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“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”
Joseph Goebbels (29.10.1897 – 01.05.1945), Ministro da Propaganda de Adolf Hitler

Nota prévia
Atendendo a que nem toda a gente tem acesso aos conteúdos do Facebook, plataforma onde esta entrevista foi transcrita em primeira mão, e atendendo principalmente ao enorme interesse público da dita entrevista, abre-se no “site” da ILC uma excepção (sem exemplo), reproduzindo aqui também este verdadeiro manifesto: da aldrabice manifesta, da manifesta desfaçatez de um manifesto (pelos vistos) mentiroso.

Evanildo Bechara, 84 anos, académico, gramático e filólogo brasileiro, é visto como o arquitecto do Acordo Ortográfico (AO) no Brasil e é hoje a autoridade máxima para dirimir qualquer problema ou conflito gerado pelo AO. De passagem por Portugal, comenta a polémicas suscitadas pela aplicação do Acordo, admite discordar do elevado número de excepções contempladas, considera o uso do hífen um dos maiores problemas em qualquer língua e garante que a aplicação do AO será mais difícil para os brasileiros do que para os portugueses.

Os portugueses andam desde 1911 a abandonaras grafias etimológicas, mas não estará este Acordo Ortográfico a ir longe de mais na opção por uma ortografia mais fonética?
Essa foi uma simplificação no possível. O português beneficiou da visão de Gonçalves Viana, que em 1885 publicou com Vasconcelos Abreu, um pequeno folheto de simplificação. Naquele tempo não se pensava em unificação com o Brasil. Já naquela altura eles trabalhavam na unificação da língua portuguesa à maneira dos italianos, que foram bem mais avante. O italiano aboliu o “h” inicial, enquanto o espanhol manteve. O espanhol escreve “hombre”, com “h”;no italiano, “uomo” perdeu o “h”.

Essa é uma das excepções que geram confusão. Por um lado diz- se que se abandonam as consoantes mudas, mas depois temos o “h” mudíssimo no início de algumas palavras. Porquê?
Por causa de uma tradição. O português acompanhou o espanhol no sentido de não abolir o “h” etimológico, embora o português ainda ponha “h” em palavras cuja etimologia rejeitaria o “h”, como é o caso de”húmido”. No Brasil escrevemos sem “h”, porque ficámos fiéis à etimologia, mas no caso de “homem”e outras palavras com “h” nós persistimos.

Os portugueses são muito sensíveis à função diacrítica da consoante dita muda, que identifica o timbre aberto da vogal precedente. A sua ausência não deixa a palavra despida?
Já o primeiro gramático da língua portuguesa, Fernão de Oliveira, dizia, em 1536, que só se devia escrever a letra que se pronunciasse. Essa função diacrítica é válida, mas para um número pequeno de palavras em relação ao universo da língua. O próprio texto do Acordo, quando fala do acento diferencial, diz que em alguns casos você está liberado para o usar. No poema de Manuel Bandeira, que diz que o poema é forma (“fórma”) e não forma (“fôrma”), aí você pode usar o acento gráfico. Num caso como este, excepcionalmente, seria possível para a pessoa colocar o acento.

Acabou de usar um termo que exemplifica uma outra divergência. Disse “excepcionalmente”. Pronunciou o “p”, mas em Portugal a mesma palavra é agora escrita sem o “p”. Não acha normal o cidadão comum ficar perplexo?
No caso de “diretor”, você tem uma palavra só com duas possibilidades de pronúncia. Como “acordo” e “sede”. A língua admite também algumas palavras onde há dupla pronúncia. Então, se há dupla pronúncia, você tem um facto de língua e não um facto de ortografia. A ortografia é uma convenção que não abrange a língua toda, a qual é muito mais rica do que a ortografia.

Porque é que a simplificação ficou no meio termo da etimologia?
Porque, se partíssemos para uma ortografia puramente fonética, ficaríamos com situações muito complicadas para distinguir, por exemplo, “coser”, de costurar, e “cozer”, de cozinhar. Por essa ortografia, as duas palavras seriam escritas com “z”. Onde houvesse sibilante surda seria escrito com “z”. A ortografia etimológica, na medida do possível, ajuda-nos a separar essas palavras homófonas, que não são homógrafas, isto é, que não se escrevem da mesma maneira. Por isso há vantagem numa simplificação sem desprezar a tradição etimológica das palavras. A Academia Brasileira de Letras apresentou uma reforma em1907, e nesse sistema partiram do pressuposto que não se escreveria nenhuma letra que não fosse fonema, isto é, que não fosse pronunciada. Veja-se o verbo “adoptar”, que os portugueses ainda escrevem com o “p”, mas os brasileiros tinham já, desde1907, tirado esse “p” etimológico. Carolina Michaelis, que fez parte da Comissão de 1911, com Gonçalves Viana e Leite de Vasconcelos, dizia que o argumento de que a consoante etimológica aparecia para registar o timbre aberto da vogal anterior era uma meia verdade, porque em muitas outras palavras onde havia diferença semântica entre o timbre aberto e o timbre fechado, como “acordo” e”acordo”, de acordar, ou “sede” (necessidade de beber) e “sede” (local onde funciona uma instituição), os portugueses não usavam nenhum artifício gráfico para fazer a diferença.

E o problema dos hífenes, com que ninguém se entende?
O problema dos hífenes foi os portugueses não adoptarem o sistema espanhol. Preferiram marchar com os franceses. O emprego do hífen é um quebra-cabeças em qualquer língua que faça uso dele. Foi dada uma regra relembrada pelo autor do dicionário contemporâneo, Santos Valente: usar-se-á o hífen nos compostos quando os dois elementos forem para o plural. Isto para resguardar o plural dos dois elementos. Mas se o primeiro elemento não tiver plural, deve-se abolir o hífen. O emprego do hífen foi criado no século XIX para todas as ortografias. O Acordo de 1990 trouxe uma directriz muito fácil, se abolirmos as excepções que aparecem. A base 15 diz o seguinte: quando os dois elementos são constituídos por substantivos, adjectivos ou numerais e se entre os dois elementos não houver elemento de ligação, põe-se o hífen. Por exemplo,”tenente-coronel”. Já general de brigada, onde entram dois componentes, mas com um elemento de ligação, aí não se põe mais o hífen. Erradamente conservou-se em “cor-de-rosa”. Porquê isso? Em nome de uma tradição. Quando houver prefixo, a regra geral é o sistema da terminologia científica: abolir o hífen, na medida do possível. Agora, em alguns casos em que o primeiro elemento termina por vogal e o segundo começa por “r” ou “s”, aí junta, mas duplica as consoantes para que mantenham o som original: “minissaia”, “contrarregra”. Se seguirmos esses dois princípios fundamentais, fica resolvido o problema do hífen na língua portuguesa.

O que é que contesta na argumentação de quem se tem apresentado contra o AO?
As pessoas que falam mal do Acordo de 1990, apresentando argumentos jurídicos ou do ponto de vista linguístico, estão cometendo dois erros fundamentais. Por exemplo, o poeta Vasco Graça Moura diz que o Acordo é contra a jurisprudência mais elementar, porque o artigo 22 do Acordo estabelece que não se faça nenhuma reforma ortográfica antes da composição do vocabulário ortográfico comum. Nunca o Acordo falou em vocabulário ortográfico comum, tout court. O que o artigo 22 diz é o seguinte:”Os Estados signatários tomarão através das instituições e órgãos competentes – não se fala das Academias – as providências necessárias com vista a elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável, e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.” Isto é, os vocábulos da física, da medicina, da botânica, da toponímia. Não tem sentido uniformizarmos o vocabulário comum e os portugueses chamarem à capital da Rússia Moscovo e o Brasil chamar Moscou.

Qual é o outro erro?
É o de que o Acordo é mais fácil para os brasileiros. Não é. O brasileiro vai ter de fazer muito mais mudanças dos seus hábitos do que os portugueses. É o caso do trema ou da abolição do emprego do acento circunflexo, numa verdadeira agressão à pronúncia brasileira, vamos deixar de colocar o acento agudo nos ditongos “i” e”oi” dos paroxítonos “ideia”, “jiboia”. Os portugueses nunca puseram este acento, até porque antes escreviam “idea”. Isto cria um problema para o brasileiro, que vai escrever “heroico” sem acento, por ser um paroxítono, e “herói” com acento, por ser um oxítono.

Há algo que lhe desagrade neste Acordo?
As excepções. A ortografia é um acto de ciência. Tem um lado cultural, mas tem um lado social. Tenho restrições ao Acordo, mesmo se uma mudança ortográfica nunca é para a geração que a faz mas para a vindoura. Fernando Pessoa não aderiu à Reforma de 1945. Ficou com a etimológica. Desde logo pela sua própria concepção poética. Teria de passar um pente fino no emprego do hífen, para simplificar, sem prejudicar a tradição da morfologia da língua e aboliras excepções. O Acordo de 1990 foi o que de melhor os responsáveis pela reforma ortográfica conseguiram fazer até hoje. E é pena que percamos a oportunidade deste momento histórico, por problemas económicos, políticos ou de vaidade pessoal, em detrimento de uma comunidade de quase 300 milhões. Como dizem as pessoas de bom senso, a língua não tem dono. A língua é dos que a falam.

Entrevista de Valdemar Cruz

Expresso 120 de Outubro de 20121 ACTUAL 135

[Transcrição integral da entrevista publicada na revista do semanário citado. Link indisponível.]
[Disclaimer: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

Notas (da ILC AO90)
1. Esta entrevista foi corrigida manualmente em conformidade com o Acordo Ortográfico em vigor, ou seja, o de 1945. Esta correcção incidiu, evidentemente, apenas onde se justificou.
2. Esta composição de texto “custou” 3 horas de trabalho. Partilhe-o à vontade mas refira as fontes (autoria de Expresso, reprodução manual de ILC AO90).
3. O conhecimento do assunto foi-nos facultado pela página FB “Tradutores Contra o Acordo Ortográfico” em “post” partilhado por @Pedro da Silva Coelho e citando ambos um artigo no blog “Alma Lusíada”.