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Jorge Buescu é matemático e Professor Associado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Licenciado em Física pela FCUL, Doutorado em Matemática pela Univ. Warwick, Agregado em Matemática pelo IST, é autor de uma dezena de livros e de cerca de duas centenas de artigos científicos e de divulgação, nacional e internacionalmente publicados.

O Acordo Ortográfico que se pretende administrativamente impôr é absurdo sob qualquer dos pontos de vista que se aborde. Seria uma aberração linguística: a etimologia latina do vocabulário português é ofuscada, e deixa de haver normas claras para o que é um erro ortográfico (quem tem crianças em idade escolar pode verificá-lo nos manuais, em que chega a haver duas grafias para o mesmo termo). Seria um atentado cultural: naturalmente a língua evoluiu de formas diferentes no espaço da lusofonia. Negar essa evolução quase darwiniana é anti-natural; tentar anulá-la por decreto um atentado cultural. Chega a ser provinciano: quem, como eu, viveu anos em Inglaterra sabe bem como no espaço da Anglofonia as diferenças gráficas são um não-problema quase risível. Ninguém sente necessidade de que nos E.U.A., no Reino Unido ou na Austrália a grafia, ou mesmo a terminologia, sejam idênticas. Pelo contrário: a diferença é respeitada e até apreciada, por vezes com muito bom humor.

Por vezes é brandido o argumento “científico”: os linguistas são as únicas pessoas cientificamente qualificadas para se pronunciar sobre a discussão. Enquanto físico, cientista, e também escritor e cidadão, este argumento de autoridade deixa-me extraordinariamente incomodado. Seria como se, na discussão sobre se Portugal deve ou não adoptar a energia nuclear, se viesse defender que só os físicos têm direito a pronunciar-se. Não achariam os linguistas ter o direito de se pronunciar se estivesse em causa viver perto de uma central nuclear? Pois enquanto utilizador da língua portuguesa é exactamente o que sinto com este AO90.

E finalmente, o facto que me parece definitivo sobre esta questão. O AO90, longe de unificar grafias, provoca exactamente o oposto. A pulverização de grafias admissíveis, dentro do mesmo país ou cidade, gera o caos e contraria qualquer veleidade a uma intenção unificadora, actual ou futura, no espaço da Lusofonia.

Por estas razões, nunca como autor adoptarei esta grafia. Pelo que verifico, estou felizmente muito longe de ser o único.

Jorge Buescu

Jorge Buescu subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico”.

Veja a nossa “galeria” de subscritores, activistas e apoiantes.

[Nota: esta publicação foi autorizada pelo subscritor, que nos enviou – expressamente para o efeito – as respectivas nota biográfica e fotografia para utilização neste “post” e ainda o texto original transcrito .]