ILC contra o Acordo Ortográfico

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À semelhança daquilo que fez há dias Henrique Neto, também António Sampaio da Nóvoa, igualmente candidato às próximas eleições presidenciais, vem a público manifestar a sua posição em relação ao “acordo ortográfico” de 1990.

JN_SNovoa_2015-05-25, às 16.59.17Admitindo que se trata de “um problema complicado”, por causa dos acordos internacionais, mas defende que o AO deve ser reavaliado com muita determinação. “Na qualidade de candidato presidencial digo que esta questão tem de ser recolocada em cima da mesa dos debates com enorme cuidado, esperando que se consiga fazer uma avaliação do que aconteceu até agora e consigamos repor em novos moldes algumas orientações sobre esta matéria. É um problema que, na minha condição de Presidente da República, espero ajudar a resolver. O que está a acontecer não é bom para nada, inclusive para o fortalecimento dos laços entre os povos”, justificou, Nóvoa, já depois de lembrar que na qualidade de reitor e de professor é contra o AO.

(…)

[Transcrição parcial de notícia publicada no “Jornal de Notícias” online de 25.05.15. Texto corrigido automaticamente para Português Europeu.]

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«O acordo ortográfico é uma violação dos direitos dos portugueses relativo à preservação da sua língua na sua estrutura formal e etimológica, um património inalienável. É uma cedência ao facilitismo, à ignorância e aos interesses pessoais de gente sem mérito ou inteligência. Enquanto tradutora sou obrigada por vários clientes a escrever “com o acordo”, mas sempre que posso e depende só de mim, repudio o acordo. Graças a isso, poderão ler legendas em BOM português no Festival Olhares do Mediterrâneo.»
Sara David Lopes
Programadora do Festival

A 2ª edição do festival ‘Olhares do Mediterrâneo’ decorre de 5 a 7 de Junho, em Lisboa, no Cinema São Jorge, integrando a programação das Festas de Lisboa.

Durante 3 dias, serão exibidos 30 filmes de cineastas de 12 países do Mediterrâneo: Bósnia, Egipto, Espanha, França, Grécia, Israel, Líbano, Malta, Palestina, Portugal, Turquia e Tunísia. A diversidade de temáticas, géneros e olhares da selecção de 2015 será mostrada em quatro sessões de curtas-metragens e oito sessões de longas-metragens, em que a presença portuguesa ocupa um terço do programa.

Os filmes estarão em competição para atribuição de um Prémio do Júri e do Público.

Estreias mundiais e europeias marcam a programação, assim como a presença de realizadoras convidadas, que estarão disponíveis para entrevistas. Maria João Seixas é a embaixadora desta edição de Olhares do Mediterrâneo e está também disponível para ser entrevistada.

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MEC_Publico_20_5_2015Daqui a 50 anos, em 2065, quase todos os opositores do analfabeto Acordo Ortográfico estarão mortos. Em contrapartida, as crianças que este ano, em 2015, começaram a ser ensinadas a escrever tortograficamente, terão 55 anos ou menos. Ou seja: mandarão no país e na língua oficial portuguesa.

A jogada repugnante dos acordistas imperialistas — ignorantes e cada vez mais desacompanhados pelas ex-colónias que tentaram recolonizar ortograficamente — terá ganho tanto por manha como por estultícia.

As vítimas e os alvos dos conspiradores do AO90 não somos nós: são as criancinhas que não sabem defender-se. Deseducando-as sistematicamente, conseguirão enganá-las facilmente. A ignorância é a inocência. Pensarão, a partir deste ano, que só existe aquela maneira de escrever a língua portuguesa.

Os adversários morrerão e predominará a inestética e estúpida ortografia de quem quis unir o “mundo lusófono” através de um Esperanto lusográfico que não tem uma única vontade colectiva ou raiz comum.

Como bilingue anglo-português, incito os jovens portugueses que falam bem inglês (quase todos) a falar português com a exactidão fonética, vinda do bom latim, da língua portuguesa. Eu digo “exacto” e “correcto” como digo “pacto” e “concreto”. Digo “facto” como fact, tal como “pacto” como pact.

Falar como se escreve (ou escrevia) é um acto de rebeldia. Ler todas as letras é libertador. Compreender a raiz das palavras é conhecê-las e poder tratá-las por tu.

Às armas!

[Transcrição integral de artigo no jornal “Público” de 20.05.15. “Links” nossos. ]

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Anacleto estava radiante. Já lhe tinham dito lá na repartição mas ele não acreditava. No dia 13, o das aparições lá de Fátima, já podia escrever com menos letras, que alívio. Agora era lei, já não podiam gozar com ele quando escrevia “coação” e lhe perguntavam onde é que tinha comprado o coador. Só podia ser mesmo bênção dos pastorinhos. Ele tinha-se informado, sabia tudo. Até ao dia 13, havia na escrita portuguesa duas ortografias. Uma para Portugal e outra para o Brasil. Um excesso! Agora, a partir de dia 13, passa haver só duas ortografias. Reparem bem na subtileza: duas e “só duas”. Completamente diferente. As duas antigas tinham muitas palavras diferentes, e além disso eram duas. As novas também têm palavras diferentes (não exactamente as mesmas, porque é preciso variar, a escrita tem de vencer o tédio) e são “só duas”. Ora é com este “só duas” que o português vai finalmente ser aceite lá na ONU, na UE, na CEDEAO e nessas coisas todas importantes. Mesmo na colectividade lá do bairro, onde os comunicados já estavam a ser escritos em mandarim, ia passar a imperar o “só duas”. Que é uma escrita comum, como está bom de ver.

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Publico-20150516

À memória do Vasco Graça Moura

Não sei se são válidos ou não os argumentos jurídicos que discutem a data da aplicação efectiva do Acordo Ortográfico [AO], se nestes dias, ou em 2016. Isso não me interessa em particular, a não ser para registar a pressa suspeita em o aplicar contra tudo e contra todos. Mas uma coisa eu sei ao certo: é que o desprezo concreto do bem que ele pretende regular, a língua portuguesa, é evidente nessa mistura sinistra de inércia, indiferença e imposição burocrática com que se pretende obrigar os portugueses a escrever de uma forma cada vez mais abastardada.

Na sua intenção original, o Acordo pretendia ser um acto de política externa, uma forma de manter algum controlo sobre o português escrito pelo mundo todo, como forma de garantir uma réstia de influência portuguesa num conjunto de países que, cada vez mais, se afastam da centralidade portuguesa, em particular o Brasil. Se é um “acordo” é suposto que seja com alguém. No entanto, desse ponto de vista, o AO é um grande falhanço diplomático, visto que está neste momento em vigor apenas em Portugal, com promessas do Brasil e Cabo Verde, esquecimento em Moçambique, Guiné Bissau, S. Tomé e Timor-Leste, e recusa activa em Angola. Nalguns casos há protelamentos sucessivos, implementações adiadas e uma geral indiferença e má vontade. Para além disso, nenhuma implementação do AO, vagamente parecida com a pressão burocrática que tem sido feita em Portugal, existe em nenhum país, a começar por aquele que parecia ser o seu principal beneficiado, o Brasil. Ratificado ele foi, aplicado, não.

Mas com o mal ou a sorte (mais a sorte que o mal) dos outros podemos nós bem, mas ele revela o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.

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publicoAnda por aí grande agitação por causa de uma notícia que dá o dia de hoje, 13 de Maio (por sinal aquele em que se celebram as primeiras aparições em Fátima), como o do fim do prazo de transição de seis anos do chamado Acordo Ortográfico de 1990. Ou seja: hoje, o país inteiro, se fosse bem comportado, deveria já estar todo a escrever com a ortografia daquilo a que alguns chamam “o português do século XXI”. Passando ao lado da discussão sobre a data exacta do fim do prazo de transição (…), a verdade é que em Portugal ele já é aplicado em grande parte da máquina do Estado e no ensino, optando a sociedade civil por escrever com ele ou contra ele. Vantagens visíveis? Nenhuma, além do caos gerado com facultatividades, duplas grafias e palavras que antes eram iguais em Portugal e no Brasil e agora, por “milagre” da “unificação”, passaram a escrever-se de forma diferente em cada um dos países. Não há edições comuns à lusofonia, como se propagandeou, continua a haver traduções distintas, filmes continuam e continuarão a ser legendados separadamente (assim manda o vocabulário), livros são “retocados” para ser editados em Portugal ou no Brasil e nada indica que isso se altere. O Brasil, cujo prazo para aplicação integral termina em Janeiro de 2016, já fala em rever o acordo. Angola e Moçambique adiam e esperam para ver, Cabo Verde aplica-o em parte mas sem convicção, Guiné e São Tomé queixam-se de falta de meios para o aplicar e Timor-Leste discute ainda a conveniência de ensinar e aprender o português. Língua que está, infelizmente, longe de ser encarada como “de trabalho” nas instâncias internacionais. Conclusão: todo o esforço acabou nisto. Uma deriva ortográfica inqualificável e regras que a política quis e quer impor, à força, à ciência. Neste cenário, ignorá-las-emos.

[Transcrição parcial do Editorial do jornal “Público” de 13.05.15. “Links” nossos.]

adriano_moreira_SNPC«A Língua transita. Sem precisar dessas ajudas. E é portanto isso que me leva a ter esta atitude em relação à Língua. Eu acho que ela muda, absolutamente, de acordo com a cultura local, em qualquer país onde ela se venha a implantar, recebe valores que os outros recebem, é inevitável isso, e portanto é melhor não pensar que há a capacidade de impor à Língua a evolução. E por isso é que eu achei que foi inoportuna a intervenção; simplesmente, eu próprio fui vítima disso. Porque eu era nessa altura Presidente da Academia das Ciências, que é responsável pela língua, tive um trabalho enorme para recolher o dinheiro necessário para fazer o novo dicionário etc., e afinal o Brasil adiou a entrada em vigor. Mas eu, como era Presidente da Academia, achei que tinha que obedecer à lei.»

Adriano Moreira

(“click” para ouvir)

“Páginas de Português” de 03 Maio 2015

RDP: Afirmação do Presidente da Academia de Ciências de Lisboa: «a Língua Portuguesa não é nossa; também é nossa.»

Adriano Moreira:  Bom, isso foi a propósito do acordo ortográfico. Para começar, é preciso lembrar que foi o Governo português, ainda na [1.ª] República, que fez a primeira intervenção legal para alterar a ortografia. E quando eu digo “a Língua não é nossa, também é nossa” é porque a Língua Portuguesa foi utilizada como instrumento de expansão, assimilação, educação, pregação etc., em todas as latitudes. Mas acontece que, em cada lugar, a Língua, em primeiro lugar, adquire valores que são diferentes; por exemplo, mesmo a Língua Portuguesa que se fala no Brasil tem valores ameríndios, tem valores africanos, italianos, japoneses, alemães; nós não temos. E portanto passa a ser diferente. Isso acontece também em África e isso acontece também no Oriente; Timor até tem valores do invasor, porque gerações ficaram submetidas a isso, a esse poder. E também há outras regras, que essas são para  especialistas, não são para mim, mas, em todo o caso, posso dar exemplos dos que eu percebi e que é o seguinte: quando há um fenómeno de colonização, o colonizador abre as vogais – para ser melhor entendido; e se o destinatário, que é o nativo ou é o escravo, deturpa a palavra, ele acaba por adoptar a deturpação porque com isso é entendido. Depois, quando as sociedades se tornam industrializadas, deixam cair as vogais – falam mais depressa, as ordens são mais rápidas. Num país ocupado, sussurra, não fala; e também altera a Língua. E portanto,  como cada uma das comunidades passa por circunstâncias diferentes, contactos diferentes, assimilação de valores diferentes, eu, para exprimir essa circunstância, ocorreu-me essa expressão: a Língua não é nossa, também é nossa. Porque ela muda depois nos vários lugares. E, designadamente, é muito interessante ver isso sobretudo nas comunidades portuguesas no estrangeiro, que têm que assimilar valores do país onde se instalam, mesmo quando adquirem a Língua do país mantêm a lembrança e as palavras e dão-lhes sentidos diferentes e entoações diferentes etc., é mais uma circunstância que leva a que nós possamos dizer que são comunidades portuguesas, têm um “papiar” [“patoá“?] cristão, mas é diferente daquele que nós falamos aqui. É isto que eu quero dizer, simplesmente, com essa expressão “a Língua não é nossa, também é nossa” e por isso mesmo acho que é preciso ter muita cautela com intervenções legislativas.

RDP: Como por exemplo?

AM: Como se fez agora. Porque a iniciativa foi do Brasil, desta vez. O Brasil já adiou a entrada em vigor, Angola recusou-se a assinar, outras antigas colónias também se recusaram a assinar. Primeiro, porque a nossa Língua é ali um enxerto na cultura local, implantação, e portanto eles são muito conscientes da maneira como a Língua foi assimilada e é oficialmente a Língua do país. Isso é a primeira coisa. A segunda coisa é que, do ponto de vista financeiro, essas mudanças, sobretudo para economias fracas, têm consequências muito sérias.  Suponha… os livros escolares, em que os editores, como sabe, guardam os instrumentos de impressão que depois reutilizam; se mudar a grafia, eles têm de fazer a revisão completa.

RDP: Mas hoje há ferramentas que ajudam nisso…

AM: Pois ajudam. Mas a palavra “ajuda” não é gratuita. Suponha uma enciclopédia, livros científicos: tudo isso tem encargos, sobretudo em momentos de crise, que os editores têm motivos para ter cautela porque a relação com a clientela provavelmente diminui e os encargos com a impressão aumentaram.  Há várias razões, portanto, para isso.

RDP: Mas também tiveram um período de transição, para se prepararem…

AM: Sim, mas ela transita. A Língua transita. Sem precisar dessas ajudas. E é portanto isso que me leva a ter esta atitude em relação à Língua. Eu acho que ela muda, absolutamente, de acordo com a cultura local, em qualquer país onde ela se venha a implantar, recebe valores que os outros recebem, é inevitável isso, e portanto é melhor não pensar que há a capacidade de impor à Língua a evolução. E por isso é que eu achei que foi inoportuna a intervenção; simplesmente, eu próprio fui vítima disso.  Porque eu era nessa altura Presidente da Academia das Ciências, que é responsável pela língua, tive um trabalho enorme para recolher o dinheiro necessário para fazer o novo dicionário etc.,  e afinal o Brasil adiou a entrada em vigor. Mas eu, como era Presidente da Academia, achei que tinha que obedecer à lei.  É claro que não me acontecia nada de mal se não obedecesse. Mas não se trata disso. Trata-se de, se se está à frente da instituição responsável, é melhor salvaguardar a intervenção da instituição. E é isto. Com simplicidade, é  só isto.

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Neste “debate”, emitido pela RDP – Antena 1 no dia 3 de Maio 2015 (com repetição no Domingo seguinte), a escritora Teolinda Gersão confronta o chamado “pai” do “acordo ortográfico”, Malaca Casteleiro. Visto que se trata de um “debate”, com inúmeras interrupções de parte a parte, transcrevemos em formato de entrevista apenas as intervenções de Teolinda Gersão. Os “links” e destaques são, obviamente, de nossa responsabilidade.

 

RDP: Teolinda Gersão, olhando a Língua nesta perspectiva história e evolutiva: crê que há necessidade, que havia necessidade, de a legislar? De a modificar através de Lei?

Teolinda Gersão: Obviamente que não e eu devo dizer que estou totalmente em desacordo com esta tentativa de uniformização porque ela é completamente impossível, nunca vai acontecer — e são os próprios brasileiros que o dizem. Eu estava a ouvir o Malaca Casteleiro e parecia-me que estava a ouvir um tratado de um académico, portanto, algo que pertence às academias mas que não está ligado à vida real. E eu vou falar em nome da vida real e do meu conhecimento, obviamente da Língua Portuguesa, mas também da variante brasileira porque a conheço muito bem, vivi dois anos em São Paulo, tenho imensos amigos brasileiros, aprendi a escrever Português lendo também autores brasileiros como Machado de Assis, por exemplo, ou Guimarães Rosa ou Drummond de Andrade ou quaisquer outros…

RDP: E leu nas versões brasileiras.

TG: Nas versões brasileiras. E em casa, desde criança que me explicavam “ah, no Brasil diz-se assim”. “Esta palavra” (por exemplo, “Ipê“) “não existe cá, é uma árvore que eles têm lá”. Explicavam-me e eu andava para a frente. E tropeçava na sintaxe, via que a gramática era diferente, a construção da frase era diferente, mas diziam-me “lá eles dizem assim, nós dizemos de outra maneira” e isso não me fazia confusão nenhuma…

RDP: Léxico e sintaxe. E a ortografia…

TG: A ortografia é um pormenor. O importante é o léxico e a sintaxe. E nunca vamos chegar a acordo nenhum. E mesmo na ortografia também não. Eu estava a ouvir tudo isto e estava a pensar: um acordo que se tenta fazer, no fundo, há cem anos, praticamente, e que não se consegue fazer, tem alguma coisa de errado na base. Porque se em ’45 os brasileiros não o aceitaram e “mandaram para o espaço” o que nós tínhamos pensado e não o puseram em prática — estavam no seu direito e fizeram eles muito bem — não queriam reintroduzir consoantes que já não pronunciavam. Nós temos o mesmo direito de agora não cortar consoantes que pronunciamos ou outras que são etimológicas. Não podemos rasurar a etimologia. Obviamente que o Brasil é um país muito jovem, a independência é em 1822, portanto é no séc. XIX, estamos quase, ainda, vizinhos dessa data e é um país onde nunca houve, nem haverá, uma única ruína romana, obviamente. Roma não lhes diz nada e o latim não lhes diz nada. E o Brasil é produto de uma fusão enorme de Línguas de emigrantes que para lá foram. A maioria foi portuguesa, obviamente, mas havia os indígenas e depois nós…

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Crie os seus próprios selos de correio contra o Acordo OrtográficoNo passado dia 10 de Abril, seguindo uma sugestão de um subscritor, a ILC propôs que se desse início à recolha de 7.500 assinaturas para a criação de um Partido Político. Este partido teria, como ponto único do seu programa, a revogação da entrada em vigor do AO90.

Desde essa data, temos vindo a debater esta ideia com várias pessoas.

A proposta, de um modo geral, tem sido bem aceite. Há mesmo que diga, dando como exemplo o seu caso pessoal, que um Partido assim poderá reconciliar “pelo menos um” eleitor com as urnas de voto. Mas, como é natural, há também quem refira dúvidas e inquietações.

Uma questão levantada por várias pessoas prende-se com o próprio conceito de “Partido Político”, por oposição à criação de um “Movimento”. Um “Movimento”, dizem, tende a ser mais abrangente, na medida em que pode recolher o contributo de um sector alargado da população, independentemente de credos políticos, religiosos ou outros.

No caso da Língua Portuguesa, um “Movimento” poderia integrar pessoas da extrema esquerda à extrema direita, passando, evidentemente e por esmagadora maioria de razões, pelo chamado “centrão”. Isto significa, de forma absolutamente abrangente e transversal, que pessoas cujas opiniões sobre outros assuntos podem divergir quase por completo encontrariam no “Movimento” um denominador comum que lhes permitiria actuar em conjunto.

Em contraponto, um Partido Político tende geralmente a rotular-se (ou a ser rotulado) — desde logo entre esquerda e direita, levando ao afastamento de quem quer que não se reveja nesses rótulos.

O argumento tem alguma lógica, mas não se aplica a este caso em concreto.

Em primeiro lugar, aquilo que propomos não é um partido político comum. Não se pode aplicar rótulos a um partido que não se pronuncia sobre política externa, sobre produto interno bruto ou sobre taxas de desemprego, por exemplo. Na verdade, aquilo que propomos é um “movimento”. Inclusivamente, o nome proposto — M-nAO: Movimento não ao Acordo Ortográfico — contém a palavra “movimento”.

Porquê, então, a criação de um Partido?

Como sabemos, não seria o primeiro partido a recorrer à palavra “movimento”. Os exemplos abundam e, aqui sim, é possível dizer, da esquerda à direita. Em rigor, enquanto movimento, o M-nAO será sempre infinitamente mais genuíno do que muitos partidos que ostentam a palavra “movimento” nas suas siglas.

Neste contexto, as razões para a criação de um partido são muito simples: desde logo, manteremos todas as vantagens associadas a um movimento — agilidade e mobilização em torno de objectivos simples e claros. Mas teremos também as vantagens de um partido político: forçando as restantes forças políticas a pronunciar-se sobre o assunto (em vez de fugirem dele como o diabo da cruz) e mostrando a determinação de todos quantos lutam contra o acordo — seria a primeira vez que uma Causa de interesse nacional mobilizaria os cidadãos ao ponto de estes se constituírem em partido. Seria, sem dúvida, uma mensagem poderosa, capaz de se fazer ouvir até noutros países de expressão oficial portuguesa.

E já este pequeno texto ia lançado quando li, hoje, aquele que será talvez o melhor argumento a favor da criação de um partido: Diz João Roque Dias, algures no Facebook:

Os partidos, desgraçadamente, ainda não perceberam que o aborto ortográfico é uma ferida aberta na sociedade portuguesa, mais funda do que possam imaginar. Estupidamente […] querem acreditar que a rejeição do aborto não passa de uma teimosia de um bando de loucos que quer escrever “pharmacia”. Senhores dos partidos: estes “loucos” votam. E há “loucos” que acham este assunto tão ou mais importante do que umas promessas de mais ou de menos cortes nas pensões ou na Educação. E, por isso, não votam.

“Não votam”, diz João Roque Dias. Neste último ponto tenho de discordar. Havendo essa possibilidade, havendo uma alternativa coerente, não deveremos nós, “loucos” confessos, votar?

Rui Valente

Estive entre a assistência no evento do passado dia 14 de Abril, no anfiteatro da FLUL, e gravei em vídeo as intervenções dos convidados. Ao que parece, a organização do evento não possui qualquer registo da intervenção de Francisco Miguel Valada. Aqui fica.
Rui Valente