uma iniciativa justa da cidadania é sempre, por existir, um grande sucesso da vontade individual e colectiva.

Eduardo Cintra Torres

[Este texto foi redigido expressamente para a ILC AO90 e foi-nos remetido pelo autor.]

[Imagem gerada em Vistaprint.]