Bandeira e língua: vicissitudes dos símbolos nacionais

Eu, portuguesa e europeia me confesso: são estas as marcas específicas da minha condição humana. É pois assumindo-as plenamente que posso contribuir para o enriquecimento e a preservação da nossa humana e preciosa diversidade. Posto isto, porque convém não confundir patriotismo com nacionalismo, vamos ao que agora me interessa.

Nas celebrações do 5 de Outubro, como toda a gente sabe, a bandeira nacional foi içada em posição invertida. Segundo li entretanto, isto significa, de acordo com a simbologia militar, que o território está ocupado pelo inimigo. Pobre país, “não há mal que lhe não venha”!… Obviamente que se tratou apenas de um desagradável incidente, mas como “Deus escreve direito por linhas tortas”, talvez pudéssemos ver ali um sinal, uma chamada de atenção, uma mensagem. E não estou a referir-me à crise, nem aos sacrifícios “exigidos” pela Troika, mas ao omnipresente “novo” (de 1990?!) Acordo Ortográfico, um inimigo da nossa língua, traiçoeiramente imposto do interior, com a conivência de todos os poderes instalados, incluindo os media, e o silêncio comprometido, distraído ou indiferente da nossa intelligentsia. Já não se aguenta ver televisão, nem ler uma boa parte dos jornais e revistas nacionais, nem ver o entusiasmo com que as editoras vão profanando os mais veneráveis textos. E isto para não falar das “faturas” que nem apetece pagar, nem das publicidades, nem do “software” que nos mete pela casa dentro, à força, uma mascarada de língua irreconhecível… Portugal está de facto ocupado, invadido, submerso por esta lepra que atacou o Português e pouco a pouco o vai corroendo e mutilando. E para esta desgraça não há bodes expiatórios: a culpa não é da Troika (que nem sabe a colossal despesa pública que isto representa, agora e no futuro…) nem da União Europeia, nem da Sr.ª Merkel! A culpa é só nossa, através dos políticos a quem entregámos os nossos destinos e que se permitem continuar a ignorar-nos.

Diz o texto do Acordo que ele “constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”. Mentira! Não só não contribui em nada para a já impossível “unificação” ou “uniformização” da língua portuguesa, cuja diversidade é também parte integrante da sua evolução natural, da sua riqueza e da sua História, como não traz nenhuma visibilidade internacional à língua dos portugueses. Pelo contrário, são cada vez mais os sinais do apagamento progressivo da nossa língua, à conta desta pseudo-uniformização. Um bom exemplo disto mesmo pode ver-se no sítio http://www.babbel.com/. Esta empresa, vocacionada para o ensino/aprendizagem das línguas, e financiada em parte por Fundos da União Europeia, propõe como Português a língua do Brasil, simbolizada pela bandeira desse país! E isto quando a todas as restantes línguas europeias propostas se acede pela bandeira e na versão do país europeu de origem!

Como foi possível subalternizar assim Portugal, membro de pleno direito da União Europeia, e o Português europeu, uma das suas 23 línguas nacionais?!… Perguntemos àqueles a quem demos o nosso voto para nos representarem na U.E.! À força de promoverem o AO90, de sofregamente se terem lançado na destruição da nossa língua, a pretexto da supremacia dos “milhões de falantes” brasileiros, é a língua do Brasil que ganha o tal “prestígio internacional”!

Pessoalmente não me incomoda nada a expansão do Português brasileiro, enquanto língua do Brasil! Incomoda-me sim, e de que maneira (!), que isso se faça à custa da nossa língua, que este AO desfigura, estropia e esvazia da dignidade que lhe é própria! É em Português de Portugal que eu penso, falo, escrevo, me exprimo, comunico, olho e entendo o universo. Não é em Português do Brasil! Tenham paciência, não é a mesma coisa! E o mesmo sentirá e dirá qualquer brasileiro que se preze! Porque não temos de estar complexadamente uns contra os outros, temos de salvar o que nos une, mantendo a especificidade do que somos!

Aliás essa diferença e especificidade, que constitui a única, real e irredutível “evolução” da língua portuguesa, é universalmente visível, como comprova a Larousse ao publicar, em paralelo, em Maio de 2012, um Mini “Dictionnaire Portugais” (com a ortografia correcta) e um Mini “Dictionnaire Brésilien”. E a confirmar esta dualidade aí fica ainda o testemunho de Paul Teyssier : «Há assim duas normas do português, formando cada uma delas um sistema autónomo e coerente. O estrangeiro que aprende a língua terá portanto de optar à partida quer pela norma portuguesa quer pela norma brasileira, e não sair dela. Mas todo aquele que quiser verdadeiramente dominar o português deverá, depois de possuir os mecanismos inerentes à norma que tiver escolhido, adquirir um certo conhecimento das principais características da outra.»

O Português seguiu caminhos diversos no vasto mundo para onde o levámos, na América como em África e na Ásia. É a sua riqueza e a prova da sua vitalidade, o que deveria ser motivo de orgulho para todos nós, os que partilhamos esta língua.

Não permitamos que se apoderem da nossa língua os arautos do mercantilismo desenfreado e da globalização “unificadora” e compressora da diversidade cultural humana! Forcemos os decisores políticos a ouvir-nos: “Deixem o Português em paz! Não queremos o Acordo Ortográfico! Exigimos a revogação da Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008” (https://ilcao.cedilha.net/).

Maria José Abranches Gonçalves dos Santos