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«Se ele [o AO90] não serve a sociedade portuguesa, cá estaremos para fazer a avaliação política dessa posição da sociedade civil.»
Gabriela Canavilhas, 21 de Fevereiro de 2013

Transcrição de intervenção da deputada Gabriela Canavilhas na audiência de 21-02-2013 no Grupo de Trabalho parlamentar sobre o AO90.

«Obrigada. Os meus cumprimentos a todos.

Dou as boas-vindas, agradeço a vossa presença, a vossa presença aqui é fundamental para nós porque nos ajuda a compreender uma problemática que, claramente, está instalada quanto a esta matéria e eu gostava aqui de sublinhar a dos jovens, é sempre bom ter aqui jovens no Parlamento a exercer  a cidadania. A cidadania deve-se exercer o mais jovem, o mais cedo possível e é [ininteligível] para dizer que esta delegação aqui está hoje porque nos traz jovens.

Jovens que, cuja construção da sua cidadania e da sua noção de identidade nacional – penso que é uma das, dos desejos maiores para os professores, seja de Inglês, de Português, de História, de, enfim, de qualquer disciplina – porque esta ideia de identidade nacional, da importância dos valores que representam a nação, são a parte muito significativa do que é a construção do futuro cidadão português, em pleno direito.

E fiquei um bocadinho preocupada quando ouvi, como é que se chama?… [Pedro Silva]… pronto, fiquei um bocadinho preocupada quando, entre as preocupações que aqui manifestou, a par dos seus colegas, algumas pertinentes, outras talvez ainda a precisar alguma construção e racionalidade, mas fiquei preocupada quando diz, “se o brasileiro avançar num determinado sentido, do português para outro, qual é o problema? pois que se separem e cada um siga uma língua separada.”

Eu acho isto problemático porque uma das grande forças, um dos grandes instrumentos que dá força à cultura portuguesa, é precisamente a sua língua e a unicidade da sua língua, nos quatro continentes onde ela está implantada e nos cinco continentes onde está propagada.

Portanto, essa unicidade da língua é uma das maiores forças culturais, forças identitárias, e quando se fala em força cultural, referimo-nos também, evidentemente, força como instrumento dialogante nas plataformas internacionais, força de, força política, força de influência, enfim, estamos a falar de muitos parâmetros que advêm da força que um país pode ter. E se, e se é importante a questão da língua numa, enquanto força argumentativa num país, e portanto, seguramente, os seus professores terão ocasião para lhe explicar que a ideia de divisão da língua portuguesa em dois ramos e separá-las, decididamente é uma ideia penalizadora para o futuro de Portugal e da força que Portugal pode ter enquanto país de origem de uma das línguas mais fortes do mundo. É a terceira mais falada da Europa e a sexta mais falada do mundo inteiro, que tem, como sabem, centenas de línguas e dialectos.

Portanto, esta força nós não podemos perder e este acordo, bem ou mal, bem feito, mal feito, bem ou mal aplicado e, enfim, bem ou mal entendido, aquilo que pretendeu foi garantir essa força, procurar formas de o garantir.

Portanto, se ele não está em condições de poder-nos dar essa força, há que trabalhar para que ele adquira outros mecanismos mas que nos garanta essa força de unicidade para termos um instrumento importante de afirmação nacional.

Gostava de dizer que na próxima semana vamos ter cá os – não sei se é na próxima, se é na seguinte – responsáveis pelos manuais escolares, precisamente para nos explicarem e para nós nos apercebermos, o que é que se está a passar com os manuais, por que é que uns estão escritos ao abrigo da norma, outros não, quais são as disparidades que eles contêm, é importante para nós percebermos isto porque, claramente, está a trazer aqui uma dificuldade acrescida à sua implementação.

E também nos foram feitas aqui várias dificuldades, nomeadamente pelo senhor professor, que são claramente dificuldade na adopção. Não tanto dificuldades que o acordo nos traga, porque imagino que haja bastantes, mas dificuldades na adopção, os erros e a lentidão com que ele é assimilado, se ele fosse perfeito teria sempre essas dificuldades porque há um período de adaptação, mesmo que ele fosse perfeito havia sempre um período de dificuldade e que traria erros, claramente na sua percepção. Partindo do princípio que ele seria perfeito, mas já, é vosso entendimento que não é e eu acredito que haja aqui a necessidade de se perceber até que ponto essas suas imperfeições são verdadeiramente [im]perfeições da sua concepção ou na forma como elas são utilizadas.

Gostava de dizer aqui aos jovens uma ou duas coisas, agora, enfim, é para vós que eu falo porque os vossos professores sabem isto. Evidentemente que ao longo da História muitas vezes a língua portuguesa teve alterações de ortografia, e na verdade não é a nossa Língua que muda – respondendo aqui à Carina – o que muda é a nossa ortografia com o acordo, porque a língua não muda, a língua é viva, ninguém manda na língua, ninguém decreta a Língua. A língua é algo que tem vida própria, é um instrumento orgânico, maravilhoso por isso, porque incorpora palavras novas, porque segue caminhos próprios e porque vai à frente, aliás, vai mais à frente do que nós, as pessoas.

E essa capacidade orgânica da Língua é absolutamente extraordinária e não permite que ninguém mande nela, não se decreta como é que a língua se fala nem como se diz, nem como é que ela se recria continuamente, mas decreta-se como ela é escrita, porque a ortografia é uma convenção, enquanto que a língua não é uma convenção, a ortografia é uma convenção. Portanto, estas, estas, estes desconfortos que aqui foram salientados por vós, já o próprio Grande Fernando pessoa, o grande Fernando Pessoa, que deu à dimensão da língua portuguesa uma dimensão universal, ainda mais do que o Camões, essa dimensão universal que a língua portuguesa nos deu. Quando eu digo ainda mais é porque Fernando Pessoa tem uma capacidade de chegar mais longe na sua mensagem do que as codificações literárias necessárias que o Camões tem, e que tem, enfim, o Homero também chegou até hoje e é menos difundido, e é menos estudado nos seus… [senhora deputada]…  pormenores do que outros grandes escritores que têm uma capacidade de comunicação mais fácil e o Fernando pessoa tem, não é? Felizmente.

O próprio Fernando Pessoa…  [agradecia que concluísse, obrigado]

Deixe-me contar a História do cisne, de Fernando Pessoa [está bem]. Quando houve um acordo ortográfico no princípio do século, Fernando Pessoa, este grande poeta, às tantas queixava-se publicamente, fazia, enfim, tornou público sobre vários, de várias formas o seu desacordo, porque achava que a língua portuguesa, a ortografia que tinha, não tinha que ser mudada e dizia, “como é que é possível escrever cisne sem um ípsilon, que recria o cisne, o pescoço do cisne?” É uma imagem poética maravilhosa, que só mesmo Fernando Pessoa a faria.

Mas esse desconforto que acontece hoje, aconteceu sempre que houve alterações ortográficas e, portanto, há um período de adaptação, nós hoje já nem nos lembramos que se escrevia farmácia com “ph” e que era a referência grega, não é? Portanto, nós perdemos essa referência na farmácia e iremos perder, ao longo da nossa História, nos próximos cem anos e duzentos anos, certas referências. Mas essa actualização da grafia, que volta e meia ocorre, e que, ao contrário do que aqui foi dito, peço desculpa, não quero contrariar quem sabe mais do que eu sobre essa matéria, e eu não sei tanto quanto os professores aqui presentes, mas ainda ontem confirmei com espe.. com duas pessoas especialistas, de resto, em alemão, que me disseram que recentemente houve um acordo ortográfico entre a Alemanha e a Áustria.

Portanto, há correntemente a necessidade de se fazerem acordos entre países diferentes com a mesma língua. Se este acordo não está bem, porque não investigar e perceber porquê e encontrar forma de o melhorar. Se ele não serve a sociedade portuguesa, cá estaremos para fazer a avaliação política dessa posição da sociedade civil. Agora o que é preciso é nós compreendermos todos os parâmetros e todos os factores que levaram a este momento, a esta discussão do acordo.

Mais uma vez, muito obrigada pela vossa presença.»

[Nota: pode ouvir a gravação na íntegra AQUI ou acedendo à mesma através da página da respectiva audiência no “site” do Parlamento.]