Dito na obscuridade de um quarto de hotel podia soar a coisa erótica: “A língua é o petróleo desta relação.” Ele não precisava de ser um milionário texano, nem ela uma estampa de calendário barato, para compor a história. Mas foi dito noutro local, neste caso em Timor-Leste, e por um ministro, português para azar nosso. Sem outra tirada eloquente sobre o que lhe inspiraria aquela terra que a tantos inspirou por bem mais nobres razões, Miguel Relvas foi-se à língua, a mais recente descoberta dos que amiúde a espezinham. E disse isto: “Aquilo que nos une a todos é a língua e a língua é o petróleo desta relação, é o que nos dá força, é o combustível desta relação e nós temos de continuar nesse caminho” (a citação é, ipsis verbis, da agência Lusa). Que língua? Que combustível? Que caminho? Já se encontraram face a face, como deveriam, o português e o tétum? Já se olharam de igual para igual? Ah, pois, a lusofonia, os milhões a falar todos da mesma maneira, a conversa vadia do costume. Querem saber? Antes o quarto de hotel. Porque, entre a vacuidade dos gorjeios petrolíferos, são arautos assim que não se cansam de bombardear os poços e atear incêndios no tão maltratado “combustível”.

Relvados à parte, há no entanto exemplos de como se pode tratar bem uma qualquer língua falada e escrita. O mirandês, por exemplo. Ainda há dias o Jornal de Negócios (24/8) traçava o perfil de um homem, Amadeu Ferreira (por sinal também ligado a coisas da economia – mas não do petróleo – já que é agora vice-presidente da CMVM), que ao longo da sua vida tem sido um paladino inexcedível da defesa do mirandês. Nasceu em 1950, em Sendim, Miranda do Douro, de pai sapateiro (e peleiro) e mãe camponesa, numa família onde só se falava mirandês. Isto lembra o Negócios enquanto lhe percorre os passos vitais. Para abreviar, diga-se que Amadeu Ferreira, sem precisar de quarto de hotel, se tornou “bígamo”, como ele próprio diz. Gosta imenso do português (que usa no seu trabalho diário) e do mirandês (que usa e defende na terra, em família, em livros). Devido à sua persistência, o mirandês tornou-se reconhecido por lei, em 1999. Assim: “O Estado Português reconhece o direito a cultivar e promover a língua mirandesa, enquanto património cultural, instrumento de comunicação e de reforço de identidade da terra de Miranda”, reconhecendo-se ainda “o direito da criança à aprendizagem do mirandês“. Tal como o espanhol convive com as línguas basca, galega e catalã, também o português e o mirandês passaram a conviver e a respeitar-se. Sem petróleos.

É certo que o mirandês se restringe a uma minoria, sete mil falantes, mas a riqueza que representa ter-se-ia perdido se não tivesse defensores à altura. Como Amadeu Ferreira (que teve uma coluna mensal em mirandês no PÚBLICO), tradutor para a “Ihéngua” mirandesa de obras de Horácio, Virgílio, Catulo ou Camões. É dele (sob o pseudónimo de Fracisco Niebro) a tradução de Ls Lusíadas, a partir da edição de 1572, num bonito volume editado pela Âncora em 2010. Começa assim: “Aqueilhas armas i homes afamados/ Que, d’0ucidental praia Lusitana,/ Por mares datrás nunca nabegados,/ Passórun par’alhá Ia Taprobana,/ An peligros i guerras mui sforçados/ Mais do que permetie Ia fuorça houmana/1 antre giente de loinge custruírun/ Nuobo Reino, que tanto angrandecírun.”

Como escrever bem o mirandês? Com normas ortográficas, claro. Amadeu Ferreira escreve na sua biografia online: “Partecipei na purparaçon i çcuçon de Ia purmeira adenda a Ia Cumbençon Ourtográfica. Nada ye purfeito, mas acho que se cunseguiu un modo de melhor aquemodar todas Ias bariadades de l mirandês na mesma scrita.” Sucede que tal convenção, desenvolvida a partir do levantamento feito por Leite de Vasconcelos em fins do século XIX, percorreu caminhos inteligentes. Na grafia, por exemplo: “Quando existiam várias opções de escrita para um dado som, optou-se geralmente pela de mais antiga tradição na língua ou mais frequente nos diversos autores (y em palavras como you, yá; i na conjunção i).” Não a mais simples, não a-da-língua-que-está-sempre-a-mudar, mas sim a que melhor fixa o verbo e o torna inteligível, respeitando-lhe a raiz. Disto não sabem os senhores do petróleo, os tais que andam sempre com a língua a arder.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco. In jornal “Público” (suplemento “2”) de 02.09.12. Link disponível apenas para assinantes do jornal “online”. “Links” inseridos por nós.]

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