logotipojornaliDesde que a presidente do Brasil Dilma Rousseff adiou o acordo ortográfico pelo menos até 2016, tornou-se evidente que Portugal vai ficar a escrever sozinho de acordo com as novas regras.

Efectivamente, Cabo Verde anunciou só aplicar o referido acordo a partir de 2019 e Angola e Moçambique não têm qualquer intenção de o aplicar ainda neste século. Só o Estado português, com a falta de senso que sempre o caracterizou, é que já começou a adoptar uma nova ortografia que a maioria da sua sociedade civil rejeita totalmente. O país cairá assim no ridículo de ter uma ortografia oficial completamente absurda e que mais ninguém aplicará no mundo lusófono.

O acordo ortográfico é um verdadeiro crime contra o património cultural português, destruindo as raízes etimológicas da nossa língua numa obsessão simplificadora que só leva à multiplicação de palavras homógrafas. Quando Fernando Pessoa proclamou que “a minha pátria é a língua portuguesa”, acrescentou que “a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha”. As nossas antigas colónias continuam a vestir as palavras com o manto régio da ortografia do português que lhes deixámos. Já Portugal prefere ficar isolado a escrever num “acordês” que nem os seus próprios cidadãos querem adoptar.

Não haverá ninguém com coragem para pôr fim a este disparate?

Luís Menezes Leitão

Professor da Faculdade de Direito de Lisboa

[Transcrição integral de artigo de Luís Menezes Leitão no jornal i de 22.01.2013.]