A EPM-CELP é uma instituição do estado português que nasceu como de “cooperação” no ensino (ainda que de facto seja algo diverso). Como tal faz-me alguma confusão que edite, em Moçambique, e para Moçambique (e, inclusivamente, para distribuição “gratuita nas escolas públicas e centros infantis de poucos recursos” no país), uma obra de escritora e artistas moçambicanos numa grafia que não é a nacional. Não só, nem fundamentalmente, por aquilo que tantos vão dizendo, isso de que a adopção do acordo ortográfico no contexto português assenta numa ilegalidade. Mas porque – e apesar de haver os tristes antecedentes locais, muito tristes acho, tão tristes que nem os adjectivo, da Ndjira (uma sucursal da Leya/Caminho, a olhar para aqui como se fosse Lisboa) e da própria Marimbique (a dizer-me que a olhar o futuro inevitável, e eu a não concordar) -, não me parece muito curial que o estado português (através da sua escola) edite aqui (repito, edite aqui) e dissemine – gratuitamente – a grafia que não está acordada no país. É uma espécie de (pouco) subtil imposição, um fait accompli desrespeitador da soberania (gráfica) local. Entenda-se, uma coisa é ensinar dentro de portas da Escola Portuguesa (onde a adopção é criticável, mas compreensível dada a pressão política), outra é publicar para distribuir fora de portas – sendo que, ainda por cima, que nem em Portugal é obrigatória a utilização da “nova” grafia.

Ou seja, é uma questão cultural, mas também uma questão política.

Estou a ser antipático? Poluindo a nota sobre a obra da amiga, cutucando a equipa editorial, gente amiga, resmungando com a EPM, cheia de gente amiga? Talvez. Mas é a minha forma de ser “ativista” (sic) face a uma “colecção” (sic). Para bons entendedores duas citações chegarão. Não é uma gralha (à escolha, qual delas o poderá ser). É apenas o confusionismo. O confusionismo gráfico que reina entre os colaboracionistas com o obscurantismo. Lusófono. Perdão, luso-tropical. Ele próprio confusionista. Ontologicamente confusionista.

jpt

[Transcrição parcial de “post” publicado no “blog” Ma-Schamba em 24.11.12.]

[Imagem (da Escola Portuguesa de Moçambique, EPM) retirada do “site” do GEPE – Ministério da Educação (português).]

Nota: ao contrário daquilo que alguns pretendem fazer crer O AO90 NÃO ESTÁ EM VIGOR EM MOÇAMBIQUE. Apenas foi aprovada em Junho passado, pelo Conselho de Ministros, uma proposta de ratificação que seguiu para o Parlamento moçambicano para discussão e eventual aprovação (ou rejeição, é claro); a discussão e votação da dita proposta não estão sequer agendadas.

«O governo moçambicano aprovou na última quinta-feira(7) a proposta que ratifica o Acordo Ortográfico de língua portuguesa, a ser submetido a Assembleia da República (AR), o parlamento moçambicano, para aprovação. Só depois de submetido ao mais alto órgão legislativo para efeitos de discussão e análise é que o mesmo será, por fim, aprovado e subsequentemente entrar em vigor
Jornal “A Verdade” (Moçambique), 10-06-12