ILC contra o Acordo Ortográfico

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Museu da Língua PortuguesaDe passagem por São Paulo, não podíamos deixar de passar pelo famoso Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz. É realmente um passeio que vale a pena, quer pelas exposições temporárias, quer pelo espectáculo multimédia e pelo cronograma que nos mostra a viagem da Língua.

No campo do multimédia destacamos o écran com 106 metros de comprimento, um autêntico fresco da sociedade e da cultura brasileira que nos leva em passeio pela gastronomia, pela natureza, pelas praias, pelo futebol, pelo carnaval… e nos mostra de que forma essas áreas influenciam a Língua.IMG_3931 Também vale a pena ver um filme sobre a Língua num auditório vocacionado para esse fim. No final do filme o écran levanta-se e dá acesso a uma nova sala onde somos cercados por palavras que voam pelas quatro paredes, evocando as frases mais marcantes da literatura em Português, tal como foram escritas por Fernando Pessoa, Camões, Herberto Helder, Machado de Assis, e muitos outros autores dos vários países de expressão oficial portuguesa.

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Tomar partido, sim!

1 comentário

tshirt1A Constituição da República portuguesa atribui a “Iniciativa da Lei” aos deputados, ao Governo e — conquista importante da democracia — a grupos de cidadãos devidamente recenseados. Infelizmente, a Lei que regulamenta a Iniciativa Legislativa de Cidadãos fixa um limite mínimo de 35.000 assinaturas para a submissão de um Projecto de Lei a discussão e votação no Parlamento. É um número absurdamente alto, que na prática inviabiliza o exercício deste direito por parte dos portugueses.

Trinta e cinco mil subscrições em papel são uma tarefa quase impossível para um grupo de cidadãos que, sem outros meios além da vontade individual dos seus promotores, activistas e voluntários, tenta levar um Projecto de Lei ao Parlamento. O número é de tal forma elevado que se presta a esta confusão: muitas pessoas julgam que basta reunir 35.000 assinaturas para que a Lei seja automaticamente aprovada. Na verdade, o Projecto de Lei contido numa ILC terá ainda de ser votado em plenário — isto, claro, se não tropeçar antes num qualquer tecnicismo de secretaria e não chegar sequer a ser admitido. Ou seja: a vontade expressa de 35.000 cidadãos eleitores poderá não servir para nada.

A Lei 17/2003, que rege as ILC, é, de facto, uma lei “para cidadão ver”.

A ILC-AO, visando a revogação da RAR 35/2008, reuniu até agora cerca de 15.000 assinaturas. Em papel. Um número extraordinário para uma Iniciativa sem meios, mas insuficiente para o fim em vista. Muitas vezes olhámos para este número e pensámos: “Quinze mil assinaturas… bem, isso daria para promover duas candidaturas à Presidência da República! Ou para inscrever dois partidos políticos no Tribunal Constitucional…”

De facto, a ideia sempre andou por aí. Rondou-nos, insinuou-se, às vezes quase se metia pelos nossos olhos dentro. “Apenas” teríamos de voltar ao princípio, ou seja, lançar uma nova campanha de recolha de  assinaturas, mas desta vez tendo por objectivo “só” 7.500 e já não 35.000, essa absurda enormidade.

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orwellcontrolA minha identidade

João Malaca Casteleiro aproveitou uma aberta na sua tournée mundial “em prol” da Língua Portuguesa e marcou presença no programa “A Tarde é Sua”, na TVI.

Logo na intervenção de abertura, mostrou ao que vinha: “o Acordo Ortográfico põe fim a uma guerra que dura há mais de cem anos”.

É certo que a reforma ortográfica de 1911 era desnecessária. No entanto, passados tantos anos, a “guerra” de que fala Malaca Casteleiro é um delírio que já só existe na cabeça de alguns iluminados. Para a esmagadora maioria dos falantes de Português no mundo, as diferenças estão mais do que incorporadas e são objecto não de quezília mas de prazenteiro diálogo entre portugueses, brasileiros, angolanos e demais países da CPLP.

Assim, para acabar com uma guerra que não existia, Malaca Casteleiro não teve qualquer problema em começar outra — esta, sim, bem real. É uma autêntica guerra civil, que se trava no nosso país. As notícias da frente de batalha chegam-nos todos os dias através do índice cAOs, alojado nestas páginas, e não deixam dúvidas: o Português Europeu está a ser massacrado.

Como sempre dissémos, unificar a ortografia ao fim de tantos anos é missão impossível. Criaram-se milhares de palavras diferentes, em que o AO não toca, e que continuarão a ser efectivamente diferentes dentro e fora do Brasil: desporto/esporte, camião/caminhão, monitorização/monitoração, etc., etc., etc. O próprio AO acrescenta palavras a esta lista, ao grafar agora de forma diferente palavras que sempre se escreveram da mesma maneira.

O AO também não toca nos casos em que as palavras até existem nos dois lados do Atlântico, mas a primeira escolha é invariavelmente diferente para os brasileiros e para os restantes países da CPLP: trem/comboio, usuário/utilizador, aplicativo/aplicação, suco/sumo, tela/écran, etc., etc. A incidência destes casos será porventura ainda maior do que os de dupla grafia referidos anteriormente.

Considere-se-se ainda a lista de palavras cujo significado difere consoante o país: camisa, bicha, terno, banheiro, bilheteira, cadastro…

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NP Revista2 2015-03-22

Há dias convidaram-me para uma “cerimônia”. Não fui. Não pelo convite, ou por inconveniências temporais, mas pela incongruência da expressão. A dita “cerimônia” não se realizava no Rio, São Paulo ou qualquer outra cidade brasileira, mas em Lisboa e o convite partiu de um português. Que se passará para termos agora “cerimônias” em vez de cerimónias? Ignorância? Dicionário errado?

Seja o que for, o mesmo problema pode também afectar Nelson. Nelson é, suponhamos, um aluno instruído no Rio de Janeiro que, por migração dos pais, se mudou para Lisboa e ali prosseguiu os estudos. Num teste escolar, teve pela frente um texto livre dedicado aos transportes. Nelson não teria problemas, escrevia bem, pelo menos era o que lhe diziam no Rio, e atirou-se à escrita. Mas o professor veio depois admoestá-lo, baixando-lhe a nota, por “vários” erros ortográficos. Escreveu Nelson, seguro de si, as palavras “trem”, “cotidiano”, “recepção”, “excepcional”, “concepção”, “aspecto” e “quatorze”. O professor emendou “trem” para “comboio” (“essa palavra não se usa por cá com esse sentido, só no Brasil”), “cotidiano” (palavra que é admitida pelo Dicionário Houaiss) para “quotidiano”, “recepção” para “receção”, “excepcional” para “excecional”, “concepção” para “conceção”, “aspecto” para “aspeto” e “quatorze” (como no Brasil se escreve, regularmente, há décadas) para “catorze”. Nelson estava estupefacto (ou estaria “estupefato”?): então não havia, agora, uma ortografia comum, em que 99% das palavras eram grafadas da mesma maneira em todas as pátrias de língua portuguesa?

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antena1Portugueses no Mundo

Teresa Carapuça: São Paulo, Brasil | 17 Mar, 2015

leya_br

_E os livros de autores portugueses… no Brasil… são editados sempre em Português em função do novo acordo ou ainda há autores que surgem com o acordo antigo… como é?

_Os livros são editados aqui no Brasil de acordo com… com a língua brasileira. Portanto, têm algumas alterações das [edições] de Portugal e a língua brasileira é ligeiramente diferente.

Extracto de entrevista telefónica da “Antena 1” a uma representante da Editora Leya no Brasil. Programa “Portugueses no Mundo”, emissão de 17.03.15.

[Informação de Maria José Abranches, por “email”.]

«Todas as notícias são redigidas segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.»

Publico_Brasil1

Nova parceria leva PÚBLICO a universo de 50 milhões de leitores

PÚBLICO
17/03/2015 – 11:08

No ano em que completa 25 anos, o jornal passa a ter uma edição online especial para o Brasil.

A partir desta terça-feira, 17 de Março, o PÚBLICO estará disponível para os leitores do UOL, a maior empresa brasileira de conteúdo, produtos e serviços de Internet do Brasil, com mais de 7400 milhões de páginas vistas por mês. A sua homepage recebe mais de 50 milhões de visitantes únicos por mês. Pioneiro na Internet brasileira, oferece um extenso conteúdo disponível em língua portuguesa, com mais de mil canais de jornalismo, informação, entretenimento e serviços.

A edição especial online do PÚBLICO para o Brasil terá uma selecção de artigos com particular interesse para os leitores brasileiros, mantendo a ortografia portuguesa. Actualmente, 7% a 10% do tráfego do site do PÚBLICO vem do Brasil. O objectivo da parcerIa com o UOL é aumentar o número de brasileiros que lêem o PÚBLICO. A edição brasileira será da responsabilidade dos jornalistas Hugo Torres, gestor de comunidades e redes sociais, em Lisboa, e Andréia Azevedo Soares, editora do P3, no Porto.

“O Brasil é uma das prioridades do PÚBLICO e este é um importante passo na nossa estratégia de expansão, um trabalho que começou há mais de um ano”, disse Simone Duarte, directora adjunta do jornal com o pelouro da internacionalização. “Em 2014 escolhemos o Brasil como principal tema editorial, enviámos dez jornalistas ao país, publicámos artigos e reportagens especiais de Março a Dezembro e tivemos Adriana Calcanhotto como directora por um dia na edição de aniversário. O mercado brasileiro é uma grande aposta.”

(…)

“Público”, 17 de Março de 2015

Publico-20150315Acordo Ortográfico de 1990: o regresso das falácias convenientes

Francisco Miguel Valada

Os próprios poderes públicos que estão na génese do AO90 demonstram a falácia da “ortografia comum”.

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…é confundir a arca do dilúvio com uma pipa apocalíptica

GNR, O Paciente (Psicopátria, 1986)

Em debate na TVI moderado por Fátima Lopes – e com António Chagas Baptista a atacar de forma muito competente o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) –, João Malaca Casteleiro apresentou três “razões essenciais” para justificar a pertinência do instrumento em apreço: razão histórica, razão linguística e razão política. São razões facilmente rebatidas em meia dúzia de linhas: do ponto de vista histórico, a demanda do Preste João ou andar aos gambozinos (citando J. M. Casteleiro: “conseguir chegar a uma ortografia comum”) nunca significou que o reino do Preste ou os gambozinos existissem e, do ponto de vista político, está por provar o benefício para a língua portuguesa da criação em Portugal da palavra ‘perspetiva’ (sic), substituta da ‘perspectiva’ mantida no Brasil.

J. M. Casteleiro considera que agora existe uma “ortografia comum”. Em Outubro do ano passado, introduzi no conversor Lince do ILTEC os programas políticos dos três candidatos à presidência do Brasil e obtive, entre outros, os seguintes resultados: “aspecto convertido para aspeto”; “concepção convertido para conceção”; “confecções convertido para confeções”; “excepcionais convertido para excecionais”; “facções convertido para fações”; “infecciosas convertido para infeciosas”; “percepção convertido para perceção”; “perspectiva convertido para perspetiva”; “recepção convertido para receção”; “receptiva convertido para recetiva”; “receptividade convertido para recetividade“; “receptor convertido para recetor”; “respectivamente convertido para respetivamente”; “respectivas convertido para respetivas”; “ruptura convertido para rutura”.

Ou seja, se quiser escrever ‘aspecto’, ‘concepção’, ‘confecções’, ‘excepcionais’, ‘facções’, ‘infecciosas’, ‘percepção’, ‘perspectiva’, ‘recepção’, ‘receptiva’, ‘receptividade’, ‘receptor’, ‘respectivamente’ ou ‘ruptura’, o AO90 não me permite tais veleidades, porque sou falante e escrevente de português europeu, mas um falante e escrevente de português do Brasil pode continuar a fazê-lo. Um dos resultados tangíveis da “ortografia comum” anunciada por J. M. Casteleiro encontra-se patente em dois textos publicados recentemente e com inegável importância política. No prefácio do livro Roteiros IX, Cavaco Silva escreve “perspetiva de ligação”, “aspetos essenciais” e “respetivos líderes políticos”. Contudo, na Mensagem ao Congresso Nacional (o documento que inaugura oficialmente o ano legislativo no Brasil), podemos ler “perspectiva de redução de custos”, “diversos aspectos da previdência complementar” e “respectivos sistemas estaduais de cultura”. Efectivamente, os próprios poderes públicos que estão na génese do AO90 demonstram a falácia da “ortografia comum”.

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JF Jan2015Em 2014 o Acordo Ortográfico continuou a ser imposto à força pelo Governo. Chegámos, assim, a novos patamares na iliteracia a que o país parece votado.

A recente série de artigos no “site” da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico não deixa margem para dúvidas: ficional, contatar, elítico, autótone, convição, impatante, sujacente, critografia, interrutor, Netuno, otometria, gravidez etópica, artefato, otogenário, fricionar, abrutamente, proveta idade, ácido lático, encritação, espetável, números fratais, ténica, plânton, conetar, trítico, inteletual, conveção, batericida, egício, etc, etc.

Esta torrente, que continua, desmonta as desculpas habituais: “foi uma gralha, é um caso pontual, não há constrangimentos, está tudo bem”. São milhares de erros que não existiam antes do AO, provenientes de fontes tão insuspeitas como o Diário da República, teses de doutoramento, bulas medicinais e rodapés de programas de televisão.

Primeiro veio a TLEBS, fazendo tábua rasa de conceitos e de uma nomenclatura centenária, comum a dezenas de Línguas e inviabilizando a troca de conhecimentos entre pais e filhos. Com o AO, chegámos ao reino das facultatividades e do “escreve-se como se diz”.

Bem podemos (fingir) decidir “nunca” utilizar o AO. Mas temos mesmo de o utilizar, quando lemos. O AO entra-nos pelos olhos dentro. E faz doer a vista. Em poucos anos, o AO conseguiu a proeza de instituir o folclore das ementas de restaurante.

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Braid_1Este artigo não é só para “gamers”. Mas eles, mais do que ninguém, reconhecem este cenário: ao abrir pela primeira vez um jogo no computador ou numa consola, o jogo pergunta-nos em que Língua queremos jogar. Quando só existem duas ou três opções o jogo limita-se geralmente ao Inglês, Francês e Espanhol. Mas se tivermos cinco ou seis alternativas, é possível que o Português seja uma delas. Excelente? Nem por isso. Na grande maioria dos casos, “Português” corresponde a “Português do Brasil”. A Sony/Playstation é a pior neste capítulo. Tudo vem em “brasileiro” e não me refiro apenas à ortografia. Sintaxe, vocabulário, tudo é Português do Brasil.

Para quê fazer duas traduções? Agora até há um acordo ortográfico e tudo!

É por isso que não posso deixar de enaltecer aqui a opção da Hothead Games, criadores de Braid.

Braid é um jogo de plataformas aclamado por várias revistas da especialidade. “Editor’s Choice” na App Store, Braid é um jogo de puzzles imaginativos num cenário deslumbrante. Mas a maior surpresa vem com a sua instalação — o jogo está disponível em Inglês, Alemão, Espanhol, Italiano e Português (e três línguas orientais cujos caracteres não consigo identificar). Escolho “Português” como opção, imaginando que, mais uma vez, teria de voltar atrás e passar para Inglês.

Então não é que “Português” é, muito simplesmente… Português? Português Europeu, sem Acordo Ortográfico.Braid_2

Infelizmente, não tenhamos ilusões. Esta é, claramente, uma situação de excepção. A situação já era dramática antes do AO90 e, se não revogarmos rapidamente este “acordo”, jogos como “Braid” vão ser cada vez mais raros.

P.S.: não, não me parece que haja uma palavra portuguesa para “gamer”.

Rui Valente

Publico-20141115Anda por aí à solta uma epidemia da obediência antecipada, um zelo narcísico em obedecer e uma pressa institucional em se fazer obedecer, a bem dos brandos costumes. Por toda a parte onde se escreva e não se questione: nas editoras, nas universidades, na escola, nos serviços públicos, nas entidades privadas “esclarecidas”. No gesto tão modernaço quanto burocraticamente hirto com que abusivamente se procura dar por “oficializado” esse disparate técnico e essa inépcia política designados “Acordo Ortográfico de 1990”, uns, mais papistas que o Papa, emitem despachos: e os subpapistas despacham-se a cumpri-los, pelo facto de serem despachos. Nessa concha fechada do institucionalismo, emitiriam e cumpririam também os despachos opostos, uns com a alegria maldosa do álibi hierárquico, os outros com o prazer perverso ligado ao acto simbólico do puro exercício formalista do poder. Ainda outros, entregues à tara provinciana de serem os primeiros; quando não é o caso de terem na mira uma oportunidade de negócio em letra impressa: “já” estarem do lado bom das vendas.

Essa admirável cultura da legalidade ignora viciosamente o vasto historial argumentativo da resistência científica e, por isso, cívica que desde 1986 torna tudo menos “evidente” (e “de vosselências mui atento e obrigado”) o cumprimento de despachados despachos.

Ah, admirável superstição de amanuenses dóceis, que nos vêm recordar, caso estivéssemos esquecidos, que a Lei é a Lei, e que a tal ponto esta tautologia é majestosa e em si mesma, que, dizem, submete por igual soberanos e súbditos, enchendo-nos a todos de candura e paz! Talvez seja vício filosófico perguntá-lo, mas, na fórmula mágica “igualdade perante a Lei”, perante que instância é que essa famosa “Lei” por sua vez responde?

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