ILC contra o Acordo Ortográfico

Ler, assinar, divulgar

Resultados da Pesquisa em língua unificada

PMexia-Expresso-07012012Antiga Ortografia

Fulano escreve “de acordo com a antiga ortografia”, diz o aviso que acompanha estas crónicas. Eu agradeço que o “Expresso” me permita a objecção de consciência face ao chamado Acordo Ortográfico, e percebo que indique quem segue ou não as novas regras, para evitar confusões; mas suspeito que esta fórmula foi inventada por alguém que pretende colar aos dissidentes o vocábulo “antiga”, como se nós escrevêssemos em galaico-português. Como se a língua que a maioria dos portugueses ainda usa se tornasse por simples decreto “antiga”: antiquada, decrépita, morta.

Eu não sou pela “antiga ortografia” por caturrice. Estou contra o “acordo” porque me parece uma decisão meramente política e económica, sem verdadeiro fundamento cultural. Os legisladores impuseram aos falantes uma “ortografia unificada”, que, dizem, garante a “expansão da língua” e o seu “prestígio internacional”. Mas a expansão da língua passa por uma política da língua, que Portugal, por exemplo, não tem tido, ocupados que estamos em fechar leitorados no estrangeiro, em aplicar uma abominável terminologia linguística nas escolas, em publicar um lamentável Dicionário da Academia, em expulsar Camilo dos currículos enquanto o substituímos por diálogos das novelas. Quanto ao prestígio internacional, lamento informar que foi o sucesso económico, e não a “língua de Camões”, que transformou o Brasil numa potência.
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Debate – A língua portuguesa e Acordo Ortográfico

Pare, escute e olhe! Ainda vamos a tempo de evitar o desastre!

Maria José Abranches
Professora de Português/Francês

Ainda não perdemos a língua, dependendo de cada um de nós, cidadãos eleitores, suspender a entrada em vigor deste Acordo Ortográfico, que desfigura, corrompe, e ultraja o português de Portugal, em nome duma pretensa “ortografia unificada”, considerada incontornável para o “prestígio internacional” da língua portuguesa, obviamente na versão brasileira!

Pare! E pense que está em causa a nossa língua materna, isto é, o próprio cerne da nossa identidade como povo europeu, com uma História e uma cultura forjadas ao longo dos séculos.
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Ensino do Português como língua materna ameaçado!

(…)
«Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada»
(…)
Com Fúria e Raiva, Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque é preciso recordar e relacionar: as coisas não acontecem de súbito nem por acaso!

Estas opções políticas relativas ao ensino do Português no estrangeiro, que se traduzem nos cortes de cursos e despedimentos sumários de professores, ultimamente noticiados, não decorrem da crise política que agora atravessamos. São antes o resultado de escolhas e decisões que vêm sendo ponderadamente implementadas há vários anos, e cujo objectivo dá pelo nome de “internacionalização” da língua portuguesa. Este grandioso projecto tem como instrumento incontornável o Acordo Ortográfico de 1990, reactivado graças às astúcias, muito pouco democráticas, do “Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (CPLP, São Tomé, Julho de 2004), aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, de 16 de Maio de 2008.

Contrariamente ao que dizem os seus defensores, este Acordo não contribui para uma – visivelmente impossível – “ortografia unificada”, antes subalterniza a ortografia do português de Portugal, impondo-lhe, sobretudo no que toca às consoantes ditas “mudas”, as opções, já antigas, feitas pelo Brasil (1943), de acordo com a pronúncia brasileira, bem diferente da nossa. Ora esta diferença, que todos “ouvimos”, resulta de dois sistemas vocálicos inconfundíveis. Daí que só por má-fé se possa invocar, nesta matéria, o critério da pronúncia! É a ditadura uniformizadora do maior número, a pior inimiga da diversidade cultural e linguística da humanidade! E o objectivo final deste Acordo é, de facto, facilitar a “internacionalização” da língua portuguesa, mas na sua versão brasileira, à custa da vandalização e, a termo, da liquidação da nossa língua materna. Basta ver o percurso e o papel da CPLP em todo este processo!

Neste contexto, compreende-se que o ensino da sua língua aos portugueses, em Portugal e no estrangeiro, aos nossos emigrantes e luso-descendentes, não tenha grande significado. No país, a prioridade é a aplicação do Acordo Ortográfico, assim desmantelando irresponsavelmente os esforços de alfabetização levados a cabo nas últimas décadas! No estrangeiro, é a redução drástica do número de professores e de cursos destinados a ensinar a nossa língua materna àqueles que a ela têm direito! Deixo a Carlos Reis, grande defensor deste Acordo, a tarefa de confirmar o que tenho vindo a dizer:
“ (…) em espaços em que as comunidades portuguesas registam uma presença importante, será de encarar com cautela e em termos devidamente ponderados a possibilidade de articular acções com os seus representantes, já que a actuação daquelas comunidades se fixa sobretudo na questão do ensino do Português como língua materna, o que escassamente corresponde às preocupações de uma política de internacionalização do idioma.” (in Entrevista ao JL de 16-29 de Julho de 2008; o sublinhado é meu)
Em suma, é urgente reagir, pois, contrariamente ao que se diz por aí, ainda estamos muito a tempo de o fazer! É preciso saber e divulgar: há seis anos para a entrada em vigor generalizada do Acordo (Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008), a contar de 13 de Maio de 2009, data do depósito do “instrumento de ratificação” do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (MNE, Aviso n.º 255/2010).

Defendamos o nosso direito, enquanto portugueses, ao respeito pela nossa língua materna, em Portugal e no estrangeiro! Recusemos o Acordo Ortográfico, concebido para servir interesses políticos e económicos, que não são os do povo português, e que nos inferioriza e desrespeita, assim como aos nossos descendentes, herdeiros da nossa língua!

Aproveito para comunicar que está na Internet uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, que recolhe assinaturas de cidadãos eleitores (em papel; 35000 necessárias), para apresentar na Assembleia da República um “Projecto de Lei de revogação da Resolução da Assembleia da República n.º35/2008”, já referida acima: https://ilcao.cedilha.net

Resta-me dizer que falo com conhecimento de causa: por ter lido e analisado não só o próprio Acordo e a legislação que lhe diz respeito, mas também muito do que sobre estas questões se tem publicado; e pela minha própria experiência profissional e humana – professora de Português (e Francês), no ensino secundário, reformada desde 2006, vivi 15 anos em Paris (1965-1980), tendo aí ensinado a nossa língua, durante oito anos, na Universidade de Paris III.

Termino como comecei, com Sophia de Mello Breyner Andresen, A Palavra:

(…)
«Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra»

Lagos, 05 Dezembro 2011

Maria José Abranches Gonçalves dos Santos

Este texto foi também publicado no blog Horizonte Português.

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Texto de Fernando Venâncio publicado na revista Ler de 01.09.11.

[transcrição]

Tudo começou em 1967, em Coimbra. Sopravam no Mundo ventos de mudança, e esses eram fortes, mesmo em países sob ditadura, como o Brasil, que a tinha fresca, e Portugal, que a tinha eterna. As plácidas margens do Mondego assistiam, nesse ano, a uma não menos idílica confraternização de portugueses e brasileiros. A universidade coimbrã tomara a iniciativa de um Primeiro Simpósio sobre a Língua Portuguesa Contemporânea, que haveria de ficar também único, mas ninguém o sabia então. Reunia ele a fina flor da linguística e da cultura no nosso idioma: os brasileiros Antenor Nascentes, Mattoso Câmara, Sílvio Elia, Gladstone Chaves de Melo e os portugueses Jacinto do Prado Coelho, Vitorino Nemésio, Maria de Lourdes Belchior, Luís Lindley Cintra e Herculano de Carvalho. Só faltavam realmente Celso Cunha, ausente por motivos desconhecidos, e Manuel Rodrigues Lapa, impedido de pôr pé na universidade pelos subservientes ao regime.

Numa resolução firmada por nomes sonantes, o Simpósio propôs uma «unificação da ortografia portuguesa». Considerava-se urgente «um verdadeiro e eficaz acordo» na matéria, sacrificando «preconceitos e hábitos há muito adquiridos».

Defendia-se uma grafia «simplificada», não menos «científica» que «a dita etimológica». Isto soava a revolucionário, e era-o. Atacava-se o «problema» das consoantes não articuladas (factura, recepção) por simples eliminação delas,resolviam-se as acentuações divergentes (fenómeno,fenômeno) com a geral supressão de acentos nas esdrúxulas, e encorajava-se uma futura, suplementar «simplificação» desse sistema ortográfico já «unificado».
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QUE GENTE É ESTA, em 1945, com o mundo em guerra a contar os cadáveres da barbárie nazi e das bombas atómicas de Hiroxima e Nagasaki, que se entretém, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, a cortar umas consoantes aqui, e uns acentos ali?

QUE GENTE É ESTA, em 1986, com o mundo em profunda mudança, Portugal e a Espanha a aderir à CEE, Duvalier a ser corrido do Haiti, Marcos a ser expulso das Filipinas, os mortos a gritar em Bhopal e em Chernobyl, que continua a entreter-se com as consoantes “mudas” portuguesas, incómodas para o Brasil? E cujo entretenimento foi rejeitado pela reacção da opinião pública portuguesa?

QUE GENTE É ESTA, em 1990, com Noriega a render-se na Nicarágua, os comunistas jugoslavos a ficarem sem o seu poder de 45 anos, a União Soviética a desmembrar-se a passo acelerado, Nelson Mandela a ser libertado na África do Sul, Saddam Hussein a invadir o Kuwait, as Alemanhas a reunificarem-se e Lech Walesa a ser eleito presidente da Polónia, que prepara afadigadamente as bases de um acordo “multilateral” para eliminar as “teimosas” consoantes “mudas” portuguesas, histórico empecilho à afirmação internacional da ortografia brasileira, agora incomodada pela entrada do português euro-afro-asiático-oceânico pela porta grande da Comunidade Europeia e logo com estatuto de língua oficial?

QUE GENTE É ESTA, em 1990, a 12 de Outubro, na Academia das Ciências de Lisboa, que insiste em ser assinado um acordo ortográfico da língua portuguesa (AO) que, do lado português, congregou apenas ferozes críticas por todas as instituições e especialistas científicos?
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Pela suspensão imediata do Acordo Ortográfico

[transcrição de um artigo do jornal Público de 25.06.11]


Senhor Primeiro-Ministro

Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros

Senhor Ministro da Educação, do Ensino Superior e da Ciência

1. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO) foi aprovado em 1990 pelo Parlamento e ratificado pelo Presidente da República em 91, sendo mera adaptação do Acordo de 86, abandonado por força da reacção da opinião pública portuguesa. Ao contrário do AO de 86, que teve divulgação nos meios de comunicação portugueses, a redacção e tramitação do AO de 90 ocorreram discretamente, longe do olhar e escrutínio público dos portugueses.

2. Enquanto reforma ortográfica, o AO é um desastre: não assenta em nenhum consenso alargado, não foi objecto de discussão pública, não resulta do trabalho de especialistas competentes (a julgar pelas imprecisões, erros e inconsistências que contém e pelos problemas que cria) e vem minar, pela introdução generalizada e irrestrita de facultatividades ortográficas, a própria noção de ortografia. Tudo isto foi devidamente apontado por intelectuais e linguistas portugueses ao longo dos últimos 20 anos em pareceres, artigos e livros ignorados pelas entidades responsáveis. O único parecer favorável (assinado em 2005 por um dos co-autores do AO!) é o da Academia das Ciências, instituição que patrocinou a criação do acordo.

3. Os vícios do AO enquanto instrumento jurídico configuram mentiras gritantes vertidas em lei. No preâmbulo diz-se que “o texto do Acordo que ora se aprova resulta de um aprofundado debate nos países signatários”; deste debate não há vestígio nem se conhece menção. A Nota Explicativa do AO refere estudos prévios dos quais não há registo, apresenta argumentos sem sustentação científica sobre o impacto do AO no vocabulário português (baseados numa lista desconhecida de 110 000 palavras e ignorando a importância de termos complexos, formas flexionadas de nomes e verbos e índice de frequência das palavras) e “explica” de forma confusa os aspectos mais controversos da reforma, p. ex. a consagração, como expediente de “unificação ortográfica”, de divergências luso-brasileiras inultrapassáveis com o estatuto de grafias facultativas. Algumas dessas divergências existiam antes do AO (“fato” ~ “facto”, “ação” ~ “acção”, “cômodo” ~ “cómodo”, “prêmio” ~ “prémio”, “averígua” ~ “averigua”, etc.); outras são criadas pelo próprio AO (“decepção” ~ “deceção”, “espectador” ~ “espetador”, “falamos ~ “falámos”, “Filosofia” ~ “filosofia”, “cor-de-rosa” ~ “cor de laranja”, etc.). Pelo AO a palavra “decepcionámos” (e outras similares) passaria a escrever-se correctamente em todos os países lusófonos de quatro maneiras diferentes (“decepcionámos”, “dececionámos”, “decepcionamos”, “dececionamos”). O termo “Electrotecnia e Electrónica” (designação de curso, disciplina e área do saber) poderia ser escrito de 32 maneiras diferentes, sem que o AO ofereça qualquer critério normativo. Sendo um tratado entre oito estados soberanos que reivindicam uma matriz cultural partilhada, o AO deveria ter concitado aceitação plena de (e em) todos os países signatários. Tal não aconteceu, o que, 21 anos após a sua assinatura, é prova dos problemas por ele criados.

4. Da VI Reunião Extraordinária do Conselho de Ministros da CPLP de 2010 resultou a Resolução sobre o Plano de Ação de Brasília para a Promoção, a Difusão e a Projeção da Língua Portuguesa, com a seguinte recomendação (III.5): “Nos pontos em que o Acordo admite grafias facultativas, é recomendável que a opção por uma delas, a ser feita pelos órgãos nacionais competentes, siga a tradição ortográfica vigente em cada Estado Membro, a qual deve ser reconhecida e considerada válida em todos os sistemas educativos.” Esta recomendação destitui, por si só, o AO de qualquer fundamento: como se pode defender simultaneamente um acordo que pretende unificar as tradições ortográficas vigentes nos Estados signatários através de facultatividades gráficas, e, ao mesmo tempo, propor-se que o problema das grafias facultativas se resolva pelo reconhecimento oficial de tradições ortográficas divergentes, logo, não unificadas?

5. Ninguém conhece as consequências reais do AO na sociedade portuguesa, pois nenhum estudo de avaliação de impacto foi feito e ninguém sabe estimar os custos da sua aplicação – que não serão só de ordem financeira – pois não há estudos de avaliação custo/benefício. Se os grandes projectos de Estado exigem a realização de estudos preparatórios – recorde-se que o aeroporto da Ota foi, após 30 anos de indecisão, abandonado por causa de um estudo técnico -, como se pode exigir menos relativamente à língua portuguesa escrita? A Lei de Bases de Protecção do Património Cultural inclui no conceito e âmbito do património cultural a língua portuguesa, nestes termos: “enquanto fundamento da soberania nacional, é um elemento essencial do património cultural português.” (art.º 2.º, n.º 2). É menos importante a estabilidade de um “fundamento da soberania nacional” do que um aeroporto?

6. Que o Estado português se proponha adoptar o AO sem um vocabulário normativo que não seja o vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa estipulado pelo art.º 2.º do AO (violando assim um tratado que assinou e ratificou) revela apenas a ligeireza com que esta matéria tem sido tratada e a incontrolada flexibilidade da aplicação prática do AO. Afinal, nenhum tratado internacional pode ficar sujeito a interpretações locais ou aplicações de carácter regional ou nacional.

7. O domínio da ortografia, sabe-se hoje, faz parte intrínseca da competência linguística dos falantes; não é simples “roupagem gráfica” da língua. E, como é reconhecido não só por académicos mas por instituições internacionais como, p. ex., a OCDE no relatório PISA 2003, a literacia – pedra angular da aquisição de todos os saberes formais e de todo e qualquer processo de aprendizagem escolar – pressupõe (em termos linguísticos estritos) o domínio de uma ortografia codificada estável, para além de um vasto conhecimento vocabular, gramatical e fonético.

8. O AO não serve o fim a que se destina – a unificação ortográfica da língua portuguesa – e assenta no pressuposto falacioso de que a unificação ortográfica supriria as diferenças já antigas entre português europeu e português do Brasil, de ordem fonológica, lexical e sintáctica. Mesmo que a unificação a 100% fosse possível (e o AO reconhece que não é), escrever de igual forma dos dois lados do Atlântico não assegura a compreensão mútua daquilo que é (cada vez mais) diferente e divergente.

9. Por atentar contra a estabilidade ortográfica em Portugal e integridade da língua portuguesa, o AO atenta contra o progresso e desenvolvimento do povo português em época particularmente difícil da sua História.

10. O AO é um erro monstruoso que VV. EE. têm o poder de corrigir, suspendendo a sua aplicação.


[transcrição de um artigo do jornal Público de 25.06.11]

As várias fases da ortografia da língua portuguesa

A língua portuguesa já existia, na sua forma oral e escrita, muito tempo antes de chegarmos ao Brasil, facto que parece andar esquecido:
“A individualidade da língua portuguesa começou a desenhar-se no domínio do léxico e pode remeter-se para uma data próxima do século VI. (…) Os dois primeiros textos escritos em português – a «Notícia de Torto» e o «Testamento» de D. Afonso II – datam de 1214-1216.” (M.H.M.M.)

Há que considerar três períodos na história da ortografia da língua portuguesa:
1. Período denominado sem grande precisão fonético, que corresponde à época do português arcaico.
2. Período etimológico, iniciado com o Renascimento e que se prolonga até princípios do século XX.
3. Período das reformas ortográficas, que se desenrola pelo séc. XX e vem até aos nossos dias, incluindo a assinatura do Acordo luso-brasileiro de 1945, pelo qual se tentou fixar definitivamente, uniformizando-a, a ortografia da língua nos dois lados do Atlântico.

A fase das reformas ortográficas

1907 – A Academia Brasileira de Letras (ABL) efectua uma reforma ortográfica, para simplificar a ortografia, no sentido de a aproximar da fonética; foi «complementada em 1912» (M.S.), “mas o sistema por ela proposto foi combatido inclusive dentro da própria Corporação” (P.V.C.).

1911 – É nomeada pelo governo português “uma Comissão de filólogos, entre os quais se destacava Gonçalves Viana”, Carolina Michaëlis, Cândido de Figueiredo, Leite de Vasconcelos e outros, “a fim de estabelecer as bases da denominada Nova Ortografia, que foi implantada oficialmente cinco anos mais tarde, em 1916, sofrendo ainda em 1927 ligeiras modificações” (P.V.C.).

1915 – A ABL resolve aplicar a reforma portuguesa.

1919 – A ABL revoga a resolução de 1915.
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Proteste!

21 comentários

Enviada: segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011 15:07
Para:
Assunto: Protesto
Importância: Alta

 

Para: DECO, Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor

         DECO PROTESTE, Editores, Lda.

 

Ex.mos Senhores,

 

Venho por este modo manifestar o meu profundo desagrado para com a DECO, de que sou sócio há muitos anos (n.º ……..). Motivo: a vossa decisão de adoptar desde já o novo Acordo Ortográfico nas vossas publicações e suportes, “poupando nas letras”, numa atitude seguidista acrítica e, a meu ver, pouco séria.

 

Contenção e prudência nesta matéria seriam o mínimo a esperar de uma entidade que se preocupa com os direitos dos consumidores. Mas seria até desejável que procurassem informar-se para saber se os portugueses aceitam que os políticos assim lhes estropiem a língua, componente essencial da sua identidade.

 

Em vez disso, a DECO pactua consciente ou inconscientemente com a conspiração de silêncio que tem imperado nos media e que tem contribuído para a opacidade e a prepotência com que este Acordo nos está a ser imposto. Quem tem medo de discutir abertamente o Acordo e as suas implicações? Quem receia o debate independente e cientificamente informado a que os cidadãos têm direito, num país livre, soberano e democrático?

 

Assim, a DECO também acha legítimo que a CPLP decida por nós, daquilo que é para nós vital, nos termos explicitados no Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de que destaco:

 

Tendo em conta que, desde a IV Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), ocorrida em Brasília em 31 de Julho e 1 de Agosto de 2002, se adoptou a prática, nos Acordos da CPLP, de estipular a entrada em vigor com o depósito do terceiro instrumento de ratificação; (…)”

 

A CPLP é constituída por oito países soberanos e independentes. Estranha esta concepção de soberania e de democracia que permite que três dentre eles decidam sobre a língua que todos partilham e que constitui o cimento da própria organização!

 

E foi esta “prática”que permitiu a “nova redacção” do Artigo 3.º do Acordo assinado em 16 de Dezembro de 1990 e que previa que este só entraria em vigor “após depositados os instrumentos de ratificação de todos os Estados”. E quem foram os três primeiros países a ratificar o Acordo? Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe! Dá que pensar: basta que o Brasil esteja interessado, facilmente arranja mais dois pequenos países para o apoiarem…Com a garantia de que Portugal se apressará a submeter-se!…

 

Note-se ainda que foi também desrespeitado o Artigo 2.º do Acordo, que previa que um ano antes da entrada em vigor do mesmo fosse elaborado “um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.”

 

Quem tem interesse neste Acordo inúmeras vezes denunciado pelos especialistas como desnecessário, inútil, perigoso e desprestigiante para a nossa língua, português europeu? Porque não é possível fazer ouvir a voz dos portugueses que são contra, e são muitos, criando este clima fictício de aparente unanimidade, em tudo oposto à liberdade de expressão, marca incontornável de qualquer estado democrático?

 

Fico aguardando a vossa resposta, pois espero que respondam, contrariando outra prática muito em voga no nosso país, que é de fazer de contas que ninguém falou…

Os meus cumprimentos,

                                                 Luís Manuel Robert Lopes

 

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«O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é um tratado internacional firmado em 1990 que tem por objectivo criar uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos os países de língua oficial portuguesa.»
Wikipedia PT

1. Acresce a estes dados a realidade portuguesa relativamente à política linguística, uma vez que não há, em Portugal, uma instituição com funções efectivas na normatização linguística.

2. Pelo facto de a Priberam ter adquirido uma grande responsabilidade devido aos produtos que desenvolve, às marcas a que se tem associado e ao número de utilizadores que recorrem aos seus produtos e serviços, é exigido aos seus correctores um alto grau de qualidade e a resolução pronta das dúvidas ortográficas (e não a criação de mais áreas de dúvida ou hesitação).

3. O texto do Acordo de 1990 não prevê soluções para muitos dos problemas que cria e é lacunar, ambíguo ou incoerente em alguns aspectos, pelo que foi necessário definir linhas gerais explícitas e fornecer ao utilizador a explicação de algumas opções tomadas pela Priberam. Estas opções têm de ser tanto mais explícitas quanto mais sentida for a ausência de instrumentos lexicográficos reguladores autorizados, nomeadamente o “vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa”, previsto no art.º 2.º do texto do Acordo, que permitam substituir as obras tidas como referência maior.

4. Se o utilizador escolher a ortografia segundo o Acordo Ortográfico de 1990, as opções definidas por omissão serão aquelas preconizadas pelo texto legal, sendo que, no caso de o texto legal ser ambíguo, contraditório ou lacunar, as opções são aquelas que a Priberam considera mais aproximadas do espírito do Acordo Ortográfico, com base no texto e nas obras de referência disponíveis.

5. É forçoso que exista a curto prazo um thesaurus da língua portuguesa ou um “vocabulário comum” a todas as variedades do português, mas seria útil ir mais longe na criação de instrumentos linguísticos e permitir a criação de vários vocabulários ortográficos autorizados consoante a norma de cada país, de que o “vocabulário comum” poderia ser a súmula. Estariam então, de alguma forma, organizadas SUBORTOGRAFIAS NACIONAIS, como propõe Ivo Castro, no seguimento da sua defesa de uma “versão fraca de unificação”. Acresce a este argumento o facto de o texto legal que regulamenta a ortografia ser omisso quanto às diferenças ortográficas entre a norma brasileira e a portuguesa que provêm da tradição lexicográfica dos dois países (ex.: alforge/alforje, missanga/miçanga) ou ainda o da flexão preferencial, numa e noutra norma, de verbos terminados em -guar e -quar ou o da discordância nas duplas consoantes -mm- ou -nn- (ex.: connosco/conosco, comummente/comumente). Da mesma forma, o Acordo não se pronuncia sobre a divergência específica em formas como húmido/úmido, pelo que se deve manter esta distinção nas práticas ortográficas das duas variedades, para evitar uma grande variação interna dentro de cada espaço nacional. A “Nota explicativa” do Acordo indicia uma solução semelhante no ponto 4.4 quando afirma que “os dicionários da língua portuguesa, que passarão a registar as duas formas em todos os casos de dupla grafia, esclarecerão, tanto quanto possível, sobre o alcance geográfico e social desta oscilação de pronúncia” (sublinhado nosso). Esta é uma indicação explícita de que a diferenças de pronúncia equivalerão diferenças de grafia com determinados alcances geográficos, i.e., indica que as práticas ortográficas nacionais serão necessariamente diferentes, por exemplo, no território português e no território brasileiro, bem como em cada um dos outros territórios de língua oficial portuguesa.

6. Uma vez que as diferenças ortográficas entre a variedade portuguesa e a brasileira não são totalmente resolvidas com o Acordo Ortográfico, e que as divergências não se limitam à ortografia, o FLiP contém, como anteriormente, DOIS CORRECTORES DISTINTOS PARA O PORTUGUÊS EUROPEU E PARA O PORTUGUÊS BRASILEIRO.

[Extractos de Critérios da Priberam relativamente ao Acordo Ortográfico de 1990 (português europeu)]